Serguei Lukianeneko Sem pânico! Sim, neto, o seu vô é muito corajoso. E quando ele era pequeno ele nunca chorava. Vamos, vamos, limpa as lágrimas conta quem te assustou? Perereca? Grande? Ela pulou? Não, não é para ter medo de pererecas. Quando eu era pequeno, todo mundo tinha medo de alguma coisa. Até o vô tinha um pouco de medo. Mas ele não chorava! Claro, vou contar, vou contar... Mais de que qualquer outra coisa nós tivemos medo da gente mesmo. Por exemplo, vai que as pessoas com pele preta e amarela terão tantos filhos que expulsarão todas as pessoas com pele branca. Engraçado, né? Qual é a diferença qual é a cor da pele das pessoas... E as pessoas com pele preta e amarela tiveram medo de que as pessoas com pele branca jogaria uma bomba sobre eles. Por isso todo mundo teve medo de uma guerra nuclear. O que é guerra nuclear? Bem... era uma vez que existiam grandes e assustadoras bombas, que podiam explodir e matar muitas-muitas pessoas de uma vez. E todo mundo teve medo de que as pessoas iriam explodir umas as outras. Não, não é para ter medo delas agora. Não existem mais bombas nucleares. Tiveram muito medo das máquinas! Criávamos maquinas cada vez mais e mais complicadas, e elas se tornavam inteligentes, quase como as pessoas. E nós tivemos medo de que as pessoas não iriam querer obedecer às pessoas e começariam uma guerra contra elas. De qualquer jeito - com bombas, e assim... batendo com os manipuladores nas cabeças... Alguns até tiveram medo de que as máquinas iriam usar as pessoas como baterias. Olha só como eramos burros! Também tivemos medo de que a camada de ozônio iria se destruir. Camada de ozônio? Como vou te explicar... ah, é como uma neblina, muito-muito alto, que protegia contra as luzes perigosas do sol. Era uma época que as pessoas construíram muitas usinas e automóveis, quais sujaram o ar. Por isso a camada de ozônio se destruía, o sol começava a queimar muito forte, e pessoas começaram a ficar doente. E as bombas nucleares podiam destruir todo o ozônio de uma vez. E todos nós tínhamos muito medo disso. O que mais a gente teve medo? Tivemos muito medo das doenças. Das bactérias e víruses. Nós sabíamos curar as doenças muito bem, e as doenças sabiam não se curarem muito bem também. E todo ano aparecia uma nova doença, muito-muito mais assustadora do que as anteriores. Nós começavamos a curá-la logo, mas toda vez tivemos medo de não conseguir. Tivemos medo da fome. Vai que as pessoas pretas, e as amarelas, e brancas vão ter muitos filhos mas não vão brigar. Aí eles não vão ter nada para comer, e todos vão morrer de fome. Por isso os cientistas começaram a fazer experimentos genéticos para ter muita comida para todos. Nós tivemos muito medo dos experimentos genéticos! Pensa só, os cientistas pensaram como mudar plantas e animais. Por exemplo, criar maças de tamanho de melancias. Ou galinhas de tamanho de um elefante. Isso tudo para ter muita comida. Mas claro que não foi disso que tivemos medo. Tivemos medo de que as pessoas, por exemplo, peguem uma mosca e a cruzarão com um elefante. E vamos ter um pequeno elefante voador, ou uma mosca gigante. Ou uma maça que morde. Ou... não, não, não precisa chorar, ninguém mais fazes estes experimentos! E todos tinham medo de que um asteróide iria cair na Terra. Asteróide - é uma pedra gigante, que fica voando sozinha no céu, voa-voa, e de repente vai que cai na terra! Vai machucar? Bem, pode machucar alguém, é claro. E tudo vai pegar fogo em volta. E os mares vão sair para a terra e afogar tudo. E a fumaça vai fechar o sol, e vai ficar muito frio, e todo mundo vai ficar congelado. Mas na verdade tinhamos medo de que, quando a fumaça cobrir o céu, isso vai ser como uma tampa na panela. E na Terra vai ficar cada vez mais e mais quente. E então as neves vão se derreter, e afogar tudo. Olha só, já está dando risada! Também tinhamos medo de extra-terrestres. Tinhamos medo de que eles vão chegar na Terra das outras estrelas, vão ver o quanto o nosso planeta é bonito, e vão querer tomar ela para si. E vão levar as nossas mulheres para a prisão deles. E vão mandar os homens trabalharem para eles. E vão comer todas as crianças. Por isso nós estavamos fazendo mais e mais bombas nucleares. Vai que precisa. Para explodir um asteróide, expulsar os extra-terresterrestres e brigar entre a gente. Bobos? Sim, neto. Eramos muito bobos. E tinhamos medo de tudo... Mas não estavamos chorando, ouviu? E também tinhamos medo de umas besteiras que é engraçado só de lembrar! Por exemplo, tinhamos medo de perder o emprego. Não, nós não gostavamos de trabalhar. Mas tinhamos medo de perder o emprego. Tinhamos medo de roubarem algo da gente. O que exatamente? Bem... alguma coisa. Que os vizinhos vão falar mal da gente. Claro, isso não é o fim do mundo. Mas tinhamos muito medo disso, sempre queriamos aparecer as melhores pessoas no mundo. Tinhamos muito medo da ditadura. Ditadura - é quando um começa a mandar em todos e governar sozinho. Isso se chamava com uma palavra assustadora "tirania". É assim que o vô vivia... Como paramos de ter medo? Ah, isso aconteceu por si mesmo. No começo as pessoas começaram a brigar entre si. As vezes brancas com amarelas, as vezes pretas com brancas. Mais freqüentemente, brancas com brancas, pretas com pretas e amarelas com amarelas. Para ninguém se sentir excluído. Porque todos queriam brigar, e ninguém queria morrer, as pessoas construiram muitas-muitas máquinas inteligentes. E elas começaram a brigar entre si. Depois eles se tornaram tão inteligentes que não quiseram mais morrer. E começaram a brigar com as pessoas. Algumas máquinas voavam, algumas se rastejavam, e todas batiam na gente com os manipuladores e ameaçavam fazer baterias da gente. Por isso nós jogamos bombas nucleares sobre elas. Todas as máquinas se queimaram de vez depois disso. Tá vendo, nem precisava ter medo delas afinal. O problema foi que a camada de ozônio depois das bombas nucleares começou a se destruir, e o sol começou a queimar muito. Das bombas nucleares e radiação do sol as bactérias e os víruses mutaram logo-logo, e muitas doenças novas e assustadoras apareceram. Mas depois não sobrou nada da camada de ozônio, e as bactérias e os víruses morreram rapidinho. Por isso muitas pessoas pensam que a camada de ozônio fez muito bem em se destruir. Todas as pessoas que sobraram até lá, não eram mais nem brancas, nem amarelas e nem pretas, mas do jeito que estamos hoje - verdes. E logo pararam de brigar por causa da cor da pele. Tá bom, só de vez um quando - os verde-escuros contra os verde-claros... Nós não tinhamos mais medo de fome, porque não tinha mais tanta gente assim. E, além disso, os cientistas que ainda sobreviveram, terminaram os experimentos genêtios deles. Não apareceu mais comida por causa disso, porque proibiram aos cientistas a experimentarem com os animais. Mas as pessoas se tornaram menores, e passaram a precisar de menos comida. E o sol? Sim, sim, ele fazia mais e mais calor tempo todo. A terra começou a se queimar. Mas aí, por sorte, chegou um asteróide e caiu no oceano pacífico. As ondas eram tantas que todos os fogos se apagaram de vez. E a fumaça levantou no ar, ficou lá e substituiu a camada de ozônio. É uma pena, claro, que não podemos mais ver o sol, só uma luzinha que as vezes dá para ver através das nuvens... Sim, claro, os invernos são muito frios desde aquele tempo. Mas como na Terra após o asteróide os vulcões começaram a se explodir direto, tudo ficou bem. E justamente ai chegaram os extra-terrestres malignos. Como descobrimos, foram eles que jogaram o asteróide sobre a gente - para assustar. No começo eles pegaram os homens e mandaram eles trabalharem. Mas descobriram que nenhum homem consegue mais levantar nenhuma ferramenta. Então os extra-terrestres começaram a torturar as crianças. Mas descobrimos também que, depois de tornarmos verdes e pequenos, nós tornamos venenosos também. Principalmente as crianças. Então os extra-terrestres mandaram entregar todas as mulheres para eles. Nós, claro, protestamos, mas as mulheres se organizaram sozinhas e foram até os extra-terrestres... E ai todos eles fugiram. Todos, menos aqueles que ficaram loucos ao verem as nossas mulheres... Não, não, não precisa chorar não! Você sabe que a mamãe só sai das cavernas no escuro! As besteiras como perder o emprego ou serem roubados também paramos de ter medo. Primeiro, ninguém mais trabalha. E segundo, não temos mais nada para roubar. E o que os vizinhos vão pensar da gente, também não estamos nem aí mais! Quem interessa pela opinião destes verde-claros idiotas? E ter medo de um ditador malvado, que vai criar a tirania, é até engraçado! Você sabe que quando alguém crescer um pouquinho a mais do que os outros, ou fica mais inteligente - todos nós vamos bater nele. Até estamos prontos a chamar os verde-claros! E foi assim que paramos, neto, de ter medo. Nós tornamos muito corajosos - e não choramos mais, até ao encontrar uma perereca assustadora... Vamos, limpa as lágrimas, o vô vai pegar a lança dele, e vamos caçar a perereca. Você, netinho, vai na frente, porque você é pequeno e venenoso. E eu atrás, com a lança. E a noite a mamãe vai preparar comida de perereca para todo o tribo!