Serguei Lukianenko
(Tradução: Eugeni Dodonov)
(Revisão: Camilla Martins)

Discurso Noturno com o Sr. Embaixador Especial


Antes de entrar no elevador, Anatoly não resistiu e olhou pela janela
novamente.

Obviamente, a nave dos Alheios (*) estava no mesmo lugar - logo em cima do
monumento de Pedro O Primeiro (**), na altura (verificada) de cento e quatorze metros 
e meio. Mantida sem se mexer no céu noturno pelos motores
antigravitacionáis (como foi dito) e uma corrente de luzes amarelas - que 
(provavelmente) indicavam o lugar onde estavam escondidas as armas - da mesma
maneira cercava os cantos do disco.

E também, aonde ele poderia ter sumido?

Lá embaixo, debaixo da máquina horripilante de morte e destruição, que já
durante o segundo mês seguido sobrevoava Moscou, piscava a iluminação, os
carros andavam pelas ruas, passeavam e, de vez em quando olhando para cima,
pessoas. O ser humano é uma criatura que rapidamente se adapta a tudo.

Anatoly respirou fundo e entrou no elevador.

- Boa noite, Sr. Embaixador Especial - comprimentou-o o guarda. Ele não
  parecia muito jovem, provavelmente era no mínimo um coronel. Algum
  integrante da Alpha (***).

- Boa noite.

O guarda apertou o botão, e o elevador começou a subir. Por que
raios os Alheios escolheram justo aquele prédio?

- Como vão as coisas? - educadamente perguntou o guarda. Foi uma pergunta
  praticamente ritual, e a resposta do Anatoly foi não menos padrão:

- Estamos trabalhando.

No elevador, certamente, tinha uma dezena de equipamentos que escutavam
tudo. E na munição do guarda mais uns cinco. Com o Anatoly tinha sete 
áudio-vídeo e deus-sabe-o-que gravadores, dos quais ele sabia; três sobre os quais
ele não deveria saber, e mais um número desconhecido de outros que foram
escondidos bem demais para serem encontrados. Conversar sobre alguma coisa
seria estúpido e, além disto, ele não queria compartilhar os segredos com o
guarda... Mesmo ele sendo um profissional verificado e confiante até o fundo
dos ossos. Mas hoje o guarda arriscou mais uma pergunta:

- Más noticias... Tinha uma entrevista com... - um movimento de cabeça para
  cima - e eles disseram que não queriam fazer negociações.. que apenas o
  Sr. Anatoly Belov conseguiu convencer eles a não se apressarem com a
  invasão da Terra...

Anatoly permaneceu quieto. O guarda, entendendo que por esta réplica ele teria
que responder, ficou quieto.

O elevador parou.

- Boa sorte para o Sr - desejou nas costas de Anatoly o guarda. - Boa
  sorte!

Ele parecia estar bem comovido mesmo.

Respirando fundo, o Embaixador de Assuntos Especiais do Presidente da Rússia
Anatoly Belov pisou no território da embaixada extraterrestre.

Baseou-se no princípio da prática diplomática - no território de um país
alheio e, pra falar a verdade, ele poderia adicionar o termo "inimigo"
também.

Há apenas dois meses tinha algum escritório aqui. Se bem que, depois de os grags
escolherem justamente este prédio para ser a embaixada deles na Rússia, não
sobrou nenhuma pista do escritório. Os Alheios limparam o andar inteiro, até
as paredes lisas de concreto em menos de uma hora. E mais uma hora depois,
quando Belov entrou na embaixada pela primeira vez ela já estava daquele
jeito.

Paredes - material cor de laranja que se mexia preguiçosamente e parecia um
tapete. Chão e o teto - mesma coisa, mas com cor vermelha. Poucos móveis
tinham formas estranhas, mas o destino deles era fácil de se adivinhar;
alguns tentáculos jogados no teto emitiam uma luz não muito forte, mas
totalmente limpa e branca.

Isso, obviamente, se é possível considerar luz branca como sendo limpa..

- Boa noite, Sr. Embaixador Especial - disse educadamente o grag que estava
  sentado perto da porta.

O papel dele foi determinado como um provável secretário e guarda. Nos
joelhos que quase se encostavam com o queixo estava deitado um lança-raios,
e no ar na frente dele estava voando, trocando de cor constantemente, um
pequeno globo... provavelmente um holograma; provavelmente um terminal
informativo; provavelmente funcionando nas freqüências visíveis,
infra-vermelhas, ultra-violetas e rádio.

- Boa noite - Anatoly o comprimentou abaixando a cabeça, segurando o olhar
  por alguns segundos sobre o globo, para que os equipamentos escondidos nos
  óculos - a mais nova e a mais segreta invenção dos cientistas -
  conseguisse coletar mais dados. - Não cheguei cedo demais?

Ele sabia que havia chegado três minutos adiantado. Justamente para tentar
conversar com o guarda... provavelmente, menos envolvido nos jogos
diplomáticos.

Como ele estava cansado desta palavra - "provavelmente"! Não há nenhuma informação
certa, sobre nada! Somente sobre a altura na qual estão suspensas sobre
Moscou, Washingthon e Pekin os discos voadores. Mas também... que
influência teriam mudanças periódicas desta altura: mais doze centímetros,
menos dezoito, e voltar para o patamar anterior?

- O Sr. Embaixador Especial chegou três minutos antes da hora - comunicou o
  grag. A boca coberta por crosta se mexia, cuspindo palavras da fala alheia;
  na boca se mexia uma língua com duas pontas. Os olhos do grag, convexos,
  sem sobrancelhas, pareciam ver através de Anatoly - O Sr. Embaixador pode
  ocupar o tempo conversando comigo. O Sr. Embaixador pode tomar chá ou ler
  o jornal.

Um braço seco ofereceu para o Anatoly "Argumentos e Fatos" (****),
obviamente, com cerca de noventa por cento de seu conteúdo preenchido com
idéias sobre a natureza e intenções dos Alheios.

- Obrigado, mas eu já tinha lido este número - respondeu Anatoly
  educadamente. - E vocês têm interesse na leitura dos jornais humanos?

- Toda informação é interessante - aparentemente, o grag ficou surpreso. -
  Afinal, é a possibilidade de evolução. E vocês, têm interesse na leitura
  dos nossos jornais?

- Infelizmente, eu não tenho esta possibilidade ainda - respondeu Anatoly.

- O Sr. não conseguiu aprender a nossa língua ainda? - a língua ficou se
  mexendo na boca. Os cientistas suspeitavam que isso não significa risada
  ou ameaça, mas sim compaixão.

- Por enquanto não tenho tempo para isso - Anatoly sorriu, esperando que o
  grag entenderia a mímica dele corretamente. - E eu não tenho nenhum jornal
  seu para tentar ler.

Pelo que ele sabia, já existiam sete pessoas na Terra que conseguiam entender
a língua dos grags. Logo após o contato, quando os grags educadamente
ofereceram para os humanos dicionários completos da língua dos grags -
grago-inglês, grago-russo e grago-chinês, todos os lingüistas do mundo
começaram a ter uma vida engraçada. Todo governo fez questão de esconder
todos os cientistas mais ou menos capazes de entender a língua, que até o
momento trabalharam nas universidades, em instituições comportadas, porém
bem guardadas. Lá eles estavam até agora, tentando entender a psicologia a
partir da língua alheia e, além disto, ensinando tradutores. Estranhamente,
os poliglotas não decepcionaram, em geral. Anatoly sabia que, de acordo com
ele, a língua dos grags era rica mas não muito complicada. Mais difícil que
chinês, mas mais fácil do que russo, resumidamente. Talvez o Anatoly
realmente conseguirá aprendê-lo... se a humanidade sobreviver.

- Isso não é bom - disse grag. - Eu tenho apenas jornais antigos. O Sr.
  gostaria de tê-los?

Apenas toda a experiência de diplomata ajudou Anatoly a manter uma expressão calma.

- Eu acho que sim.

- Aqui está.

A mão do grag caiu embaixo da cadeira alta, parecida com cadeira giratória de
bar. E voltou com um disco parecido com os de computador ou de música.

- É assim... - explicou o grag, tocando um sinal no disco.

Um novo globo apareceu na sala.

- Isso é a velocidade de absorção.

Toque em mais um... botão? Sim, provavelmente botão. O globo brilhou com luz
branca escura.

- Está na sua hora - disse grag de repente, parando a demonstração. Ele
  estendeu a mão com o disco para o Anatoly.

Provocação? Desinformação?

- O Sr. tem certeza que pode dar este objeto para os humanos, e os seus
  superiores não terão nada contra mim e outras pessoas? - perguntou
  Anatoly, sem levantar mãos.

A crosta na cabeça do grag começou a se mexer. Sintomas de irritação;
praticamente a tradução literal de "raiva" era "mexer a crosta na cabeça".
Se bem que, obviamente, a tradução podia ser alterada propositalmente...

- Sim, tenho certeza. O Sr. me acusa de tentativa de causar mal?

Estes grags pensam muito rápido. E adoram demonstrar a sinceridade... adoram
demais!

- Não, obviamente não - disse Anatoly. - Eu apenas quero excluir a
  possibilidade de qualquer possível análise incorreta de informação por
  minha parte.

Isso acalmou o grag instantaneamente. Talvez fosse por isso que Anatoly
tinha conseguido se segurar neste posto durante os dois meses - enquanto os
embaixadores dos americanos já trocaram duas vezes e os dos chineses três. 
A capacidade de achar a saída rápida intuitivamente é o principal
para o embaixador.

- Tudo certo. Tudo liberado. Esta tecnologia é ultrapassada, a gente não a
  esconde mais de vocês. Tome - grag continuou estendendo a mão e Anatoly
  entendeu que não havia saída. Respirou fundo e pegou o "jornal".

O disco parecia rígido, frio e descascado nos dedos. Um disco qualquer...

Que raios de tecnologia! Dêem um televisor para Leonardo da Vinci, e daí?
Suponhamos que ele o consiga ligar. Suponhamos, ele conseguirá desmontá-lo e
analisar todos os detalhes?

O abismo entre as tecnologias é muito grande para que este artefato ajudasse
aos cientistas humanos em alguma coisa. O conteúdo do disco já era uma outra
história. Jornais! Fontes de informações dos Alheios! Dificilmente teria
descrição dos segredos tecnológicos lá... mas pelo menos agora existia uma
chance de entender a psicologia deles! É claro, se nestes "jornais" tivesse
alguma palavra verdadeira. Se ele não possuíssem apenas desinformação preparada
propositalmente.

- Obrigado - disse Anatoly.

Com o coração batendo loucamente ele foi pelo corredor. O Grag-guarda voltou a
olhar para o seu globo. Talvez, efetuar o contato de emergência? Ou
desistir do encontro, sair da embaixada?

Não. Ele não podia. Ele devia se comportar como se nada tivesse acontecido.

Provavelmente não seria bom esconder o fato de ter recido um presente inesperado 
do colega de outro planeta.

A membrana, que fazia o papel das portas para os grags, se abriu na frente
de Anatoly e ele entrou no escritório do Embaixador Especial do planeta
Grag.

- Olá, meu caro - o embaixador levantou da mesa pequena, em forma de lua. -
  Estou feliz por ver o Sr. saudável, Anatoly!

Levantou - essa palavra não explica o que tinha acontecido. Cresceu! Voou!
Quando um grag está sentado, ele tem a mesma altura que um homem adulto.
Levantando-se, ele parece uma criatura assustadora de três metros.

Mas não é bom pensar assim... Não é criatura, é colega! Ninguém sabe se os
grags sabem ler pensamentos.

- Olá, Dcar! - Anatoly sorriu, alegramente e abertamente, com sinceridade
  inconfundível, como se ele tivesse encontrado o melhor amigo, que não
  tinha visto durante alguns anos. - Como está a sua saúde? Como está a sua
  tristeza sobre a pátria?

O ritual do comprimento foi completado, e ambas as partes sentaram sobre
alguma coisa que parecia ou um sofá muito pequeno, ou um assento coberto por um
tecido suave.

- Eu trouxe novas ofertas do nosso presidente - disse Anatoly. - Ofertas
  muito boas!

- Eu não demonstro muito entusiasmo - respondeu o grag educadamente.

- Olhe aqui - Anatoly tirou um mapa da mala. Jogou no ar e, como sempre
  ficou nervoso, sentindo que embaixo do mapa aparecia um invisível - e
  intocável  - suporte. - Nós queremos oferecer os seguintes territórios...

Grag esperava educadamente.

- As regiões de Kostroma, Ulianov a Archangel - Anatoly apontava para as
  regiões da Rússia marcadas com vermelho. - Tudo isso nós já oferecemos
  antes. Mas!

Ele tentou colocar energia e otimismo na voz. Malditos. Criaturas. Não, ele
não consegue pensar neles de maneira diferente e ninguém poderá. Mesmo que
os grags desistam do plano original deles... juntar todos os humanos nos
territórios restritos.. territórios localizados na Groenlândia e
Atrarctida... Mesmo assim. Malditos, malditos, malditos...

- Nós estamos oferecendo a região de Pskov e... atenção! É uma oferta muito
  grande da nossa parte, entenda! Região de Krasnodar. Vocês gostam de clima
  quente, não é?

O embaixador alheio olhava para o mapa silenciosamente. Como se o Anatoly
não estivesse oferecendo uma parte significativa da Rússia mas sim uma maçã
pobre.

- Entendam, estes territórios são muito importantes para nós também. Lá
  vivem dezenas de milhões de pessoas, lá temos usinas importantes,
  é uma região agrícola...

Grag fez um barulho com a língua. Balançou a cabeça, obviamente repetindo um
gesto humano.

- Não.

- Nós também não vamos discutir contra a anexação completa da Ucrânia, tirando a
  península Krim e Causado, pela civilização dos Grags - disse Anatoly, com cara 
  de quem está sacrificando o último.

- Não.

Anatoly olhou nos olhos frios do grag. Em último caso ele tinha direito de
oferecer aos grags mais uma parte dos territórios que eles requisitaram.
Inclusive Moscou. E a região de Krasnoyar.

A humanidade não tem potência para resistir aos invasores. Tem força apenas
para tentar se vendar... E mesmo isso devido à "bondade e respeito à vida
alheia que a civilização dos Grags possui".

- Nós nos distanciamos bastante da nossa oferta inicial - selecionar os melhores
  representantes da humanidade e colonizá-los nos territórios protegidos -
  disse Dcar. - Demonstrando a educação aos nossos irmão menores e menos
  inteligentes, nós começamos as negociações.
  Nossa última oferta incluía a disponibilização de metade da cada país para
  os refugiados do planeta Grag. De preferência, da metade mais quente.

Anatoly estava quieto. Sim, isso mesmo. E estamos prontos. Na verdade -
estamos dispostos a dar metade do nosso planeta para vocês faz tempo. Nós
estamos apenas tentando nos vender mais caro...

- Devido ao fato de nossos cientistas conseguirem criar o desestabilizador
  do universo e destruir o buraco negro que ameaçava o nosso sistema solar
  - grag falava, como se estivesse enfiando pregos no caixão, - nós
  conseguimos tempo para estas negociações. Porém a nossa raça é jovem,
  cheia de energia e - a partir de agora - está disposta a expansão. Nós
  precisamos de planetas preparados para vida biológica. Estes planetas são
  uma raridade na Galáxia. De acordo com os últimos dados de Grag, nós
  precisamos de um território não menor do que o planeta Terra.

Pronto. Chegamos.

Agora fez sentido o "presente" do guarda. Que diferença faz o que os humanos
entenderão a partir do jornal velho, já que o planeta está condenado? Os grags
iriam lançar o "homo-virus" deles, cuja propaganda eles ja tinham feito, e em três
dias não teria um ser vivo na face da terra. Bem... talvez alguns presidentes
medrosos escondidos em esconderijos segredos..

De repente ele quis fazer aquilo que nenhum embaixador tem direito de fazer.
Nunca. Com ninguém. Não com hannibal de Bocacco, nem com um Alheio prestes a
engolir toda a raça humana.

Agarrar o pescoço cheio de crosta. Morrer, mas tentar matar esta criatura
maldita. Orgulhosa de si mesma, ignorante, precedente de uma linha
importante da civilização - um dos antecessores do Dcar fez alguma coisa
muito importante. Provavelmente, destruiu um outro planeta indefeso...

- A lógica da expansão não permite fraqueza - continuou grag. - A
  destruição de inteligência alheia vai contra os nossos princípios, por
  isso nós tivemos que oferecer o nosso ultimato para a Terra. Felizmente,
  há três dias os testes da nossa nova usina planetária foram realizados com
  sucesso.

Felizmente?

- Infelizmente, eu acho que não entendo mais o Sr, Sr. Embaixador Especial,
  - disse Anatoly com voz abatida.

Aparentemente, ele perdeu toda a calma... Provavelmente, os experts que iriam
escutar e ver as recordações dele não ficariam felizes...

- Nós queremos pedir da humanidade o planeta Vênus e o planeta Marte. Como
  os mais adequados para serem transformados no meio ambiente compatível com
  a nossa raça.

- E a Terra? - perguntou Antaloy, não acreditando nos próprios ouvidos.

- A Terra fica com vocês - Dcar abriu as mão. - Inteira. Como um ato de
  amizade e como desculpa pelo incidente infeliz, nós também estamos
  dispostos a oferecer para o país EUA um local no planeta Vênus ou planeta
  Marte equivalente ao lugar que era conhecido como Califórnia.

Isso simplesmente não podia estar acontecendo...

Anatoly estava olhando nos olhos do grag, tentando encontrar neles a
confirmação do que foi dito. Mas, aparentemente, o grag entendeu o silêncio
dele de uma outra maneira.

- Galaxia é cruel, meu caro. Vocês tiveram sorte que os primeiros a chegar na
  Terra fomos nós, sempre dispostos a ajudar nossos irmão de inteligência
  menor. E ainda mais sorte porque nós conseguimos destruir o buraco negro que
  forçou-nos a buscar um lugar para migrar... e agora aprendemos também a
  transformar planetas. Seremos bons vizinhos, meu amigo. Principalmente porque
  se uma outra raça, mais jovem, enérgica e expansiva quiser tomar a Terra -
  nós poderemos falar uma palavra em sua defesa.

Anatoly engoliu.

- Eu não tenho poder para imediatamente aceitar a sua oferta, Sr. Embaixador
  Especial - disse ele. - Mas... eu imediatamente transmitirei as suas
  palavras ao governo da Rússia e espero que nossas negociações tenham um
  impulso grande na direção certa. E, pessoalmente, eu digo que... eu gosto
  da sua oferta.

Dcar novamente tentou imitar um sorriso.

- Estou feliz, meu amigo. Você está disposto a compartilhar um lanche leve e
  um chá comigo?

- Com prazer, Dcar.

Com um gesto cheio de simbolismo interior, Dcar tirou o mapa da Rússia do
pedestal invisível, o fechou e passou para Anatoly. Ele rapidamente escondeu o
mapa na mala - mala barata, feita de tecido, uma vez que foi decidido que
materiais feitos de pele de animais podiam levar os grags a julgar
incorretamente a civilização humana. Ele teve a sensação de que não estava 
tirando do grag apenas um papel colorido, mas sim um país. Todo o
país imenso, que ficou com os humanos.

Droga, mas os americanos tiveram sorte afinal! Ganharão um território em
Marte ou Vênus, do lados dos Alheios. Negócios, troca de tecnologias! Droga!
Vai sentir falta assim do fato que o míssil nuclear na nave extraterrestre
foi lançado da California e não de algum lugar como Chukotka.

Um servo-grag - os humanos ainda não tinham conseguido determinar o estado social 
dos alheios, mas ele fazia o papel de servo propriamente dito - trouxe comida e
chá. Desta vez ele serviu em uma mesa normal, material e Anatoly ficou muito
mais contente com este fato. Para o grag foram servidor tecidos de carne mal
cozida e chá; para Anatoly doces orientais e chá.

O metabolismo dos grags, aparentemente, era parecido com o humano, mas Dcar
não consumia comida terrestre enquanto ele estava junto com Anatoly. Apenas
chá.

- Nós ficamos muito surpresos encontrando o seu planeta - disse Dcar
  enquanto isso. Jogou um pedaço de carne na boca. Olhou para a parede e
  uma janela apareceu nela: não coberta de vidro, mas aberta completamente
  para a noite quente de Moscou de verão. Interessante, será que ainda
  existem paredes de concreto neste andar, ou todas elas já foram
  transformadas pela tecnologia dos grags?

- Surpresos? - agora, quando a tensão constante dos últimos meses se fora,
  Anatoly estava mais disposto a conversar.

- Sim, claro. Esta região do espaço não é desconhecida. Aqui passaram os
  caminhos de Tiua... é uma raça de anfíbios muito interessante que,
  infelizmente, deixou o mundo material há setenta anos terrestres.

- Morreu? - confirmou Anatoly.

- Não, não! - respondeu grag, mexendo a cabeça num sinal de protesto - Não!
  Uma civilização muito evoluída. Podiam criar estrelas e planetas do vácuo.
  Chegaram no limite da capacidade dos serem biológicos. Eles passaram para
  um novo nível de existência, e nós não podemos... por enquanto não
  podemos.. entender a nova existência deles. Talvez eles tenham criado um novo
  Universo, mais de acordo com eles, quem sabe? A região do espaço ficou
  vazia e outras civilizações apareceram por aqui, tais como nós... Nós somos
  uma raça não apressada, nós gostamos de ficar em casa e olhar a vida
  passar... Mas a catástrofe que quase aconteceu nos fez seguir a lógica da
  expansão estelar. Nós esperávamos tomar os planetas de Tiua que ficaram
  vazios, uma vez que ele não vão mais precisar deles, mas chegamos tarde
  demais.

Grag ficou quieto, olhando para a janela.

- Todos os planetas de Tiua já foram ocupados... São uma raridade - planetas
  quentes com atmosfera de oxigênio... E aí nós descobrimos a Terra! Durante
  muito tempo nós ficamos pensando por que no território de Tiua existe
  uma raça tão ultrapassada, por que este planeta não foi tomado por eles.

- Mas você disse, meu amigo - cuidadosamente comentou Anatoly, - que esta
  raça podia criar estrelas e planetas do vácuo? Para que eles iriam
  precisar de um pequeno planeta como a Terra?

- Sim, é claro. Mas e antes? Quando Tiua estavam apenas evoluindo, quando eles
  eram pequenos e inexperientes como nós? Eles também precisavam de
  planetas! Mas eles não conquistaram a Terra! Incrível! Justamente por isso
  nós queríamos salvar a humanidade... Enquanto isso for possível sem
  prejudicar a nossa civilização. Nós oferecemos territórios para vocês, e
  depois uma metade do planeta inteira!

Mentalmente Anatoly agradeceu a super-civilização desconhecida que não
invadiu a Terra.

- Vocês são sábios e bons - disse ele.

- Obrigado pelas palavras bonitas, meu amigo - disse grag cerimonialmente.
  Tomou um pouco de chá. Ficou quieto por um momento e disse confiantemente:

- Agora vocês não precisam mais ter medo. Nós entendemos o que aconteceu por
  aqui e ninguém vai prejudicar vocês nunca mais!

- E se chegar na Terra uma raça mais forte que vocês? - se atreveu a
  perguntar Anatoly.

- Neste caso, talvez, quem será prejudicado seremos nós - disse grag. - Mas
  agora nós já analisamos a nossa política e vamos nos desenvolver mais
  rapidamente. Mas vocês vão sobreviver de qualquer jeito. Nós explicaremos
  o que acontece, e ninguém vai machucar vocês.

Anatoly tomou um pouco de chá. Ele se sentia dividido entre o dever, que
mandava imediatamente avisar o governo sobre a misericórdia dos grags, e a
curiosidade. Ele perguntou:

- E eles vão escutar vocês?

- Mas é claro.

Grag andou para a janela. Olhou para o disco voador no céu.

- Se vocês não tiverem nada contra - disse ele, - nós daremos de presente
  para vocês estas três naves. Talvez isso ajude na evolução da raça
  humana. Eu não tenho entusiasmo nenhum nesta oferta, mas a oferta está feita.

Anatoly sentiu que as mãos dele suaram.

- Você está falando sério, Sr. Embaixador de Assuntos Especiais?

- Sim.

- Mas, pelo que eu entendo, estas naves são o núcleo da frota estelar do
  planeta Grag!

- Foram - grag moveu a mão num gesto de preguiça. - Lixo. Tecnologia
  ultrapassada. Memoriais. Não, talvez, nós deixaremos uma destas naves conosco. 
  Como um memorial. Humanos têm uma tradição ótima de fazer memoriais.

Ele respirou com barulho, abrindo as mão. Certamente, diversos snipers da tropa
de elite o tinham na mira neste momento, e uma multidão de
microfones ultra-sensíveis e câmeras telescópicas, o melhor que já foi feito
pelos humanos, estavam olhando para a janela naquele momento.

- Esta cidade... - disse grag. - É um memorial infinito.

- Ela tem oitocentos e poucos anos - disse Anatoly. - Nós temos cidades
  muito mais antigas.

- Oitocenos anos terrestres - disse grag pensativamente. - Incrível.
  Inacreditável. Naquela época meu bisavô inventou a roda mas,
  infelizmente, ele já deixou este mundo. Até agora eu acredito que esta
  invenção foi o maior estímulo para o crescimento do Grag. Oitocentos anos!
  E durante este tempo vocês mal saíram para espaço!

O Embaixador de Assuntos Especiais andou até Anatoly, que estava parado.
Colocou a mão com três dedos sobre o ombro dele.

- Meu amigo, os Tuia protegiam vocês com cuidado e agora nós assumimos este
  dever santo. Não tenha medo de nada - ninguém machucará vocês. Quem teria
  coragem de machucar vocês - criaturas tão... tão...

Ele ficou quieto por uma fração de segundo, mexendo a língua e procurando a
palavra mais apropriada. E a palavra foi encontrada:

- Tão miseráveis...






(*) Me recuso a usar termo "Alien" :-).
(**) Czar da Russia.
(***) Grupo de elite de forças especiais da Russia.
(****) Um jornal da Rússia.
 
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