Serguei Lukianenko (Tradução: Eugeni Dodonov) (Revisão: Camilla Martins) Ne Speshu / Não estou com pressa Segurando um sanduíche mordido em uma mão e um pote de iogurte na outra, o demônio olhava para os lados. Ele parecia bem casual - terno velho e usado, camisa de lã, sapatos sociais e gravata. Tudo preto, apenas a gravata tinha imagens vermelhas de fogo. Se não fossem os chifres aparecendo através do cabelo e rabo atrás, o demônio pareceria uma pessoa qualquer. Tolik (*) pensou distraidamente que no pavilhão de história medieval do museu municipal o demônio de terno e gravata parecia moderno demais. Ele ficaria melhor de fraque ou terno mais antigo. - Que coisa! - pronunciou o demônio, cuspindo para fora o sanduíche. Ele colocou cuidadosamente o pote de iogurte no chão, olhou para Anatoly com o canto do olho e encostou a unha comprida e amarela na linha de giz do pentagrama. Uma faísca bateu na unha. O demônio chiou e rapidamente colocou o dedo na boca. - Eu pensei que o rabo fosse maior - disse Tolik. O demônio respirou fundo, tirou do bolso um guardanapo impecavelmente limpo e o pôs no chão. Colocou o que restou do sanduíche sobre ele. Pulou com facilidade e encostou a mão no teto - o teto do museu era alto, dando uns quatro metros até o chão. Desta vez a faísca foi maior. O demônio começou a chiar e colocou o segundo dedo na boca. - No subsolo também tem pentagrama - avisou Tolik. - Normalmente teto e chão são esquecidos - disse demônio com voz triste. - Vocês, humanos, têm mania de pensar em duas dimensões. Tolik sorriu orgulhosamente. Olhou para a cola que segurava na mão e pronunciou: - Em nome das forças sobre as quais eu tenho controle e das forças cujo controle está além dos meus poderes; assim como das forças que eu conheço ou desconheço, eu enfeitiço você a permanecer neste lugar, delimitado pelas linhas do pentagrama, a me obedecer e servir até o momento no qual eu, pessoalmente, sem influências de outros e espontaneamente, libertar você. O demônio escutava atenciosamente, mas não deixou de zoar: - Custava muito decorar? Fica lendo do papel mesmo? - Não queria me equivocar em uma única letra - respondeu Tolik seriamente. - Bem,vamos começar? Inspirando fundo, o demônio sentou no chão e disse: - Bem, colocaremos os pingos nos is? - Certamente. - Você não invocou exatamente um ser maligno qualquer. Você invocou um demônio. Isso é muito mais sério, meu jovem. Algum outro devoraria você mais cedo ou mais tarde. E eu vou enganar você - e levarei a sua alma. Bem... uma pena, uma pena... - Eusomentenão achei feitiço para invocar demônio. - Quer? - o demônio sorriu e colocou a mão no bolso. - Você me liberta e eu te dou um feitiço para invocar algum outro. Acaba tudo na mesma, mas as conseqüências são menos ruins. - E o que acontecerá com a minha alma se eu o invocar assim? O demônio deu uma risadinha. - Inteligente... Eu ficarei com ela. - Então eu recuso a sua oferta. - Tudo bem, continuemos - o demônio olhou para o pote de iogurte com tristeza. De repente ele explodiu: - Mas por que eu? Por que justamente eu? Durante cento e oito anos ninguém invocou demônios. Cansaram de brincar, se acalmaram, entenderam que entidades malignas nunca serão enganadas. E de repente, meu turno está acabando, quis comer um lanche, e me aparece você com os seus pentagraminhas! - O turno dura muito? - Nem, - respondeu o demônio com cara torta - um ano a cada dois. Faltava um mês apenas... - Lamento. Mas não posso fazer nada. - Resumindo, o Sr. invocou entidade maligna - pronunciou seca e oficialmente o demônio. - Parabéns. O Sr. tem que aceitar ou rejeitar o termo de compromisso. - Pode ler. - Aceitando os termos do presente contrato as partes se prontificam a cumprir as seguintes obrigações. Parágrafo primeiro. Entidade maligna, posteriormente referenciada como Demônio, se prontifica a efetuar qualquer desejo do cliente, que irá tratar dos problemas materiais. Todos os desejos serão realizados ao pé da letra. O desejo deverá ser pronunciado em voz alta e é aceito a ser executado após o pronunciamento das palavras "desejo formulado, começar execução". Caso o desejo formulado possua ambigüidades ou diversas interpretações, o demônio tem a liberdade de escolher e executar a interpretação que mais lhe convier. Parágrafo segundo. Homem, posteriormente referenciado como Cliente, se prontifica a disponibilizar a alma imortal que lhe pertence, posteriormente referenciada como Alma, para o Demônio, para uso eterno, caso a execução dos desejos levar à morte do Cliente. O presente termo de compromisso é efetuado sem nenhuma garantia e pode ser complementado com termos adicionais, desde que ambas as partes estejam de acordo com os mesmos. Anatoly moveu a cabeça de acordo. Ele já conhecia o texto do termo de compromisso. - Complementos para o termo de compromisso - disse ele. - Primeiro. Língua utilizada para informar o desejo: português (**). - A língua portuguesa não é certificada - disse o demônio. - Desde quando? O termo de compromisso já vem em português. Língua de formulação do desejo - português! - Tudo bem, - respondeu o demônio. - Entretanto, a nossa língua padrão é Suahili. - Segundo. Os desejos do Cliente incluem influência nas outras pessoas... - Não, não e não! - o demônio deu um pulo - Não posso. Não é permitido. Isso já é classificado como alteração das almas alheias, não posso! Anatoly já não imaginava muito que este item poderia passar. Mas não custava verificar. - Tudo bem. Segundo complemento. Cliente recebe imortalidade, que inclui tanto saúde biológica completa e cancelamento do processo de envelhecimento, quanto proteção completa contra acidentes, desastres da natureza, epidemias, ações diretas e agressivas de terceiros e, além disto, de todos os possíveis acontecimentos não mencionados acima, que puderem direta ou indiretamente levar ao encerramento da existência do Cliente ou a problemas relacionados à saúde do mesmo. - Você é um advogado? - perguntou o demônio. - Não. Apenas um estudante de História. - Entendo. Achou um manuscrito em algum arquivo... - demônio concordou com a cabeça - Acontece. E como você entrou no museu? Para que todo este enredo medieval deprimente? - Eu trabalho aqui. Como guarda noturno. Bem, quanto ao segundo complemento? O demônio moveu a cabeça de acordo e respondeu com voz irritada: - Ah, por que todos vocês fazem questão desta imortalidade? Tudo bem, o segundo complemento está aceito com a seguinte restrição: "fora os casos nos quais os prejuízos à existência do cliente ocorrerem em decorrer da execução dos desejos do próprio". Caso contrário, como você mesmo entende, eu não tenho interesse nenhum. - É claro que você se esforçará muito para que esta exceção se torne realidade? O demônio deu uma risadinha com o canto da boca. - Terceiro complemento - disse Anatoly. - Quanto às multas. Caso o demônio não consiga realizar algum dos desejos do cliente, o termo de compromisso é considerado anulado unilateralmente por parte do cliente. O demônio é obrigado a realizar todos os desejos do cliente da mesma maneira, porém ele não tem nenhum direito sobre a alma imortal. O termo de compromisso é considerado anulado também caso o demônio não consiga encontrar nenhuma formulação ambígua do desejo do cliente até o fim dos tempos. O demônio respondeu negativamente. - Ah, mas vai ter que ser - disse Anatoly. Caso contrário eu não tenho nenhum direito. Mais cedo ou mais tarde você vai encontrar algum desejo mal formulado, de qualquer maneira... O demônio concordou. - E assim eu serei condenado ao sofrimento eterno. Para que isso para mim? Não, eu tenho que ter uma chance de ganhar. Caso contrário perde a graça e fica anti-esportivo. - Você está querendo demais - murmurou o demônio. - Você tem dúvidas quanto à sua habilidade de realizar os meus desejos? - Dúvida nenhuma. O termo de compromisso foi feito pelos melhores profissionais. - Bem? - Tudo bem, terceiro complemento aceito. Mais alguma coisa? - Quarto complemento. Demônio é obrigado a não realizar nenhuma ação que possa limitar a liberdade do cliente ou o processo da livre e espontânea formulação do desejo. Demônio também não deve comprometer o cliente, como, por exemplo, através da revelação da existência do presente acordo. - Isso não é necessário - demônio mexeu os ombros. - Sobre a revelação. A gente tem sanções para isso também. Caso alguma coisa aconteça, as minhas costas vão doer também... E quanto à liberdade... Bem, imaginemos que eu cause um terremoto, feche todas as saídas deste prédio com pedras, mas e daí? Você vai sobreviver de qualquer maneira e desejará que eu transporte você para o solo. - E se eu tiver a minha boca cheia de areia? - Medroso - demônio deu uma risadinha. - Tudo bem, quarto complemento aceito. - Quinto complemento. Demônio realiza suporte técnico durante toda a validade do presente termo de compromisso. Demônio é obrigado a comparecer de acordo com o primeiro desejo do cliente em uma forma visível apenas para o cliente e explicar as possíveis conseqüências das ações do cliente, sem esconder nada e não confundindo o cliente. De acordo com o primeiro desejo do cliente, o demônio é obrigado a desaparecer e não atrapalhar mais o cliente com a sua presença. - Pesado - demônio moveu a cabeça, - você se preparou bem, não foi? Tudo bem, aceito. - Assinemos, então - decidiu Anatoly. O demônio procurou no bolso interno do terno e tirou algumas folhas. Olhou-as rapidamente, escolheu duas, colocou no chão e empurrou com a unha para Anatoly. - Insira os complementos - disse Anatoly. - Para quê? Contrato tradicional número oito. Por acaso você achou que os seus complementos eram tão originais assim? Tolik levantou uma folha e abriu. Formulário impresso na tipografia foi intitulado "Contrato de Homem com Entidade Maligna. Versão Oito". Os complementos realmente estavam lá. - Tem que ser com sangue ou pode usar uma caneta? - Seria melhor com sangue - demônio respondeu meio que com vergonha, - a gente tem um pessoal muito chato.. Bem, eu acho que não vai ter jeito mesmo... Anatoly tirou silenciosamente uma agulha de um vaso, furou o dedo e, enfiando de vez em quando uma pena de pato na ferida, assinou os formulários. Devolveu-os para o demônio junto com uma agulha limpa e mais uma pena. O demônio, tirando a ponta da língua da boca, assinou o contrato e jogou uma das cópias pela borda do pentagrama. - Feito - pronunciou Anatoly pensativamente e escondeu a cópia do contrato no bolso. - Que tal comemorar a assinatura? - Não bebo - demônio deu risada, - e não te aconselho também. Estando bêbado alguns fazem uns desejos estranhos e acabam se complicando. Fazem uns desejos que... Tsc, tsc, tsc... Posso ir? - Não preciso apagar o pentagrama? - Agora não mais. O contrato já está assinado. Escuta, onde você arrumou um giz tão bom? O dedo está doendo até agora... - Na escola da igreja. - Engraçadinho - o demônio ameaçou o Anatoly com dedo. - Meu conselho para você. Posso dizer que é um complemento oral. Se você prometer não tentar me enganar, eu também... serei compreensivo. Durante todo o tempo que você têm não te atrapalharei. Mesmo se você desejar alguma coisa estúpida, não vou pegar você na palavra. Para você é melhor assim também - terá uma vida maravilhosa. E eu ficarei mais tranqüilo. - Obrigado, mas tentarei me virar. - É um desejo? - deu uma risada o demônio. - Desejo o caramba! É uma gíria. Me responde melhor, por que você tem um rabo tão curto? - Você viu muitos demônios antes? É um rabo como qualquer outro... - Eu posso desejar que você me responda... - Cortaram quando era criança. Rabos compridos não estão mais na moda. O demônio olhou para Anatoly com cara chateada, ameaçou ele com dedo - e desapareceu. Um momento depois apareceu uma palma de mão no ar, procurou, pegou o sanduíche, o pote de iogurte e desapareceu. Tolik foi procurar um pano e um balde com água - para tirar o pentagrama do chão. Para um estudante pobre o trabalho como guarda noturno é muito importante. Um mês depois, o demônio apareceu pela primeira vez. Anatoly estava parado na janela olhando para baixo quando por trás do ombro, justamente o esquerdo, escutou uma tosse educada. - O que você quer? - perguntou Tolik. - Você tem algum peso na consciência? Você se arrepende do que você fez e quer se matar? - perguntou o demônio com esperança na voz. Tolik deu risada. - Ah, entendo... - demônio abraçou Tolik como um amigo e olhou para baixo. - Menina bonita, você tem razão! Você a quer? - Você não disse que não pode influenciar as almas de outras pessoas? - E daí? Um conjunto de rosas brancas - ela gosta de brancas... Droga, que banalidade! Depois aparece você em um "Bently" novinho... - Eu não tenho nem bicicleta... - Terá! Que que tem, cliente? - Terei - concordou Tolik, não tirando os olhos da menina.- Eu não estou com pressa. - Então? Vai, formula o desejo. Eu prometo que desta vez não vou pegar você nos detalhes! Bem, você precisa de um conjunto de flores composto por noventa e nove rosas brancas, e um automóvel em seu nome e não listado como roubado... - Desapareça - mandou Tolik e o demônio, revoltado, desapareceu. Nos anos que se passaram o demônio aparecia regularmente. O professor, doutor em História, autor de diversas monografias sobre a Idade Média, estava sentado em seu escritório na frente do espelho colocando maquiagem. Para os cinqüenta anos que ele tinha, parecia extremamente novo. Para falar a verdade, sem a maquiagem ele parecia ter uns trinta anos apenas. E sem a operação plástica feita há um tempo atrás, ele pareceria ter uns vinte anos. - Mesmo assim a sua aparência é suspeita - pronunciou o demônio com raiva, aparecendo no sofá de couro. - Comida saudável, ioga, parentes bons - respondeu Tolik. - Além disto, todo mundo sabe que eu tomo conta da minha aparência e não recuso maquiagens. - E o que você dirá daqui a uns cinqüenta anos? - Eu vou desaparecer misteriosamente - respondeu Tolik, colocando o ultimo toque. - Mas um novo pesquisador jovem irá aparecer... - Pesquisador de História também? - Por quê? Eu acho que tenho talento para ser advogado... Demônio escondeu a cara de tristeza. Falou em voz baixa, quase não audível: - Tudo parecia tão fácil... Você não quer ser o dono do mundo por acaso? Como é que isso se chama hoje em dia? Presidente dos Estados Unidos? - Se eu quiser, eu me torno um - prometeu Tolik. - Eu, como você já sabe... - ..não tenho pressa - completou o demônio. - Escuta, mas um desejo só! Um qualquer! Um mínimo! Eu prometo que vou cumpri-lo! - Hmm, melhor não - respondeu Tolik, olhando para o reflexo no espelho. - É melhor não entrar nesse assunto... Bem, eu tenho visitas daqui a pouco, é melhor a gente se despedir. - Você me enganou - disse o demônio com dor na voz. - Você parecia um qualquer que procurava vida fácil! - Eu apenas não fazia questão da palavra "fácil" - respondeu Tolik, - tudo o que eu queria era tempo indefinido. Perto da porta ele se virou para falar "Desapareça". Mas isso não foi necessário, o demônio desapareceu sozinho. ----- (*) Nome diminuitivo de Anatoly (**) No texto original: russo :-)