Serguei Lukianenko (Tradução: Eugeni Dodonov) (Revisão: Camilla Martins) Espiral do tempo A espiral do tempo foi criada numa terça-feira, bem à noite. Ela era muito bonita, toda feita de uma neblina azul e opaca, com duas chamas tremendo dentro. E o tamanho ficou bem pequeno também, dava para esconder no punho sem problemas. Semen Ivanovich mais uma vez examinou a espiral, olhou para a luz através dela para verificar se não havia nenhuma trinca no tempo e depois a colocou de lado. Surprendentemente ele percebeu que suas mãos tremiam, ou por nervosismo, ou por causa da idade. Ele permaneceu sentado por um tempo. Quase levantou para fazer um chá, mas mudou de idéia e pegou a espiral nas mãos. Ficou legal, afinal. Olhando bem de perto, dava para ver como numa das extremidades da espiral mamutes desajeitados fugiam dos homens das cavernas, tão peludos quanto eles mas muito mais ágeis. Do outro lado da espiral dava para ver como sob os tetos de palácios de cristal, pessoas jovens e bonitas estavam lendo livros inteligentes... Respirando fundo, Semen Ivanovich começou a juntar as chamas na espiral do tempo. O controle foi simplificado ao máximo: era necessário apenas juntar o tempo presente com o tempo desejado para que a espiral começasse a funcionar. Um momento antes de juntar as chamas, Semen Ivanovich parou por um momento. Parecia que ele ainda estava indeciso. Ele olhou para o teto e falou em voz baixa, para si mesmo: - Ah, mas eu tinha avisado você... O teto não respondeu nada e Semen Ivanovich terminou mais decididamente: - Não, uma vez decidido, tem que ser feito! Olhando para os lados, como se estivesse mais alguma pessoa no quarto, ele pegou da caixa de ferramentas um punhado de pregos pequenos e colocou no bolso. E depois juntou as faiscas com muita rapidez. O mundo tremeu e desapareceu em faíscas coloridas e neblina. Desapareceram todos os equipamentos da mesa, no lugar da televisão apareceu um rádio antigo; a cama feita na Finlândia se transformou em uma de metal enferrujado. Atrás da porta semi-fechada escutava-se uma voz berrante: - Prohor Kuzmich, Prohor Kuzmich! Semka mais uma vez foi visitar a boba magrela dele! Como ele consegue gastar dinheiro para levar ao cinema pessoas como ela? Os olhos do Semen Ivanovich brilharam. Aqui está ela, a sua juventude! Casa comunitária, juventude solitária, quando ele ainda não podia se defender. Aqui está ela, a fonte de todos os seus desafios! Ele não precisou esperar por muito tempo. Quando a vizinha e o vizinho saíram da cozinha por um momento, ele, com a agilidade de um jovem, como se ele estivesse voltando a ser um, correu para lá. Com felicidade inimaginável no rosto ele chegou perto do fogão e jogou o punhado de pregos na sopa do Prohor Kuzmich. Pensou um pouco e jogou no suco da vizinha meio pacote de sal. Depois pegou a espiral e voltou as chamas para o lugar onde elas estavam antes. ...Já fazia uma hora que Semen Ivanovich estava dormindo na cama dele, bonita, nova, feita na Finlândia, de uma madeira escura e não polida. De vez em quando ele falava em meio a seu sonho: - Eu disse, apaga a luz quando for sair, senão mesmo daqui a trinta anos vou te encontrar... E a espiral esquecida dormia no canto da mesa. De um lado dela a terra tremia nos passos dos mamutes e homens das cavernas. Do outro lado... Ah, se fosse possível saber o que existe lá, embaixo dos tetos de cristal dos palácios maravilhosos, neste amanhã tão lindo e distante...