Dadiva ------ - Então é só assinar aqui e está tudo pronto? - Exatamente. - Pois bem então. Barulho de uma pena escrevendo num papel. Movimento curto para finalizar a assinatura. Barulho da pena, jogada de lado, caindo no chão. - Magnífico. Uma mão cuidadosamente enrolou o papel e colocou no bolso interior do terno. - E.. como isso vai acontecer? - a voz que fez a pergunta tremeu pela primeira vez. - Não há de se preocupar. Isto não será confundível com nada. Aproveita os seus desejos enquanto isso. - Sim.. - a voz se abaixou, fazendo com que a palavra fosse quase inaudível. - Mas - posso fazer uma pergunta a parte? Muitas pessoas fazem isso em dias de hoje? Ou eu sou o único? - Ora, o tempo para esta pergunta era de ter sido anterior à sua assinatura. Agora não há de porque eu responder a ela. Mas - como um jesto de boa vontade, responde-la-ei. É um negócio muito lucrativo para nós. Ao descobrir o quanto isso ajuda a manter os nossos negócios sempre lucrativos, surpreenderá-se. Mas agora permita-me a me retirar. Muitos pedidos a serem atendidos impossibilitam a minha permanência aqui por tempo desnecessário. Até logo. Com um piscar de olhos, de duas pessoas presentes na sala sobra apenas uma. E cheiro de enxofre e fósforo se queimando permanece no ar. Uma pequena poça de sangue se forma em torno da pena, esquecida no chão. - A diversão começou - um murmurro fica no ar, sendo encobrido pelo silêncio e escuridão em volta. * * * No começo isso parecia uma idea absurda. Absurda não somente pela impossibilidade disso ser verdade, mas tambem pelo fato de que se isso realmente for real, só de pensar nisso o risco de perder tudo era considerável. Afinal, nos dias de hoje, pessoas que acreditam em alguma coisa - seja ela Deus, Demónio, ou qualquer outra crença besta como esta estão sendo consideradas "ultrapassadas". No final das contas, eu acho que foi isso o que me fez decidir. Um pergaminho que encontrei escondido no meio de livros velhos da biblioteca não parecia ser nada de útil. Eu até pensei em jogar ele no lixo, mas uma coisa nele acabou chamando a minha atenção - um desenho caprichado de um pentagrama invertido. Sabe, estas coisas que em dias de hoje se ve nas lojas, nos shows e até em patricinhas de shoppings que vestem coisas que não sabem o que significam só para chamar atenção. Então, foi este desenho que não me deixou jogar o pergaminho no lixo logo no começo. Após isso - só de curiosidade - eu li o que estava escrito nele. Quando terminei de ler, a primeira coisa que veio a cabeça foi que alguém leu demais os livros de Stephen King ou Clive Barker e decidiu brincar com isso. Segundo pensamento meu foi sobre o Faust, de Goethe - eu nunca li sobre ele, mas o nome veio a cabeça por algum motivo - talvez algum filme ou alguma coisa que eu tinha escutado. Finalmente, eu pensei que este pergaminho saiu de algum jogo de RPG onde pessoal brincava de demónios e tal. O estranho em tudo isso foi o procedimento escrito no pergaminho e a lista de ingredientes - ao contrário da maioria dos livros de terror e ficção, não tinha nada demais nele. Nada de sangue de virgens tirada na meia-noite com lua cheia, nem cabeças de morcegos mortos por um gato na virada do ano. Era uma lista símples, com coisas facilmente compráveis em um supermercado comum ou, no pior caso, fáceis de serem feitas. O procedimento também não parecia complicado. Não precisava sacrificar uma dúzia de gatos pretos, nem queimar cachorros vivos nem coisas piores. Tudo parecia ser coisas de um teatro - apenas alguns jestos, palavras e enredo facilmente montável. Enfim, estes detalhes não me fizeram esquecer de vez deste pergaminho. Porém, por alguns dias eu tinha deixado ele de lado, numa gaveta no meu quarto. * * * Neste dia eu voltei para casa alegre. Saí com amigos meus, e foi coisa de sempre - cerveja, mulheres, muita música gótica e um pouco de fumo alegre no final. Eu voltei para casa rindo das coisas mais símples - paredes brancas, lampadas piscando, escada suja.. A chave do meu quarto que eu demorei alguns minutos para encaixar na fechadura quase me deu crise de riso. Enfim, coisas que certos fumos provocam. Hoje em dia ninguém se surpreende mais com isso, é a geração pós-pepsi em ação. A primeira coisa que eu vi ao chegar em casa foi o pergaminho jogado no meio da sala. Provavelmente o vento entrou pela janela aberta, tirou ele da gaveta e jogou no meio da sala. O ritual descrito nele me deu um crise de riso de novo e eu, morrendo de dar risada, pensei que seria engraçado demais reproduzir ele. E foi assim, dando risada que nem louco, eu fui na cosinha. Um conjunto de velas (o ritual exigia velas pretas, mas eu só tive brancas. Resolvi este problema pegando tinta preta junto), giz branco, ovos de galinha que eu encontrei na geladeira, uma faca e caixa de fósforos - tudo fácil de achar. Voltei para o quarto, tirei o carpete do chão e desenhei um pentagrama consultando o pergaminho. O efeito de álcool e outras substâncias presentes no sangue me fez refazer este desenho um par de vezes até que ele ficou perfeito. Na medida do possível, obviamente. Acabei praticamente com todo o giz no processo. Após isso foi mais símples. Demorei um pouco para pintar as velas de preto (este processo quase me matou de dar risada, mas consegui terminar ele). Coloquei elas nos cantos do pentagrama e acendi com fósforos. De acordo com o pergaminho, quebrei dois ovos no meio do pentagrama, cortei o polegar esquerdo com faca e derrubei algumas gotas de sangue em cada canto de pentagrama. A dor no dedo cortado me fez voltar um pouco na real. Mas - como eu falei logo no começo desta história - quem em dias de hoje acredita nessas coisas de demónios? Eu decidi terminar o ritual e depois - quem sabe - tirar uma foto para mostrar para os amigos. Eles com certeza achariam divertido. Portanto, fechei as janelas e tranquei a porta. Apaguei a luz, sendo que a sala continuou sendo iluminada apenas pelas velas se queimando nos cantos do pentagrama. Provavelmente, se eu parasse por aí, nada teria acontecido. Mas eu, obviamente, resolvi seguir em frente. A última parte do ritual, de acordo com o pergaminho, foi pronunciar três frases em uma lingua desconhecida (depois eu descobri que era aramáico) e, logo após pronunciar elas, cuspir no meio do pentagrama. Como eu tinha dito antes, tudo isso parecia uma coisa muito estupida e símples. Eu segurei o pergaminho na frente dos meus olhos e li a primeira frase. * * * Eu acordei no meio da rua. Num beco escuro, sujo, cheio de lixo. Com dor de cabeça que estava parecendo que iria me matar. Memórias se voltavam devagar. Lembrava de ir casa de amigos meus para se divertir, mas o que aconteceu depois estava fugindo dos meus pensamentos. Mas como fui parar aqui? Nunca tinha vindo para este lugar tão estranho. Eu me arrastei até a parede e levantei me agarrando nela. Nisso eu bati o olho nas minhas mãos e vi que elas estavam sujas de alguma coisa vermelha e seca. Vermelha e seca? Segurando com uma mão na parede, eu encostei a outra no nariz e cheirei. Era cheiro doce e familiar. Era.. Era.. O pensamento estava lento, mas alguns momentos depois eu me toquei. Sangue. As minhas mão estavam cobertas de sangue. Isso foi como um choque elétrico. A dor de cabeça fugiu momentariamente, e eu comecei a tentar tirar a sangue, mexendo as mãos sem parar e cuspindo nelas. A memória começou a voltar, mas devagar.. Muito devagar.. Algumas pessoas vestidas de roupa de couro. Motocicletas gigantes e escuras. Mulheres praticamente sem roupa. Fogo. Eu cai de joelhos, mas pensamentos não paravam. A memória, até então escondida, voltava impiedosamente. Igreja escura, com vidros quebrados. Eu, andando num tunel escuro, segurando alguma coisa na mão direita e tocha na mão esquerda. Menina de uns sete ano, segurando uma cruz nas mãos e olhando com olhar de medo, medo profundo, terror assustaror e infinito. Alguma coisa familiar nela. Eu agarrei a cabeça com as mãos, tentando evitar as memórias que estavam voltando cada vez mais e mais rápidamente. Memórias próximas e distantes, memórias de... Eu, criança feliz na foto. Eu, mesma criança cercado pelos pais. Eu, mais velho, e meus pais. Eu, mais velho, meus pais, já idosos e uma criança, menina, feliz, me abraçando.. Eu mordi os lábios tentando segurar o grito. Era a minha irmã. Mas porque, porque, porque ela estava olhando para mim desta maneira? Porque ela segurava uma cruz nas mãos como se fosse a única coisa que poderia defende-la? E porque este terror nos olhos dela? Porque, porque este medo olhando para mim. Eu tentava segurar grito, mordendo os lábios, mas as memórias não paravam de voltar. E, quando eu finalmente lembrei, não consegui segurar o grito de desespero, grito de animal ferido mortalmente, grito que saiu pela garganta junto com sangue dos lábios mordidos. Eu lembrei. * * * Tudo começou tao bem. No dia seguinte eu não acreditava mais no que tinha acontecido, tudo parecia um sono, embora muito real. Mesmo o pentagrama desenhado no meio da sala. Apenas uma leveza infinita na mente. Como se eu tivesse tirado um peso infinito que eu carregava durante muitos anos e comecei a andar, sorrindo. Liberdade. Liberdade absoluta, liberdade de tudo, das regras, paixões, sentimentos e deveres. Uma sensação estranha mas com qual acostumei rapidamente. As memórias estavam aparecendo na minha cabeça sem nenhum motivo aparente. Eu lembrava de eu, criança, brincando na rua quando chegou a minha mãe e me levou para casa para estudar. Porque ela fez isso? Não fazia mais sentido. Eu levantei. A mesma leveza dos pensamentos se manteve tambem nos movimentos. Uma sensação de.. de.. invulnerabilidade? Alguma coisa, uma memória estranha de uma conversa de ontem veio rapidamente na memória mas logo desapareceu. Conversa? Era apenas um sonho, nada mais do que isso. Eu, criança brincando na rua. Mãe levando para casa, atrapalhando o jogo. O meu jogo. Com mesmo sorriso na boca, eu entrei para o quarto da minha mãe. Ela estava lá, dormindo. Muito mais velha do que naquela memória minha. Mas isso não fazia diferença. Eu peguei um travesseiro e coloquei na cara dela, segurando com os dois braços. * * * Saindo do apartamento, eu continuava sentido a mesma leveza. O cachorro latiu para mim mas, logo após eu abaixar o meu olhar para ele, o susto nos olhos dele fez com que ele fugisse para um canto, chorando. Cachorro.. Interessante, o que será que tem dentro dele? Deve ser interessante descobrir.. Com mesmo sorrizo e leveza eu fui para a cosinha. Mãe sempre guardava as facas lá... * * * As memórias voltavam continuamente. Eu mordi o meu braço, tentando segurar o grito novamente, não sentindo dor. O que eu fiz? O que eu me tornei??. Cada memória doia mais e mais, embora depois de cada delas eu pensava que isso era impossível. Eu lembrava de tudo. Dos primeiros passos, da liberdade, das minhas ações. Das coisas que eu tinha feito. O que eu tinha feito neste dois meses.. Como eu me tornei isso? Eu lembrei de como, quando eu passei perto da igreja pela primeira vez, uma dor começou a me queimar por dentro, mais e mais com cada passo. Como eu saí correndo, atraíndo olhares das pessoas em volta, com medo de perder a sensação de leveza e liberdade. Como eu acabei parando embaixo da ponte, encontrando pessoas nas quais senti a mesma sensação de leveza. De como me juntei a eles, de como a minha leveza aumentava cada vez mais e mais com cada ritual que eles faziam. De como eu fiz o primeiro sacrifício neste ritual. Da sangue se jogando da garganta cortada de uma criança de cinco anos, dos gritos dela. O que eu me tornei??? Eu me lembrei de como a gente foi numa igreja abandonada, escondida num vale entre as montanhas. De como a gente foi por um túnel escondido, levando as tochas para iluminar o caminho em mão esquerda e facas e instrumentos na outra mão. Eu lembrei de que que aconteceu lá, de todas as crianças indefesas.. Eu vomitei, só de lembrar isso. Como eu fiz aquilo? Porque, porque, porque?? Mas o pior ainda estava por vir. Eu sabia disso e tentava me esconder, fugir das memórias.. Futilmente. Esta última memória foi de ontem. E foi aqui. * * * Nesta noite estavamos juntos novamente para realizar o nosso ritual para o nosso pai luminoso. Desta vez eu fui escolhido para ser o primeiro a fazer o ritual. Desta vez o local escolhido foi um beco sem saída, escondido na favela da cidade. Eu estava aguardando na sombra quando os meus novos irmãos chegaram com as ovelhas. Todas entre cinco e nove anos, roubadas nas ruas, nas escolas, e assim por diante. Todas a serem oferecidas para ele. Quando os capuses das crianças foram tirados, eu vi ela. A memória me lembrou dela, mas nada mexeu com a minha leveza. Ela me reconheceu, eu vi isso nos olhos dela. E nos olhos dela, a sensação de esperança fugiu, sendo substituída pelo medo e desespero quando ela viu eu, com a faca na mão. Indo para ela e sorrindo. Não sei como aconteceu o que aconteceu, mas ela conseguiu soltar o braço direito quando eu estava a apenas dois passos dela. E a única coisa que ela fez foi enfiar a mão dentro do vestido, na altura do peito, para tirar uma cruz de prata, pendurado numa corrente pequena. Pela segunda vez que eu me lembrava nesta nova forma, eu senti a leveza sendo trocada por medo e dor. Foi da mesma maneira que aconteceu perto da igreja, só que desta vez foi mais fraco. Eu não conseguia olhar para a cruz dela de dor nos olhos. Eu virei a cara e dei mais um passo, levantando a faca. O terror nos olhos dela se misturou com uma outra sensação e eu vi lágrimas caindo dos olhos dela com o canto do olho. E então ela esticou o braço dela e encostou com a cruz no meu peito. A dor que eu senti era incomparável. E, caindo inconciente, o meu ultimo pensamento foi o entendimento deste sentimento nos olhos dela. Dó. * * * Eu me levantei. Sim, agora eu lembrava de tudo. Era este mesmo lugar onde eu estava ontem. Rapidamente eu olhei para os lados, mas não vi nada. Apenas alguma coisa brilhando num canto. O que aconteceu ontem nunca tinha acontecido antes. Uma vítima indefesa conseguiu derrubar um caçador - no caso, eu. Ela não podia mais ser oferecida para ele de maneira símples, como a gente ia fazer. Não. O ritual deveria ser refeito no nosso santuário. Na igreja abandonada no meio das montanhas. Quando? Eu levantei os olhos para ceu que começava a escurecer. Nuvens cinzentas estavam fechando o sol no horizonte. Mais ou menos sete horas da noite. Faltavam cinco horas para o próximo ritual. Mas o que eu posso fazer? O que eu, que rejeitou tudo, pode fazer para salvar talvez a única pessoa que ainda se queixava comigo? Neste momento eu senti a minha leveza começar a voltar. Não! Não, não, não quero mais isso! Não posso, não! Mas o que eu posso fazer?? Provavelmente o último raio de sol conseguiu esquivar do escudo das núvens e cair sobre este lugar esquecido. E eu vi um brilho num canto novamente. Brilho de alguma coisa de prata. Eu corri para lá, com última e louca esperança na minha alma perdida. Por favor, por favor, seja o que eu estou pensando. A leveza estava me dominando, fazendo parar de pensar. Porque isso? Estou feliz assim. Estou livre. Eu parei. Realmente, porque eu fiquei pensando estas besteiras todas? Ainda preciso ir para o santuário para o ritual de hoje. Ritual.. Algum pensamento veio na minha mente. Algum pensamento recente. Era alguma coisa parecida com.. Foto.. Foto minha, de meus pais, e de alguma menina.. Não!! Eu me segurei neste pensamento, como uma pessoa que se afoga se segura em um galho. Minha irmã! Eu tenho que.. De todas as forças, com um esforço indescritível, eu me soltei da leveza. O que fazer? Eu dei os últimos dois passos e caí de joelhos. Era aqui que eu vi o brilho. No meio das folhas caídas. Eu me joguei no meio destas folhas, na tentativa de ultrapassar o próximo ataque de leveza. Eu tive certeza que do próximo eu não conseguiria escapar. E, ao mesmo tempo que a leveza me tomou novamente, a minha mão esquerda segurou um objeto metallico. Uma cruz de prata. * * * Quando eu finalmente cheguei no santuário, faltavam quinze minutos para meia-noite. Ainda havia tempo. Eu sabia o que precisava fazer e nada, nada neste mundo conseguiria me deter. Nem a dor constante no peito, onde cruz prateado encostava na minha pele. * * * No nosso clã havia 13 pessoas. Eu era o decimo-quarto. Duas pessoas estavam guardando a entrada. Os momentos de confusão deles, enquanto ao mesmo tempo que eles me reconheceram e sentiram alguma coisa estranha foram suficientes para mim. Um deles morreu rápido, com a faca no coração. O último sentimento dele foi de uma surpresa infinita. O outro tentou reagir, mas não teve tempo suficiente para me impedir. Uma joelhada deixou ele sem poder respirar por alguns segundos. E, após isso, ele deixou de respirar para sempre. É difícil deixar o ar chegar até os pulmões quando a sua garganta está cortada de um ouvido até o outro. De onze pessoas dentro da sala, sete faziam parte do pentagrama, segurando velas, duas estavam cantando uma liturgia invertida e a décima estava segurando a vítima enquanto última fazia o sacrifício. A minha memória me lembrou que quem fazia estes sacrifícios antes era eu, enquanto duas pessoas seguravam as crianças. Isso me fez juntar os dentes. Tudo isso vai acabar hoje. As três facas que eu tive (a minha e das dos guardas que já foram para o inferno deles) me serviram bem. Os cantores estavam concentrados demais e não me ouviram entrar. Dois deles morreram instantaneamente, um com garganta cortada e outro com faca enfiada no rim direito. Esta região provoca uma morte instantânea de choque de dor. Eu usei a surpresa deles ao máximo. Sem as duas facas, eu chutei o joelho de mais um membro do pentagrama, deslocando-o. Ele não conseguiu segurar o grito, caíndo, e este grito logo se transformou em ronco mortal quando eu segurei o pescoço dele e torci. A queda dele fez o resto. Mas isso acabou com a minha surpresa. Eu consegui acabar com os três mais fortes em alguns instantes, mas nisso a minha sorte acabou por aí. Uma faca entrou na minha costela e escorregou. Eu não consegui segurar grito de dor. Outra faca atravessou o meu braço esquerdo. Eu caí no chão, evitando um ataque que atravessaria o meu coração. A dor nas costas, alimentada pela queda, me fez perder a vista por alguns instantes. Eu voltei a ver somente para ver uma faca se aproximando dos meus olhos. E depois veio a escuridão. * * * Neblina cinza me cercava. Eu sentia leveza.. Mas não a leveza maligna a qual já tinha me acostumado. Uma leveza como se eu tivesse terminado um trabalho difícil. Eu abaixei o olhar e vi fogos vermelhos em uma profundidade infinita. Olhando para cima eu vi num abismo do céu distante nuvens brancas e brilhantes. Em torno de mim - somente neblina. Eu não sabia se eu flutuava ou estava pendurado. Ele apareceu de nada na minha frente. Um homem com cabelo sujo, cinza e cumprido, vestindo uma capa rasgada e suja. Somente os olhos dele revelavam a idade inacreditável dele. - Porque estou aqui? - perguntei - Eu não devia estar lá, embaixo? Ninguém sabe o quanta coragem me custou perguntar isso. - Porque você se arrependeu - respondeu ele, com voz envolvente. - Você sabe que eu fiz coisas terríveis. Eu não posso ter perdão. Mesmo se Ele me perdoar eu não vou conseguir me perdoar nunca. Ele permaneceu quieto. - Eu tenho que pagar os meus pecados - disse eu. Uma parte de mim estava gritando, chorando, implorando para não falar isso. Esperando que ainda existiria uma chance de eu não precisar ir lá. Eu não deixei esta parte minha me controlar. - Eu sei que o que fiz não tem perdão - repeti eu. Ele permaneceu quieto mas, quando eu tentei falar de novo, respondeu. - Um que se arrepende do fundo do coração merece perdão. Mas eu continuei falando. - Você sabe que eu nunca fui uma boa pessoa. Eu nunca fui na igreja, eu nunca acreditei formalmente. Além disto, eu fiz coisas terríveis. A minha alma não merece perdão. - Ele tem toda razão - pronunciou uma voz atrás de mim. Eu escutei passos - passos nesta neblina infinita - atrás de mim. Os passos se aproximaram e eu vi.. - Olá, colega! - disse ele. - Como você pode ver, ele é todo meu. Ele, por livre e espontánea vontade, fez o acordo. Ele assinou o contrato, com sangue dele. Com estas palavras ele tirou a folha de papel do bolso interno do terno e abriu ela. Eu reconheci ela. Eu a teria reconhecido de milhões. - Eu, da minha parte, compri todos os termos de acordo. Nem Ele pode falar nada quanto a isso. O meu primeiro interlocutor olhou para mim. - Ele tem razão? - perguntou ele. - Sim. - Ele realmente compriu tudo o que ele te prometeu? Eu fiquei sem poder responder por alguns instantes. Uma parte minha implorava para dizer que ele me enganou, que foi mentira, que foi.. Mas eu sabia que o único culpado por tudo era eu mesmo. O silêncio estava ficando interminável quando eu finalmente falei. - Sim. O segundo visitante sorriu, contente, e disse: - Pronto, colega. Levá-lo-ei. - dando um passo na minha direção. - Espera - pronunciou o primeiro. Olhou para mim e perguntou: - O que você pediu? Eu respirei fundo. Até esta neblina infinita em volta.. O que vai me esperar lá embaixo, no reino dele? Eu não vou mentir. Eu fiz coisas terríveis, mas.. eu não vou mentir. Nunca. Mesmo que isso me custe a alma, a vida e tudo o que vem depois. - Eu pedi.. Os olhos do segundo brilharam como de um gato contente. - ..Felicidade - terminei. Imediatamente o segundo completou: - E foi exatamente isso o que eu ofereci. Eu dei liberdade. Enquanto ele se disfrutava da minha dadiva, em nenhum momento ele sentiu tristeza. Nem arrependimento. Nem dó. Nem pena. Nenhum sentimento ruim! Eu, de bondade, até tirei a possibilidade dele sentir dor! O que é felicidade se não a falta se sentimentos ruins? Ele não sentiu nada de ruim! - E ele não sentiu nada de bom. - respondeu o primeiro com voz baixa. - Ora, mas isto é apenas um ponto de vista.. - continuou o segundo, mas o primeiro interrompeu, com a mesma voz baixa. - Ele não sentiu amor. Nem amizade. Nem saudades, paixão, nem tranquilidade. - Colega, você está se contradizendo. O que é amor se não um prelúdio para ciúme, dor, vingança? E amizade - o que se torna isso quando um amigo te abandona e esquece? Quando ele te despreza, joga no lixo, esquece e faz de conta que você não existe? Ou você vai dizer que é felicidade isso? Não me faça rir. - O seu dom fez com que não somente ele sentisse essas coisas, mas que ninguém em volta sentisse nada de bom em relação a ele. Apenas ódio, medo, desprezo e pavor. - Colega, não se faça de desentendido. Eu compri exatamente o que ele me pediu. Se ninguém sentiu dó, amor ou compaixão por ele não vem ou caso. Ha! Eu ficaria surpreso caso isso acontecesse. Ha-ha! Eu juro que nem levaria comigo ele caso alguém pudesse sentir algum destes sentimentos por ele após tudo o que ele fez! Ele olhou para mim e olhos dele brilharam com fogo vermelho. - Mas chega disto. Ele é meu, e estou levando ele. Agora. Ele deu um passo na minha direção e tentou me segurar pelo pescoço enquanto uma faísca bateu na mão dele. Ele rapidamente tirou a mão e olhou para o oponente dele com cara de fúria. - Que história é essa? Como você se atreve a me deter? O primeiro balançou a cabeça em um jesto negativo. - Não sou eu. É ele. - Ele?? Desde quando um mero mortal tem poder aqui?? O primeiro olhou para mim. Foi surpresa ou aprovação que eu vi nos olhos dele? - Desde que você fez o seu juramento. A expressão do rosto do segundo se transformou numa surpresa infinita. - Juramento?? Em nome do luminoso, de que raios do juramento você está falando? Nisso um entendimento passou pelo rosto dele e ele olhou para mim. Rosto dele se transformou numa expressão de fúria. - Você? Eu abri a minha jaqueta e segurei a cruz prateada na mão esquerda. Ela não me machucava mais. Ao contrário, eu senti uma sensação de carinho vindo dele. Como se fosse a mão de uma irmã menor me segurando... - Você??? A raiva dele explodiu num golpe na direção da minha cabeça. Eu não me mexi, mas o raio de faíscas saindo da cruz o deteve. Ele se acalmou rapidamente, como se nada tivesse acontecido. - Muito bem, colega - disse ele. - Realmente, bobeei. Mas eu duvido que o seu chefe vai aceitar algum como ele também. Ele olhou para mim e sorriu. - E, sendo assim, mais cedo ou mais tarde você voltará até mim. Até logo. A neblina se juntou em torno dele e logo depois eu fiquei a só com o meu primeiro interlocutor. Ele ficou quieto por bastante tempo. - Ele teve razão. Você não tem direito de ir lá, para cima. Silêncio. - Você tem que ficar aqui. Silêncio. A expressão dele mostrava compaixão. - Para sempre. Ele começou a se virar de costas para mim enquanto eu falei. - Por favor. Ele parou e olhou para mim. - Eu concordo. Realmente, eu não tenho direito de ir lá. Mas por favor, me deixa voltar. Eu preciso terminar o que comecei. Ele respondeu momentaneamente: - Eu não posso. Não está no meu direito. - Então pergunta para Ele. Ele está lá em cima, mas ele está vendo tudo o que está acontecendo no mundo. Pergunta para ele. Eu não estou pedindo por mim. Estou pedindo por ela. Ele olhou para a cruz que eu estava segurando na mão esquerda. - Por favor. Eu só peço isso. Só pergunta para ele. - Tudo bem. Ele fechou os olhos por um instante e abriu novamente. - Ele não respondeu. - E o que isso quer dizer? - Que ele não conco.. Eu o interrompi. - Mas não será que isso quer dizer que você que tem que fazer a sua própria decisão? Ele ficou quieto. Eu continuei. - Eu acho que eu sei quem é você. Os olhos dele brilharam no fundo, por um instante. Mas eu vi. - Você não pode saber - disse ele. - Mas eu sei. Eu fiquei quieto por um instante. E depois continuei. - Na Revolta, o Luminoso se atreveu a se opor a Ele. Muitos dos anjos acreditaram e se juntaram a ele, enquanto outros permaneceram fieis. Eu fiquei quieto novamente. - Mas existiam alguns que não se juntaram a nenhum dos lados. Mais uma pausa. - Os que ganharam continuaram com nome de anjos. Os perdedores, os anjos caídos, perderam este nome. Eu parei novamente, mas não vi nenhuma resposta dele. - E os que ficaram neutros... - Ficaram conhecidos como anjos cinzentos. Foi a primeira coisa que ele pronunciou depois de que eu comecei a falar. Eu olhei em volta, para a neblina cinzenta. Para a capa cinza dele. Depois olhei para os fogos embaixo e para as nuvens em cima. - Você não se arrepende de não tomar uma decisão? Dor nos olhos dele. - Eu sou apenas um intermediador aqui. Eu não posso tomar as decisões. Mas eu continuei. - Você não pode tomar decisões porque você não pode, ou porque até agora tem medo de tomar a decisão errada? Eu continue, sem deixar ele responder. - Você ainda é um anjo. Porque você acha que Ele não te baniu junto com os outros? Será que não foi por causa disso? Não tem como diferenciar decisões certas das erradas sem tomá-las. Eu logo vi que cometi um erro e, antes dele responder, completei. - Ou de se arrepender. Silêncio. Silêncio interminável. Dor e entendimento nos olhos dele. Eu continuei. Eu precisava falar isso para ele. - Ele não disse que qualquer um pode ser perdoado? Porque você, VOCÊ não quer escutar ele? Você estava perto do trono dele. Você ainda está. É só você entender. E neste momento eu entendi. - Me responda - eu pedi. - Quando foi a última vez que Ele falou com você? Será que não foi logo antes da Revolta? Luz, luz brilhante nos olhos dele. - Pergunta para ele isso - pedi ele, em voz baixa, quase inaudível. Ele fechou os olhos. E neste momento eu vi isso acontecer. Eu vi como a capa cinza dele caiu, a cor cinza caiu do cabelo dele em ondas, sendo trocada pela cor branca e, com luz brilhante, as azas dele se abriram. Azas brancas. Ele abriu os olhos. Eles estavam cheios de brilho, da luz branca. E ele abaixou a cabeça. - Agora eu entendo porque ele fez vocês no sétimo dia. E porque ele decidiu que o trabalho dele estava completo ao fazer isso. Até a voz dele mudou. Se tornou mais brilhante. - Vocês tem a liberdade Dele. Liberdade para escolher e aceitar. É diferente da liberdade que o Luminoso oferece. A liberdade dele É a liberdade de tudo. Das regras. Das paixões. Da livre escolha. A voz dele aumentava com cada palavra. - Agora eu também entendi o que é o perdão dele. Ele criou a todos, todos nós somos os filhos dele. E o que um pai quer é que os filhos sejam livres para escolher o melhor caminho. Ele ficou quieto. - Agora eu entendi... Silêncio. - Você fez a sua escolha. Lembra-se disso. A neblina cobriu ele. A última coisa que eu escutei foi a voz distante: - Entenda que felicidade não pode ser dada como você pediu. Ele te deu tudo para você ter ela. Escuridão. * * * Eu estava presente no antigo santuário, vendo as onze pessoas se preparando para o ritual e mais duas guardando a entrada. Eu estava.. e não estava ao mesmo tempo. Eu tentei olhar a minha mão e não vi ela. Eu tentei me levantar e descobri que estava levitando no ar. Eu tentei encostar na parede e descobri que a minha mão conseguiu a atravessar. Ao mesmo tempo eu percebi que alguma coisa estava diferente. Eu olhei para a entrada e.. Eu vi eu mesmo aproximando dos guardas. Sim, ao mesmo tempo eu estava presente nesta sala e estava aproximando da entrada do santuário. Eu vi a eu mesmo, tentando segurar a dor no peito causada pela cruz, se aproximando aos guardas. Eu vi o movimento rápido, praticamente invisível aos olhos com o qual o primeiro guarda foi morto. O segundo foi morto logo em seguida. Tudo estava acontecendo exatamente como eu estava me lembrando. Eu acompanhei eu chegando aos cantores no centro da sala e entendi que, se eu não fizer alguma coisa, o final vai ser o mesmo. Com um pensamento, eu me levantei e flutuei em direção ao outro eu que tinha acabado de matar os dois cantores e estava atacando o terceiro. Eu vi como um outro cantor conseguiu esquivar e enfiou a faca nas costas do meu outro eu. Eu vi outro eu caindo no chão, evitando ataque no coração, e ao mesmo tempo eu me juntei a ele. * * * Explosão de luz fez com que o tempo parasse. Eu abri os olhos, me sentindo diferente.. De uma maneira que não havia me sentido já faz tempo. Neste tempo parado eu vi uma faca se aproximando dos meus olhos, com movimento inevitável. Eu me sentia diferente, como se tivesse encontrado alguma coisa que tinha perdido e esta coisa estivesse dentro de mim. E este sentimento me deu forças para reagir. Não tinha como eu esquivar da faca caindo, mas eu consegui mexer a minha cabeça alguns centímetros para direita, fazendo com que a faca cortasse o meu rosto e ouvido esquerdo e se quebrasse encostando no chão. Ao mesmo tempo o meu braço direito estava voando na direção do peito do atacante. Peito indefeso, com coração batendo e distribuíndo sangue... Eu nem senti dor nas unhas se quebrando ao atravessar a pele e carne do peito do inimigo, passando embaixo das costelas e segurando o coração, ainda batendo. Ainda batendo. As vezes as pessoas nem percebem quando morrem. Ele não percebeu que já estava morto quando tentou se esquivar do meu ataque. O tempo, ainda parado, me ajudou a esquivar de uma outra faca que estava indo em direção do meu estómago. Um chute com perna esquerda - demasiadamente lento na minha visão - encontrou o queixo do atacante que estava se abaixando. Eu não escutei o barulho do pescoço se quebrando, mas pessoas não sobrevivem depois de um acidente destes. Um giro no chão e eu escapo de uma faca que estava indo em direção a minha garganta. O tempo parado - ou será que foi a minha velocidade de reação que se aumentou infinitamente - me salvou alguns vezes já. Mas ainda faltavam seis atacantes. Dois deles ainda estavam longe, mas outros dois estavam de lado, numa posição indefesa após errar os ataques com facas... Pegar a faca quebrada que estava no chão, levantar a mão até o pescoço do inimigo inclinado e fazer um movimento brusco leva um momento. Ou uma eternidade. Esquivar de mais um ataque, mergulhar embaixo do braço esticado do inimigo, encontrar o coração pulsante com a faca e virar ela.. Isso demora menos tempo do que palavras necessárias para descrever isso. Apenas dois inimigos. Eu tentei me levantar, mas o braço esquerdo, já cortado com faca, não segurou o peso do corpo e eu caí. O tempo que eu tive para encontrar uma faca que o último dos atacantes deixou cair e segurar ela foi suficiente para que os últimos atacantes chegassem até mim simultaneamente. Uma das facas atravessou meu pulmão direito e outra entrou no braço direito e se quebrou encontrando o osso. Eu tentei respirar e senti a sangue enchendo o pulmão furado. O atacante tirou a faca, deixando sangue escorrer e se enclinou para acertar a minha cabeça. "Por favor. Apenas mais alguns momentos" - pedi. Uma batida do coração - será que isso é muito tempo? Apenas uma gota de água num oceano de infinito. Foi o tempo suficiente para a faca do inimigo alcançar a minha garganta. Eu não conseguia mais me mexer muito por causa dos ferimentos e só consegui fazer com que no lugar de garganta a faca atingisse o peito. Ela entrou até o fim. Logo acima do coração. Dizem que nos últimos momentos de vida toda a vida passa em frente dos nossos olhos. Eu não vi isso. Eu utilizei estes últimos momentos para me levantar, mesmo enfrentando a pressão da faca enfiada no peito. Para fazer com que a minha boca ficasse perto da garganta do inimigo. De lado das arterias que estavam carregando sangue do coração pelo corpo. Mas isso foi o fim. Eu vi a neblina cinsa cobrindo o mundo na frente dos meus olhos. Não! Ainda não! Ainda faltava um! Ele viu que eu estava incapacitado por isso não teve pressa. Ele se abaixou e pegou uma das facas ensanguentadas do chão. Jogou a faca quebrada dele fora. E se abaixou, trazendo a faca devagar até a minha garganta. Quando de repente sangue se jogou pela boca dele, ele se torceu e caiu de lado. Uma faca estava enfiada até a ponta nas costas dele. Uma faca enfiada por uma mão de criança, menina. Da qual os inimigos esqueceram no meio da luta. As últimas coisas que eu vi foi o rosto dela inclinado sobre mim, e os lábios dela se mexendo. Eu não escutava mais o que ela falava. O tempo voltou ao normal finalmente, e eu senti uma dor insuportável no corpo inteiro. Mas era dor física, dor normal.. Algo que não sentia fazia muito, MUITO tempo. A presença que eu senti por dentro de mim fazia com que eu sentisse a dor novamente. Mas esta presença me preenchia. Me completava. Fazia com que eu fosse um mortal novamente, que sentisse, vivesse e tivesse alma... A última coisa que eu vi antes de que a neblina me cobriu foi o sol se levantando e iluminando o local pelas janelas quebradas. E o rosto que estava gritando alguma coisa para mim; rosto mais lindo e querido, iluminado pelo sol. Foi a visão mais linda.