Me ajuda a atravessar Maidan (*)
Pavel Shumil
(Tradução por Eugeni Dodonov)
(Edição final: Camilla Martins)
Não acredite na tempestade
Quando chuvas intermináveis estão caindo.
Não acredite na infantaria
Quando ela canta canções alegres.
Não acredite, não acredite,
Quando pássaros começarem a cantar nos jardins;
A vida e a morte
Ainda têm contas a acertar.
Bulat Okudjava
Pacote informativo 1
O que a humanidade deve fazer se acontecer uma catástrofe na Galáxia?
Uma catástrofe de proporções inimagináveis, maior do que tudo que já tenha
acontecido? Se das profundezas do espaço vem chagando a Onda, que altera
todas as leis físicas. Se é inútil pensar em alguma defesa e é possível
apenas fugir. Fugir, como baratas, para todos os lados, nos escondermos nos
buracos da parede - e fugir de novo, sentido o perigo novamente.
O pior de tudo é que o campo gravitacional das estrelas trincava, rompia,
enrolava o frente da Onda. No lugar de uma Onda milhares de Ondas corriam a
Galáxia. Elas se cruzavam, se debatiam, se enfraqueciam e reforçavam umas às outras.
Prever alguma coisa tornou-se impossível.
Mas isso foi a salvação também. Porque não existia mais uma Onda sólida e
impenetrável. Como sua ação se difundiu pelo espaço e tempo, muitas estrelas
conseguiram uma chance de sobrevivência.
Nós brincávamos de esconde-esconde com o destino. Nós pulávamos pela Galáxia
como pulgas. O motivo era simples - não fique parado. Se ficar parado, mais
cedo ou mais tarde a Onda irá te alcançar. Pule. Mas não erre. Não alcance a
Onda por si mesmo. Jogo de roleta russa.
Nós tocávamos pacotes informativos. Onde, quando e quem detectou a Onda e
com qual intensidade. No começo a nave recebia milhares de pacotes. Agora -
dezenas.
Nossa tripulação alcançou a Onda duas vezes.
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Eu estava parado, escutando.
Me ajuda a atravessar Maidan
A multidão de pessoas conhecidas
Lá, onde as abelhas estão se sentido em paz
Me ajuda a atravessar Maidan
Bonus estava se despedindo da nave e da Nadezhda (**). Vulcãozinho amava
esta canção. Eu queria ajudar a cantar, mas me segurei. Nem voz, nem audição
eu tive. Nos ensaios do coral Nadia me deixou o lugar honorário de
espectador. Tentando não fazer barulho, eu saí do setor. Com olhar de
visitante olhei pelo corredor. A nave era velha. Muito velha. Cinco anos
biológicos e cinco séculos de anabiose a gente passou nestas paredes. Era
necessário apenas fechar os olhos e a memória maldita me fez voltar naquela
noite. Aquele quando nós quatro nos tornamos a tripulação...
- Quem é? - perguntou Luisa - Você a conhece?
- Nadezhda Kavun. Também conhecida como Vulcãozinho.
Me ajuda a atravessar Maidan
Todos estão na guerra
Não percebem nem eu nem você
Me ajuda a atravessar Maidan
Com tristeza inacreditável estava cantando Vulcãozinho, sentada na janela da
barraca e tocando de leve o violão. Luisa segurou minha mão até doer e
arrastou até a janela vizinha. Percebendo a gente, Vulcãozinho continuou a
cantar:
Me ajuda a atravessar Maidan
Ele respira com batalhas, lágrimas e rizadas
As vezes ele não se escuta
Me ajuda a atravessar Maidan
Me ajuda a atravessar Maidan
Onde todas as canções já foram escutadas e cantadas
Eu entrarei no silêncio e desaparerei - como se não existisse
Me ajuda a atravessar Maidan
Bonus sentou na janela do nosso lado.
- O que é Maidan? - perguntou ele.
- Cada geração tem a sua Onda. Maidan - é a onda dos nossos predecessores.
Mas a palavra maidan significa campo, praça.
- Vamos pegá-la na tripulação! - suspirou quentemente Luisa.
- Mas ela não vai sem o Bonus.
- Então, pegamos junto com o Bonus.
- Mas...
- Não tem "mas"! Me responde, quem é o melhor capitão? Está vendo, ficou
chateado. Bonus, entre nós, é o melhor piloto na atmosfera de toda a
faculdade.
Me ajuda a atravessar Maidan
Com meu amor, com dor de veneno
Aqui estão meu dias de insignificância e glória
Me ajuda a atravessar Maidan
- Você está falando sério?
- Bobinho. Você está pensando que é só você quem está escolhendo a
tripulação? Já faz dois semestres que eu entrei no computador central e copiei
os dados de todos.
- Você que é bobinha. Se te pegassem, você sairia jogada daqui como um
passarinho.
- Mas me pegaram mesmo - sorriu Luisa. – A secretária voltou na hora errada
e começou a gritaria.
- E não te expulsaram?
- Eu disse a verdade. Que estava procurando companheiros para o vôo. Me deram
uma lição de moral e me soltaram.. Na cozinha, para limpar as batatas.
Até hoje consigo limpá-la até com olhos fechados.
- Eu gosto de batata!
- Quem gosta de sopa de batata? - exclamou Vulcãozinho, deixando o violão de
lado.
- Está vendo só? Já temos interesses comuns! Nadia, o Capitão adora limpar
batatas. E eu gosto de comê-las. Bonus, o que você acha de batata?
- Eu gosto de batata frita.
- Beem... Batata frita não é batata de verdade! Quer experimentar batata de
verdade? Luisa está oferecendo.
- Festa? Eu sou a favor! - prontamente respondeu Bonus. - Vulcãozinho, e
você?
- Vou bater a sua cabeça na parede - suspirou no meu ouvido Luisa.- Você
mesmo vai limpar a batata!
- Cap, não está justo isso! Quem contrata tripulação no meio do corredor?
Piratas não fazem assim! Piratas contratam a tripulação na taverna com uma
caneca de Rum!
A gente era tão jovem, esperávamos tanto da vida. Luisa, Estrelinha minha...
- Adeus, meninas - disse eu em voz alta.
Bonus já se escondeu na câmara de entrada do shuttle. Eu atravessei a borda
e fechei a entrada.
- Pronto!
A pressão alterada entupiu os ouvidos. Bonus estava verificando a
hermeticidade da cabine. Ele já estava sentado na poltrona esquerda. Eu
sentei na direita, coloquei o cinto com gesto decorado na memória. Na
poltrona normalmente sentava-se a Estrelinha. Vulcãozinho sentava-se na
poltrona do meio da segunda fileira.
- Faremos a "oração"?
- Para os demônios. Fizemos todos os testes há uma hora.
Pela oração por algum motivo desconhecido era conhecido o procedimento de
verificação de todos os sistemas da nave antes da partida.
- Good - respondeu Bonus e começou a clicar nos triggers, ativando os
sistemas do shuttle. Eu do meu console me comuniquei com o ciber-cérebro
da nave e iniciei o procedimento de fechamento dela.
- Lá fora é vácuo... Abertura começada... Saída aberta... - eu estava narrando
os resultados dos comandos. - Cabo de suporte desconectado.. Suporte
desconectado.. Estamos prontos para a separação.
- Let me free - afirmou Bonus, tirou a proteção do gatilho e suavemente
apertou o botão. Cabos hidráulicos dos impulsores suavemente enviaram a
nave para a escuridão do espaço.
- Abertura começada... Saída fechada - como de costume, eu estava comentando
os resultados dos comandos.
- Estou vendo - respondeu Bonus. Eu tirei os olhos do monitor e olhei
através do vidro da frente. A superfície da nave brilhava com uma luz
verde fraca, o sol se refletia no alumínio anodizado. Na última saída ela
parecia apenas cinza. A proteção de chumbo de três camadas tinha sido jogada fora
ontem, para que a nave pudesse aterrissar num planeta com atmosfera.
Bonus mexeu no manche. Motores de rotação bateram por um momento, e a nave
saiu de vista.
- Tudo em ordem. O ciber-cérebro me disse que a nave passa para o estado de
conservação.
- Good - respondeu Bonus, e a aceleração nos empurrou nas poltronas
suavemente. Apertando um par de botões no teclado do suporte da mão
esquerda, eu coloquei no vidro dianteiro na minha frente os parâmetros da
órbita. A altura do perigeu diminuía extremamente rápido. Quando ocorreu a
separação dos motores, ela era de apenas 0,6 megametros. Eu olhei para os
números do período da órbita, tirei os cintos de segurança e, me prendendo
pela sola magnetizada dos sapatos no chão, fui para o salão. Bonus apertou
o trigger do auto-piloto e saiu atrás de mim.
- Um bom planeta. No sentido de bem conservado - disse ele.
- Cemitério.
- Porque cemitério? A Terra é um cemitério. Este planeta é verde.
- Acho que agora a Terra é verde, também. Quantos anos já se passaram... Quer
café?
- Antes de dormir?
- Como quiser.
Tomei um saco hermético com café com leite, desgrudei o banco da parede,
tirei os sapatos e mergulhei para baixa de rede protetora.
- Odeio dormir com gravidade nula.
- Então me acorda uma hora antes do perigeu.
Acordei devido à aceleração, que quase me jogou para fora do banco. A rede
me segurou. Entretanto, a aceleração não foi muito grande, no máximo um
quarto de "g". Eu esperei a manobra terminar, tirei a rede, coloquei os pés
nos sapatos magnéticos e me arrastei até a cabine.
- Onde estamos?
- Na circular. Seiscentos quilômetros, período de noventa e seis e quatro
décimos de minuto.
Eu sentei na minha poltrona e verifiquei os dados que chegaram da nave.
- Conservação terminada.
- Você acredita que daqui a uma hora pisaremos em terra com os nossos pés?
- E para onde podemos ir, droga?
- Daqui a oito minutos teremos a terceira manobra.
- Já almoçou?
- Não.
- Dá tempo. Eu trago para você.
Depois de uns dois minutos eu voltei no salão flutuando uma mochila cheia de
embalagens com comida, como uma bexiga de criança. Sentei no meu assento,
joguei a mochila embaixo do assento vizinho. Bonus, sem tirar os olhos da
tela do piloto automático, tirou um biscoito e um tubo com algum suco.
Colocou no ar na frente dele. A mão esquerda dele voava sem parar sobre a
planilha das coordenadas. Na tela aparecia e desapareciam colunas de
números. Com a mão direita ele colocava na boca ora o biscoito ora o suco,
deixando o segundo objeto flutuando no ar. Eu escolhi um tubo com leite e um
pedaço de pão preto. Durante um minuto fiquei olhando com canto de olho
para a tela do Bonus, depois dupliquei a imagem na minha. Bonus estava
estimando como aterrissar o shuttle na praia a cinco mil quilômetros de
distância do plano da órbita atual.
- Não vai dar certo.
- Vai dar sim - disse Bonus tristemente e respirou fundo. - Agüentará oito
"g"s?
- Manobra na atmosfera? O shuttle agüentará?
- Você se preocupa com isso?
- Não - eu assumi.
Bonus terminou de comer o biscoito, colocou o tubo vazio embaixo da rede de
"porta-luvas" à esquerda dele e segurou o manche. Eu arrumei os cintos e
coloquei a mochila sobre os meus joelhos para que ela não voasse na cabine
durante as manobras.
Os motores de orientação berraram duas vezes. O meu corpo se mexeu para a
esquerda e para cima. Eu segurei a mochila na barriga, terminei de tomar o
leite rapidamente e coloquei o tubo vazio na mochila. Motores berraram de
novo, e o motor principal entrou em ação no mesmo instante. Desta vez Bonus
deixou as delicadezas de lado. No mínimo quatro "g"s. E logo em seguida, sem
esperar jogar para fora o motor principal, nova manobra. O shuttle entrava na
atmosfera agora, colocando o seu nariz um pouco para cima em relação ao
vetor de velocidade e inclinado um pouco para lado esquerdo. Bonus pilotava
como um mestre.
- Sobre a água?
- Sim. A laguna parece ser bonita.
Nos planetas desconhecidos os instrutores recomendavam a aterrissagem sobre
água. De preferência água do mar. É mais seguro e leve. O mar não pode
virar areia, pântano ou terra molhada de repente. Mar é mar.
Na falta do que fazer eu verifiquei os dados recebidos da nave. Lá em cima
tudo estava em ordem.
Mal tinha terminado quando o shuttle sentiu a atmosfera. A aceleração nos
empurrou no banco suavemente. Eu tomei uma pose melhor e relaxei. Nos
treinos de avião estas acelerações duram segundos. Nas naves espaciais
dezenas e centenas de segundos. Fora isso, não tem diferença.
- Segura o manche - pediu Bonus. Eu abri
os olhos, coloquei as mão que ficaram pesadas de repente sobre o manche,
bati o olho nos aparelhos. Olho acostumado a esta tarefa pegava blocos de
informações: velocidade - densidade da atmosfera, velocidade vertical -
altura, rota prevista - rota atual. Embaixo - um oceano infinito.
- Começando a manobra - informou Bonus. Máquina caiu para um lado levemente,
e a aceleração levemente da mesma forma subiu de quatro para oito "g"s.
- Aqui não tem inverno - disse Bonus quando a aceleração caiu para um. -
Inclinação do eixo de quatro graus.
- Nuvens - lamentei.
Máquina caiu numa parede de nuvens sólida, sem nenhuma brecha. Na tela do
radar a linha costeira aparecia nitidamente.
Saímos das nuvens na altura de dois mil e meio. Já dava para ver a praia.
Traços de ondas estavam parados sobre água infinita, cor de chumbo, embaixo.
A máquina balançava nas correntezas do ar.
- Onde está a sua laguna?
- Bem na frente. Aterrissaremos do lado do mar. Hoje vamos jantar ao lado de
uma fogueira. O que você acha, peixes sobreviveram por aqui?
- Eu não acho nada.
De repente a poltrona da segunda fileira bem atrás de mim virou bruscamente.
Com barulho de doer nos ouvidos explodiram suportes pirotécnicos, jogando
para fora o teto da cabine sobre nós. V-v-uuh! - motores de pólvora
funcionaram, catapultando a cabine para fora. Vento começou a entrar na
cabine, fazendo barulho e batendo na cara.
Trrah, vvvuh! - segunda poltrona da segunda fileira catapultou atrás da
primeira.
- Que raios! - gritou Bonus.
- Não fui eu - gritei eu de volta, - sozinha! P-puta!
Bonus começou a apertar os triggers, desligando piloto automático e o
computador central, para desativar o programa de catapultagem dos pilotos.
Vvvuh - saiu voando terceira poltrona da segunda fileira. Eu soltei o
manche, joguei mochila para fora, me agrupei. A próxima poltrona a ser
ejetada era para ser a minha.
Virada brusca, barulho rasgado em cima da cabeça, aceleração que quase fez o
estômago explodir - e estou lá fora, e o shuttle está caindo para baixo
extremamente rápido.
A tampa do quinto assento estava caindo como uma folha branca embaixo de
mim, e logo em seguida o assento saiu voando da cabine numa nuvem de gases
de pólvora. Puxou, abrindo, pára-quedas. Eu claramente vi como sobre a
última, sexta tampa saíram duas nuvens de fumaça. Duas de três! Mas a tampa
não saiu para fora, não começou a caiu numa correnteza aérea. E no momento
seguinte ela foi jogada para fora com o impacto causado pelo assento do
Bonus.
Eu apertei o botão no cinto, os cintos se soltaram, e a poltrona pesada voou
para as águas cinzas do oceano. Em cima do assento vazio abriu a cúpula do
pára-quedas, e dois segundos depois o pára-quedas se abriu sobre o assento
do Bonus.
O shuttle caiu para um lado, virou completamente bem devagar e mergulhou na
água. Explosão enorme de água e fumaça voou para cima. Alguns segundos
depois ele saiu para fora da água devagar e virado ao contrário, mas logo em
seguida abaixou o nariz e afundou. Explosão não aconteceu. Se o spin-gerador
explodir quando eu entrar na água sobrará apenas um saco de ossos de mim.
Estou contando os segundos. Parece que dei sorte. Sorte? Ou o contrário?
Bonus acabou não soltando o assento, por isso ele estava caindo muito mais
rápido do que eu.
O sistema automático de ejeção funcionou de repente. Funcionou sozinho, sem
nenhuma ordem. E o piloto automático foi desligado pelo Bonus, na tentativa
de desligar o sistema de resgate automático. E, como resultado, nós perdemos
o shuttle, comunicação com a nave, ferramentas e comida... Nós ficamos
preparando o shuttle para a aterrissagem por tempo demais. Mas existem
coisas que não podem ser verificadas. É possível verificar uma caixa com
fósforos? "Sim, mas uma vez só" - diria Vulcãozinho.
Segurando as cordas, eu direcionei o pára-quedas para o lugar onde
aterrissou o piloto. A água queimou de tão fria.
Não tinha por que ter medo de tubarões. Nem pingüins sobrevivem aqui! -
xinguei eu em voz baixa. Tirei o suporte do pára-quedas, em algumas braçadas
alcancei o assento do Bonus, tirei o tecido molhado do pára-quedas do rosto
do amigo..
Bonus estava inconsciente. Uma ferida pequena na testa jorrava sangue.
Eu tirei as botas magnéticas pesadas, as deixei caírem para a profundidade,
tirei as botas do Bonus, o tirei do assento, segurei pela gola e, dando
braçadas com uma mão só, comecei a nadar para a praia distante.
Nadar na água gelada duas dezenas de quilômetros, ainda por cima carregando
um amigo ferido, é inviável. Mas as equipes dos Esquadrões da Vida foram
treinadas para sobreviver em qualquer circunstância.
Pacote informativo 3
...O que é a Onda? Durante anos as melhores mentes da Humanidade ficaram
pensando sobre isso. E o resultado? Confirmação da tese "Eu sei que nada
sei". Quantidade enorme de material observado - e nenhuma teoria que pudesse
explicar pelo menos metade dele.
A frente da Onda anda com velocidade que ultrapassa a velocidade da luz. Na
zona de ação da Onda as constantes universais "fluem". Leis físicas, que
pareciam eternas, acabam sendo quebradas. Massa gravitacional acaba sendo
diferente da inercial, leis fundamentais de conservação de energia dizem um
"Tchau" aos físicos e saem de férias. Terceira lei da termodinâmica? Meu
caro, do que você está falando? Esquece!
Durante muito tempo existia uma teoria na qual a Onda foi descrita como a
alteração do fluxo do tempo num nível microscópico. Desta forma, o tempo no
nível macroscópico flui para um lado e, no nível das partículas elementares
- para o lado contrário. Não deu certo. Depois chegou algum outro e disse:
"A Onda é uma região do espaço com velocidade dos processos entrópicos
alterada. Inclusive para valores negativos". E todos concordaram com ele.
Esta definição pode servir de rótulo, mas não explica nada. Por que
algumas estrelas, sofrendo a ação da Onda explodem, e outras em poucas
horas se tornam globos de elementos pesados com temperatura próxima ao
zero absoluto? Por que a frente da Onda se movimenta com velocidade maior
que a velocidade da luz? Porque a Onda ignora todos os campos físicos com
exceção do campo gravitacional? O que ou quem criou a Onda?
Com certeza sabe-se apenas o seguinte: A Onda faz milagres. Milagres
malvados.
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Bonus morreu sem recuperar a consciência. Não sou médico mas, aparentemente,
entrou sangue no cérebro. Isso acontece com lutadores de boxe, e ele recebeu
um golpe forte na cabeça quando a catapulta funcionou.
Eu tirei toda a roupa dele, juntei em um nó, prendi com um cinto nas costas.
Coloquei o colete salva-vidas dele. O meu não queria se encher de ar. Depois
eu empurrei o corpo para baixo. Seria bom dizer alguma última palavra antes,
mas estava com muito frio. A água estava gelada e salgada. Eu tinha apenas
quatro a seis horas de vida. "Somos sortudos" - dizia Bonus enquanto
estávamos em quatro. "Somos imortais" - dizia ele quando sobramos apenas nós
dois. Agora estou sozinho. Eu consigo enxergar a praia, mas não conseguirei
alcançá-la. A gente teve uma chance. A gente a perdeu. Talvez os outros
tenham mais sorte.
Eu comecei a nadar em direção à praia. Não porque estava esperando chegar
lá. Simplesmente porque as equipes foram treinadas para sobreviver.
"Enquanto estou vivo, tenho esperança", "A esperança é a última que morre" e
outras besteiras. Nossa Esperança (***) foi a primeira a morrer. Luisa
Astrid, minha Estrelinha, foi a segunda.
Eu quase deixei este mundo quando escutei o barulho de um motor movido a
água. Levantei a mão. Em uns dois minutos um pequeno navio-robô chegou
perto de mim. Estridente, aerodinâmico, de tamanho de um barco de
competição. Com olho preto de câmera em cima da tampa transparente.
Eu tentei subir na superfície lisa. Sem efeito. O barquinho afundava. Eu era
pesado demais para ele. Então eu tirei o cinto das calças, fiz um nó e
coloquei na superfície do barquinho, logo na frente da câmera. O motor
começou a funcionar, e o barco começou a me arrastar, como um navio menor
arrasta um transatlântico. Mas o peso era grande demais para o brinquedo. A
gente se movia em um arco grande. Quando a praia, em vez de ficar mais
próxima, começava a se afastar, o barquinho fazia uma virada brusca. E assim
nós andávamos - um arco grande em direção à praia, virada brusca para
oceano, e mais um arco. Resumindo, devagar, mas sempre estávamos nos movendo
na direção certa.
Quando eu comecei a ter esperanças de não ter morrido, o barquinho desligou
o motor. Não fiquei triste por isso. O frio fez tanto os músculos quanto as
emoções congelarem.
Em cinco minutos outro robô-barquinho apareceu. O olho - câmera - do meu
apontou para o segundo com autoritarismo.
- Nem ferrando... - tentei pronunciar e fechei os olhos. Mas o maldito
pedaço de ferro enferrujado acabou sendo mais inteligente do que eu. O
robô recuou um pouco, saiu do meu nó e fugiu para a praia em uma boa
velocidade.
Como eu coloquei o nó sobre o segundo robô, não lembro. Neste momento a
memória começou a falhar. Ondas no rosto, círculos infinitos em espiral...
e, de repente, um pedaço de cais de concreto, antigo, semi destruído pelo
tempo. Certamente é uma visão, um delírio, porque em cima dele está parada
uma mulher nua, preta de sol.
O robô desapareceu. Devo nadar até o cais. Por que eu penso assim? Não devo
nada para ninguém. Fecharei os olhos agora... Que voz estridente. Alta,
barulhenta, gritante. Delírio infernal e uma voz destas... Tudo bem, vou
nadando. O quê? Segurar os pés mais forte? Que pés? Seus? Desculpa, querida,
hoje não estou a fim... Pede pra algum outro.
Próxima recordação - a onda me levanta, as pontas dos pés de alguém me
seguram por baixo dos braços, quase trincando as costelas. Um empurrão forte
e eu saio da água como a tampa de uma garrafa de champagne... e caio com o
rosto sobre o concreto trincado do cais. Alguém me afasta da água com
chutes. Me afasta sem nenhum sinal de carinho. Com chutes.
...Acordo com o barulho dos meus dentes se batendo uns nos outros. O meu
corpo treme constantemente. Algo vivo, quente, suave se encosta em mim.
Abro os olhos - e em alguns centímetros eu a vejo, a mulher do delírio. Os
olhos frios dela brilham com maldade.
- O olho do mar desapareceu! Culpa sua! - declara ela com voz estridente e
gritante. Ela pronuncia as palavras muito rápido, mas após cada palavra
tem uma pausa considerável. Bonus tinha razão. O Projeto deu certo, e a
humanidade não desapareceu do universo. Até a nossa equipe sobreviveu...
parcialmente.
Talvez, chegou a hora de dizer honrar vocês, amigos, com um minuto de
silêncio.
Donald Price, conhecido como Bonus entre os amigos, você está me escutando?
Você tinha razão. Razão em tudo.
Luisa Astrid, minha Estrelinha querida, você ia gostar deste mundo. Nele tem
oceano.
Nadezhda Kavun, Vulcãozinho, você também encontraria um lugar para você
aqui. Da órbita a gente viu florestas e campos...
Sim, eu lembro, eu te prometi, Estrelinha, que não vou desistir, vou
encontrar uma fêmea para mim e vou me procriar. Em silêncio. Me segurando e
juntando os dentes com força. Como um lobo. Uma fêmea local já esta se
esfregando no meu corpo com o dela. "Senhorita, você não quer começar o
processo de procriação? Não dou a mínima para você e para a sua aparência,
mas o dever está me obrigando". Frase bonita para o primeiro encontro?
Aparentemente, alguma coisa mudou na minha cara, porque a mulher se afastou
de repente, sentou e com movimento suave ficou em pé. Ela não tinha roupa
nenhuma.
E ela não tinha braços. Isso mesmo, totalmente. Nem sinal de que braços
deveriam crescer dos ombros.
- Sim. Sou munt - disse ela tranqüilamente, percebendo a minha surpresa.
- Quem?
- Mutante. Levanta. Vá atrás de mim.
- Para onde?
- Casa. Calor. Comida.
Não dando mais atenção para mim, a mulher andou em direção à praia pelo
deque. De algum lugar apareceu e acompanhou-a um ciber com quatro mãos e
seis pernas. Este ciber estava mancando em quatro pernas e parecia ter
fugido de um resíduo de ferro velho e enferrujado. "Então é você o animal
tradicional daqui!" - ficaria surpreso, zoando, Bonus olhando para este
monte de ferrugem andando. Mas Bonus não existe mais.
Eu me levantei com dificuldade, juntei os dentes e tentei me arrastar atrás
da dupla estranha.
Eu tenho que viver e morrer neste planeta. Oceano cor cinza escuro, atrás de
mim. Vento gelado e céu cinza em cima da cabeça. Praia cheia de pedras à
minha direita e esquerda até o horizonte. Na minha frente - ciber mancando e
mutante sem braços.
O meu instrutor na Terra ensinava – a primeira impressão é a mais correta.
A roupa não secou, por isso eu tirei a jaqueta e a camisa, coloquei no
encosto das cadeiras. Ciber tentou escondeu eles para algum lugar, mas o
grito furioso da dona o parou.
Almoço consistia de dois pratos: primeiro geléia cor de esmeralda e com
gosto salgado e água com açúcar depois. E só. Nosso robô-cozinheiro na nave
criaria uns dez pratos a partir dos mesmos ingredientes, algas, e faria
alguns pedaços de pão de bônus.
Enquanto o ciber alimentava a dona com uma colher, eu olhava para ela.
Aparentemente ela tinha em torno de trinta anos, corpo muito bem modelado,
peito maravilhoso. Sobrancelhas pretas, cabelo preto até as costas. Vênus
grega.
- Qual é o seu nome?
- Veda - respondeu ela, - e ele (apontou com cabeça para o ciber) - Kent.
- Meu nome é Ignat.
- Eu sei.
Quis perguntar de onde ela sabia, mas lembrei que o nome estava escrito em
cima do bolso da jaqueta.
- Você está sozinha aqui?
- Estou sozinha aqui. Isso é uma tecnocasa. Tem por volta de oitocentas
tecnocasas como esta no planeta. Em cada uma mora um munt.
- Alguém fora munts mora por aqui?
- Sim. Você verá. - Veda levantou bruscamente da mesa. - Descanse hoje.
Amanha você irá para uma tecnocasa vizinha. É longe. Descanse bem.
- Que historia é essa? E se eu não quiser ir lá?
- Você deve. Salvei sua vida. Perdi "olho do mar". Você tem um dever.
- E por que raios eu devo ir para essa tecnocasa?
- O sistema elétrico falhou lá. Nós, munts, não podemos viver sem energia.
Cibers param, plantas morrem. Você deve salvar Liana. Se você não a
salvar, todo o setor perderá controle.
- Ela não tem braços também?
- Sim. Mesma mutação. Nenhum munt tem braços. Liana é nova, inexperiente e
estava conseguindo consertar o problema. E depois a bateria acabou... Faz
quatro dias que não conseguimos nos comunicar com ela.
Eu tentei avaliar as possibilidades de sobrevivência de uma garota nova e
sem braços na floresta. Chacoalhei a cabeça e tentei imaginar ela feia como
o pecado. A alma não ficou mais aliviada.
A mochila machuca as costas. Perdi o costume. Não tinha passeios turísticos
no espaço. O que o Bonus faria no meu lugar? Também iria no segundo dia após
a aterrissagem a uma distância de oitocentos quilômetros?
- Como encontrarei a droga dessa tecnocasa? - pergunto à Veda.
- Aqui está o mapa. A tecnocasa está perto do rio.
- Qual rio? Tem três por aqui... Tudo bem, em qual margem do rio?
- Não sei. Você deve encontrar a tecnocasa e a Liana.
- Eu tenho que andar oitocentos quilômetros com bússola e encontrar não sei
o quê. É isso?
- Sim.
- Você acredita nisso? Se eu desviar apenas dois quilômetros...
- Não tem ninguém além de você para fazer isso.
Essa foi a minha conversa com Veda. Ela não tinha idéia sobre os perigos da
viagem, mas afirmou que não existiam animais selvagens. A Onda os fez
desaparecer. Junto com a primeira população. Aqueles que moraram aqui antes
da Onda.
A Onda chegou até aqui enfraquecida. Quase nenhuma. Só mudaram um tiquinho
de nada as constantes universais. Quase imperceptivelmente. O que pode fazer
uma mudança das constantes universais em milésimos por cento? Apenas alterar
a química. Bioquímica. Reações químicas quase imperceptíveis, chamadas
"vida". Os seres primitivos se adaptaram. A troca de gerações com eles
aconteceu muito rapidamente. As raízes das plantas sobreviveram o ano
infeliz. As larvas de alguns animais também. Mas aquilo que era chamado de
vida propriamente dita desapareceu. Ossos brancos sob o sol, árvores mortas
no lugar onde estavam florestas. E grama novinha, verde, com cor de
esmeralda. A grama daqui é linda. A Estrelinha teria gostado...
Eu já tinha andado uns dez quilômetros quando encontrei o robô-barquinho. O
"olho do mar", de acordo com a Veda. A bateria dele descarregou e as ondas
o jogaram para a praia.
Fiz uma pirâmide de pedras na praia marcando o lugar, escondi a mochila,
prendi o "olho do mar" com cordas e comecei o caminho de volta.
O "olho do mar" pesa em torno de quarenta quilos. Como eu o arrastei por dez
quilômetros, não sei. Não consigo lembrar. Só lembro que as cordas cortaram
todos os meus ombros. Só me segurei de raiva.
- Por que voltou? - a Veda me cumprimentou assim - Você deve salvar Liana.
- Tome o seu ferro velho. Eu nunca devo nada para ninguém. Lembre-se disto.
- Você cansou. Descanse hoje, vá amanhã. E não se distraia com coisas
secundárias. Sua tarefa: salvar Liana e a tecnocasa dela.
Provavelmente, a idéia de descanso até amanhã era boa. Mas eu segurei a Veda
pelos cabelos, meti um beijo salgado, com cheiro de suor na boca dela e fui
sem olhar para trás.
Andar sem carga foi fácil. Sobre que pensava? Claro que sobre a Veda. Sobre
o fato de que a voz dela em apenas um dia parou de ser tão estridente, o
vocabulário ficou mais rico, e a fala começou a lembrar fala humana de
longe. Será que ela foi educada por cibers mesmo?
Ela se recusou a falar sobre si mesma. Sobre o planeta falou muito pouco.
Mas é possível adivinhar algumas coisas. A primeira leva de colonizadores
morreu. Mas existem pessoas no planeta. São a segunda e, provavelmente,
terceira geração dos moradores. Quais são estes setores que os munts que
vivem em tecnocasas controlam? Em que consiste o controle? Quem pode ser
controlado por munts sem braços? Este mundo não é tão simples.
Ah, mas o que é que eu tenho a ver com ele? Astrid, minha Estrelinha...
A praia virou para o norte de repente, agora eu não podia mais seguir por
ela. Eu determinei a rota pela bússola, escolhi os objetos visíveis de longe
e arrumei a mochila nas costas. Os ombros doíam. O sol estava se pondo. Nem
perguntei como os nativos chamam o planeta. Estrela é sol. Isso é claro.
EH-alguma-coisa, como os cabeludos chamaram ela, mas os colonizadores não se
preocupam com besteiras. Brilha, então é o sol. Sem dúvida. Mas planeta tem
nome. Quem era responsável pela navegação era o Bonus. Tradição nossa.
Porque para a gente não fazia mais diferença para onde ir, mas Bonus tinha a
língua melhor colocada do que eu. Não gosto de discutir sobre besteiras.
Começou uma floresta. De repente, sem introdução. Estranho. Árvores
terrestres, mas a floresta não é terrestre. O sol se escondeu pela metade
atrás do horizonte, e ficou completamente escuro na floresta. Eu decidi
fazer uma parada para dormir. Coloquei corda entre duas árvores, joguei
plástico por cima, coloquei galhos e pedras nas pontas - virou uma barraca.
Veda não tinha uma barraca de verdade.
Mal sentei e a chuva começou. Chuva pequena, que pode durar por uma
eternidade durante o outono. Se não estivesse chovendo, eu estaria escutando
nervosamente os barulhos da floresta alheia, mas durante a chuva qualquer
floresta parece amigável e tranqüila.
Não acreditei quando a Veda disse que o planeta era seguro. Para que ela
precisa de um stunner com bateria solar? É um brinquedo de verdade. Mataria
até um boi.
E por falar em brinquedos - eu segurei o stunner e ajustei a potência no
máximo. Por uns cinco minutos fiquei pensando se valia a pena jantar. Dormi
antes de decidir qualquer coisa.
De manha eu comi a geléia verde, tomei água da garrafinha e comecei a fazer
uma barraca de plástico. Seria melhor ter feito isso na tecnocasa, mas a
Veda estava contra qualquer atraso.
Vulcãozinho adorava costurar. Estudos deixavam muito pouco tempo livre, mas
a gola da camisa do Bonus sempre tinha algum desenho costurado.
- Isso é cultura nacional - afirmava Vulcãozinho. - Temos que cuidar e
guardá-la.
- Mas não é a minha cultura - tentou protestar Bonus, educado de maneira
politicamente correta.
- Você não gosta da minha costura?
Eles brigavam freqüentemente e alto. E faziam as pazes da mesma maneira.
Bonus colocava Vulcãozinho, que gritava, no ombro e levava para a cabine
deles. Ou para o nosso quarto - nos últimos anos do curso cada equipe tinha
uma sala própria. Tentar ajudá-los a fazer as pazes era inútil e perigoso.
Juntos, como se não estivessem brigando, eles atacavam o auxiliador.
Mas uma vez eu vi Donald com cara pálida e visão perdida.
- Ignat, ela não me quer mais - falava ele perdidamente. - Não quer mais de
jeito nenhum.
Eu coloquei uma chave inglesa na mão dele e mandei fazer alguma coisa sem
importância perto da saída da nave. Depois encontrei a Nadezhda e fiz uma
cena Como no teatro, falando: “O que é que o Bonus está fazendo perto da
saída da nave, com aquela chave inglesa na mão?”Como ela correu... E tudo
voltou a seguir a história normal. Com barulho, com gritos, com ameaças dos
dois lados. Eu apanhei dos dois.
Por volta de meio-dia a barraca estava praticamente pronta. Bem nas coxas,
mas foda-se. Determinei a direção pela bússola e continuei o caminho. Logo
eu descobri que na floresta deve-se olhar para a bússola o mais
freqüentemente possível. Em uns cinco minutos eu desviei quase vinte graus
da rota traçada.
Encontrei um rio pequeno, preenchi a garrafinha com água limpa. Joguei para
fora água cheia de terra da garrafinha, preenchi com limpa. Vi um veado na
floresta. Ele bebia água uns trinta metros para baixo na correnteza. Ele me
via mas não tinha medo. Isso diz alguma coisa. Durante o treinamento para
sobrevivência na floresta o Instrutor dizia: "Coma tudo que o macaco come.
Se conseguir, coma o macaco também". Naquela época a gente dava risada. Onde
vou encontrar um macaco num outro canto da Galáxia? Serve um veado?
Tenho cinco quilos de geléia verde comigo. Quando acabar, vou ter que viver
de caça. Então, uso stunner para caçar? Por que a Veda não disse
diretamente? Porque ela não quer contar nada sobre o planeta? "Você verá" -
e fim da conversa.
Pros diabos a Vera. Aqui está cheio de frutas e vegetais. Mas será que posso
comê-los? Se a Onda passou por aqui (e a Onda passou por aqui), poderiam
começar mutações. E esta fruta, tão parecida com ameixa... Vai que você a
come e descansa para sempre? Interessante... Mas não está na hora ainda.
Primeiro tenho que salvar a Liana, depois vou experimentar.
A floresta virou um campo. As nuvens se abriram, e o sol começou a me
queimar. Forno. Eu coloquei o stunner no outro braço, em direção ao sol. A
embalagem fazia papel de bateria solar. Quando nós saímos da Terra, não
tinha tecnologia para isso ainda.
Estranho tudo isso. Planeta estranho, população estranha, eu estou me
comportando estranhamente. No segundo dia depois de aterrissar fui para
ninguém sabe onde. E ninguém fica surpreso. Eu - tudo bem. É difícil
surpreender aquele que não espera nada da vida.
O suor sujou a camisa. Pensamentos se tornaram um nó só. Apenas uma frase
estava na cabeça. Duas frases de um verso:
Apenas uma alegria eu tenho
Dedos na boca, e subiu alto...
Eu o repetia uma vez atrás da outra. De repente lembrei que o autor é Esenin
(****) e que na versão original o verso era um pouco diferente.. O ritmo
quadrado destas frases juntava-se com os passos, escondia o cansaço.
Astrid, Estrelinha minha, por que você me traiu, por que você morreu?
O campo acabou, eu entrei na floresta novamente. O calor virou um tempo
refrescante - chuva.
À noite encontrei um nativo velho. Cabeludo, barbudo, absolutamente nu, ele
tirava frutas da árvore. Observação número um: roupa não está na moda por
aqui. Observação número dois: coma tudo o que o macaco come. As frutas daqui
podem ser comidas.
- Olá. Meu nome é Ignat.
O homem virou na minha direção, murmurou alguma coisa ininteligível e foi
embora. E eu fiquei parado, olhando cegamente atrás dele. Todas as perguntas
saíram da minha cabeça. Porque o homem foi castrado. Isso mesmo,
completamente. Saco inexistente, do pênis sobrou apenas um pedaço cortado de
maneira torta de uns dois centímetros.
Verifiquei o stunner por algum motivo. Alcançar e interrogar o nativo não
deu mais vontade. "Não se pergunta sobre o que não é da sua conta, caso não
queira escutar algo que pode não gostar" - dizia Nadezhda, lendo Mil e Uma
Noites.
Em quais casos um homem pode ser castrado?
Versão 1: limitação da população. Não passa. A primeira Onda passou por aqui
há mais de quatrocentos e cinqüenta anos, os colonizadores apareceram aqui
depois. Eles não poderiam se procriar muito.
Versão 2: Castigo. Cruel, e diz sobre idade das pedras. Em qualquer caso
esta operação cirúrgica diz sobre a barbaridade da idade das pedras.
Versão 3: Batalha para manter o genoma limpo. Após as mutações, causadas
pela Onda, isso é bem provável. Menino nasceu um mutante, não o mataram de
vez mas tiraram a possibilidade de se procriar. Humanismo da idade das
pedras. A gente foi avisado que no planeta poderia existir idade das pedras.
Versão 4: Idiotices religiosas.
Este mundo não presta. De acordo com qualquer uma das versões.
- A sua meta é manter a humanidade no universo - diziam os instrutores para
nós. - Se procriem a vontade -- é apenas isso o que pedimos de vocês. Se
conseguirem manter a civilização no nível da escrita - parabéns e glória
eterna para vocês. Caso contrário - não fiquem tristes. Daqui a cinco-dez
anos a humanidade re-inventará tudo. O importante é ter alguém para
inventar isso. A tarefa está clara?
- E as colônias? - perguntou Vulcãozinho em uma das aulas.
- A colônias estão condenadas. Junto com a maioria da população da Terra.
Não temos a possibilidade de evacuar todos.
Pensando sobre isso, saí da rota novamente. Se eu tivesse uma planilha
navegacional por aqui... Mas ela ficou no shuttle. E o shuttle no fundo do
oceano. Os instrutores nos avisaram que não dá para confiar nos
equipamentos. Quinhentos anos - tempo demais para qualquer ferramenta mais
complicada do que um martelo.
- Não confie nas incubadoras- diziam os doutores para as nossas garotas. -
Vocês vão ter que dar à luz sozinhas. Se conseguirem ligar apenas uma
incubadoura, vocês terão sorte. Caso não consigam... Uma pessoa saudável
pode dar à luz quinze vezes. De preferência, mais do que isso. E não
deixem isso acontecer de qualquer jeito. Implantem sêmen artificial.
Daremos material para vocês. Nas condições de estabilidade criogênica os
bancos de genes podem ser armazenados eternamente.
O banco ficou na nave. A nave - na órbita. Painel de controle - no shuttle.
E o shuttle no fundo do mar. E afinal, não sou mulher para dar à luz. Bem,
pensemos e esqueceremos.
Quanto eu andei hoje? Como descobrir a distância pelo mapa? Foda-se. Tem
três rios. Quando chegar até o primeiro, eu penso.
- Droga - xinguei eu em alguns minutos. - E este buraco molhado pode ser
considerado um rio, ou não? Aparentemente não, por isso ele não está no
mapa. Bem, encontramos um primeiro problema - como diferenciar um rio de
um não-rio?
O zoom do mapa encaixa vinte quilômetros em um centímetro. Em dois dias eu
andei mais ou menos quatro centímetros. De quarenta. Não dá para morrer de
fome em um mês. Veda pensou tudo certo. Tomará que a moça não faça nenhuma
besteira. Vou ficar revoltado se andar oitocentos quilômetros e encontrar o
corpo de um suicida.
Ele estava sentado agachado embaixo da árvore e esperava eu acordar. Cabelo
despenteado, barba, stunner na cintura e bolsa, feita de couro, nas costas.
Se bem que eu vi a bolsa depois. É difícil determinar a idade de um ser
cabeludo e barbudo assim, mas dificilmente ele teria mais de vinte e cinco
anos. E ele usava roupa. Jaqueta de couro, calça de couro, sapatos de couro
também. Bem, aparentemente roupa não saiu de moda totalmente ainda. E não
vou parecer um bárbaro.
- Bom dia - disse ele, saindo da barraca.
- Bom dia. Você é o novo ranger?
- Não, não sou ranger. Eu vou para a tecnocasa da Liana. Quebrou alguma
coisa lá, tem que arrumar.
- Eu pensei que você fosse um ranger. Você tem stunner, mas você não é um
ranger. Estranho.
- Meu nome é Ignat. E o seu?
- Tobi. Se for falar completamente, é Tobias, mas ninguém me chama assim.
Todos dizem Tobi e Tobi. Você me chama de Tobi também. Estou acostumado a
ser chamado de Tobi.
- Tobi, você sabe com chegar na tecnocasa da Liana?
- Sei. Eu morava lá. Você tem que ajudar a Liana. Ela é boazinha. A mãe dela
me ensinou a ser um ranger, mas ela não está mais na tecnocasa.
- Tobi, você não poderia me acompanhar até a tecnocasa? Não sei o caminho e
alguma coisa pode acontecer com Liana.
- Até a Liana? Claro, eu te acompanho - ficou feliz ele. - Já não a vejo há
uns cem anos. E ela não me viu durante cem anos. Já faz dois anos que não
vou lá.
Que sorte. Alguém que sabe o caminho. "Somos sortudos" - dizia Bonus quando
estávamos em quatro.
-...Eu pensei que você fosse o novo ranger. Você tem stunner. Eu queria
determinar quem iria guardar qual setor. Às vezes trocaríamos. Eu tenho um
setor muito grande, mas estou sozinho. Precisa de mais rangers. Eu disse
para a Veda: "Precisa de mais rangers", mas ela fica brava. Diz: "Onde vou
encontrar mais rangers? Vou parir um? Traz um menino que eu educo ele". Mas
os degs não querem mais doar meninos para as munts educarem. Eu falo para
eles: "Precisa de mais rangers", mas eles não querem. E Veda fica brava. Eu
falo para ela que não precisa se preocupar à toa.
Eu comecei a pensar que o acompanhante não era um bem tão importante assim.
Entendi também que não sei andar na floresta. Tobi andava entre as árvores
levemente e sem barulho. Eu vi passo assim nas aldeias indígenas - pernas
meio dobradas nos joelhos. Nenhum galho bateu no rosto dele, nenhum galho se
quebrou embaixo dos pés.
- A Fiesta nunca fica brava. Ela é sempre boazinha e triste. E não quer ter
uma menina. Mas se ela não tiver uma filhinha, quem vai cuidar da
tecnocasa depois dela?
- Tobi, você mesmo fez a sua jaqueta? - eu perguntei para tentar mudar um
pouco de assunto.
- Eu mesmo. Matei um veado, tirei a pele eu mesmo, costurei eu mesmo.
Somente a pele as mulheres da aldeia me ajudaram a fazer. Eu não sei
tratar pele. Elas sabem, mas não explicam como que faz. Somente dão
risada. São más. E eu morava sozinho. Peguei linha e agulha com Veda,
porque as da aldeia são más. São gananciosas também. Não darão sem ser em
troca de alguma coisa. E eu não podia ficar na aldeia por muito tempo. Sou
um ranger, tenho que vigiar o setor.
No começo eu tentei achar alguma coisa de útil nas palavras dele, depois me
desliguei. Tobi andava na frente, pegando frutas das árvores e jogando na
boca. Eu o alcançava com dificuldade, respirava que nem um trem e perdia as
forças constantemente.
- Seu stunner está desregulado - disse Tobi na hora de descanso. - Você pode
matar assim. Olha como deve ser - ele tirou o dele e mostrou a
configuração. O stunner estava configurado para paralisar. Não quis
discutir, mas regulei o meu da mesma maneira. Se precisar, é possível
trocar a configuração com um movimento de dedo apenas.
À noite Tobi ficou feliz olhando a minha barraca.
- Casa pequena! Vou fazer uma assim para mim também. Vou pedir pra Liana
tecido transparente, ela me dará e vou costurar.
Pela primeira vez comi comida de verdade. Tobi coletou frutas amargas e
juntou com a geléia verde. Salgado com amargo - eu pensei que sairia algum
veneno, mas até que ficou gostoso.
E no próximo dia eu descobri o que os rangers fazem. Tobi paralisou com o
stunner uma menina nua. Ela nos viu tarde demais, tentou correr, mas
conseguiu dar dois passos apenas. Tobi a virou de costas delicadamente, a
deitou com cuidado, tirou do rosto e ombro grama que estava grudada lá.
Depois tirou da bolsa uma caixinha preta de metal.
- Que bonita. E muito novinha também.
- O que você vai fazer com ela?
- O que deve ser feito. Primeiro vou fazer uma análise e, se a análise for
boa, colocarei o sêmen nela. Se quiser, posso fazer uma análise com você.
Ai você coloca o sêmen nela.
Com estas palavras ele abriu a caixinha preta. Embaixo da tampa tinha dois
botões e três indicadores em forma de barra: vermelha, azul e verde. Tobi
encostou a caixinha no ombro da menina e apertou o botão esquerdo. Após um
segundo a barra verde se iluminou por completo e a azul por três quartos.
Tobi olhou para os indicadores, colocou a caixinha no antebraço dele e
apertou o botão direito. No ombro da menina apareceu uma gota de sangue.
Aparentemente, a caixinha era um diagnostico primitivo.
Tobi tirou a caixinha do antebraço, lambeu a gota de sangue que saiu e
apertou os dois botões juntos. A visão do aparelho e a certeza do ranger por
algum motivo me acalmaram. O que acontecia não era uma caça humana. Tinha
algum sentido em tudo isso.
- E ai? - perguntei eu indiferentemente. Tobi virou a caixinha para mim. As
barras indicadoras ficaram um pouco mais curtas.
- A minha análise não é muito boa, mas melhor do que a dos peladinhos e dos
degs. Munts dizem que se as barrinhas são mais curtas do que antes e não
chegam até aqui - ele apontou com a unha, - é necessário colocar sêmen.
Mas não é verdade que ela é bonita? Eu gosto de colocar sêmen nas bonitas.
Depois começou um ato sexual normal. Eu sentei embaixo da árvore e me
obriguei a olhar. Isso não podia ser considerado um estupro. Tobi se
comportava educadamente e delicadamente. Massageou o corpo da menina até ela
demonstrar sinais de vida. Ai começou massagens das zonas erógenas. Em
geral, quando a menina recuperou a consciência totalmente, Tobi a esquentou
de uma meneira que ela não podia mais resistir, e nos gritos dela não tinha
nem medo nem dor. Tudo bem quanto a isso, mas a menina era virgem. Ela
gritou muito alto e saiu muito sangue. Depois começaram as lágrimas. Tobi
fez carinho nela por um bom tempo, beijou nos olhos, fez carinho nos
cabelos. Eu cansei de olhar para os carinhos deles. O procedimento de
"colocar sêmen" foi justamente o que eu tinha pensado desde o começo: ato
sexual com o objetivo de engravidar uma menina desconhecida. Provavelmente,
eles têm problemas quanto a nascimento de crianças. Colonistas salvagens não
querem se procriar com a velocidade necessária. Não tenho nada a ver com
isso.
Uma hora depois o casal estava feliz e tranqüilo. A menina estava rindo,
Tobi a alimentava com os restos da geléia verde com frutas. Eu coloquei o
plástico no chão, cobri a cabeça com a jaqueta e dormi.
Meia hora depois Tobi me acordou.
- Vamos? Ainda está claro, podemos chegar longe.
Nós pegamos as coisas e continuamos andando. Menina nos seguia, chorando de
vez em quando. Tobi não ligava para ela. Depois de um tempo ela ficou para
trás.
- Não é verdade que esta peladinha é bonitinha? - começou Tobi. Ele queria
compartilhar o assunto. - Uma pena que ninguém a tomou antes. Não gosto de
colocar sêmen nas que não foram tocadas ainda. Tem que fazer carinho nelas
depois, senão elas ficam com medo. E eu não gosto de fazer carinho. Você
faz carinho e elas vão seguir você.
- Qual é o nome dela?
Tobi olhou para mim com cara surpresa.
- Ela é uma peladinha. Peladinhas não têm nomes. Animais têm nomes?
- Às vezes têm - disse eu com preguiça, tentando entender a informação nova.
Pelados. Sem nomes, sem roupa. Animais. No planeta tem munts, pelados e
rangers. O planeta pegou uma sombra da Onda e começaram as mutações. Uns
perderam a mão, outros o cérebro. Maravilha...
- Tem muitos pelados por aqui? - perguntei eu.
- Muitos. Aqui muitos. No norte poucos. Lá é frio e eles não gostam quando
ta frio. No sul e leste eu nunca estive. Lá não são meus setores. Aqui tem
muitos deles. Eu acho que você anda fazendo muito barulho, por isso eles
fogem. Eu, quando ando sozinho, os encontro todo dia.
A geléia verde acabou, então Tobi passou para frutas. Como ele disse, aqui
tudo que tem gosto bom pode ser comido. Um dia depois eu cansei do regime de
frutas, e eu paralisei com o stunner um bichinho, parecido com um coelho. No
fim era um coelho mesmo. Um coelho terrestre comum, levado por uma das levas
dos colonizadores. Tobi ficou olhando com interesse enorme como eu estava
cozinhando o coelho em uma lata.
- Eu sempre asso a carne - confessou ele. - No fogo, ou coloco nas folhas,
faço um buraco na fogueira e queimo na terra quente. Foi Corina quem me
ensinou. É a mãe da Liana.
- Amanhã você me mostrará como você faz.
Ele brilhou de alegria. Inteligência no nível de uma criança de 10-12 anos.
Provavelmente, a Onda atingiu ele ou os pais dele. Planeta de retardados.
Tobi finalmente me convenceu a ser analisado pela caixinha, e ficou andando
com cara abatida por um bom tempo.
- Você tem a melhor análise que eu já vi. Melhor do que as pessoas das
aldeias inclusive! Você que deveria ter colocado sêmen naquela peladinha.
Esta barrinha - ele apontou no indicador - seria bem curtinha. Esta mais
curtinha ainda. E a do meio nem existiria.
- Não sou um ranger.
Tobi ficou pensando um bom tempo sobre as minhas palavras.
A gente encontrou mais peladinhos no mesmo dia. Um homem e uma mulher
estavam fazendo amor e não percebiam nada em volta deles. A gente poderia
encostar neles, nem precisava do stunner para eles não fugirem. Mas Tobi me
arrastou para fora. Por algum tempo ficamos andando em silêncio. Tobi
parecia confuso e mexia a cabeça sem parar, como se estivesse discutindo com
ele mesmo.
Mais tarde encontramos mais três peladinhos de uma vez só. Um homem e duas
mulheres. Eles estavam deitados em forma de estrela na areia perto do rio e,
levantando os pés ao mesmo tempo, batiam nas solas dos pés uns aos outros.
Eu olhei para Tobi. O ranger nem pensou em encostar no stunner. Ele ficou
olhando com curiosidade para o trio até que eles se foram, e depois ficou
quieto por um bom tempo e ficou andando, parecendo deprimido.
- Não conta para a Liana que eu sou um ranger ruim - não agüentou ele. - Eu
sei que sou ruim, a Carina já me falou. Mas eu não encosto nos peladinhos
que estão juntos. Eu sei que isso não está certo. Mas mesmo assim não
consigo encostar neles. Corina sempre me xingava por causa disso.
- Você é um bom ranger - eu bati no ombro dele. - Não precisa machucar
peladinhos se eles amam uns aos outros. E sobre este três... Há algum
tempo eu tinha lido que indígenas da Amazônia se divertiam da mesma
maneira... Não, é besteira tudo isso.
- O quê?
- Entenda, Tobi... Indígenas da Amazônia - eles, obviamente, eram bárbaros.
Mas alguma inteligência eles tinham.
Eu achava que sabia tudo sobre o Tobi e que estivesse preparado para
qualquer surpresa deste mundo. Errei. Na manhã seguinte Tobi atirou com o
stunner num peladinho. Pegou a caixinha preta, fez a análise e rapidamente,
em dois ou três minutos, castrou o rapaz. Colocou uma linha grossa sobre o
saco, jogou um líquido verde sobre a ferida e foi lavar as mão. Nenhuma
emoção - nem dó, nem piedade - trabalho comum. Eu consegui segurar o vômito
com muito esforço. O peladinho acordou, se encolheu como uma criança
recém-nascida e começou a gritar.
- O líquido verde queima muito - explicou Toby. - Uma vez cortei o dedo e
joguei o verde - aí cheguei a gritar mais alto ainda.
"Queria eu arrancar as suas bolas" - pensei eu com raiva. Na cabeça estava
um pensamento apenas: o que este cortador-de-bolas faria comigo se a minha
análise não tivesse sido boa?...
- ...Não, os rangers não cortam os pênis. São os camponeses. Para que os
peladinhos não atrapalhassem as mulheres deles. Genes ruins ficam no saco,
para que cortar mais alguma coisa? Os rangers não fazem isso.
Bem, é uma correção genética afinal. Faz sentido. É necessário devolver a
inteligência à raça. Mas os meios... E o que eu faria? Métodos dependem da
situação. Eu não sou ninguém para julgar. Não sou daqui.
Encontrei uma planta que lembrava muito batata. Tobi me disse que ninguém
planta isso nos vilarejos. Mas alguém disse para ele que ISSO não deve ser
comido.
- Batata crua não deve ser comida - explico eu, jogando batata limpa na
lata.
- Nós comeremos a cozida.
Agora o ranger estava observando com atenção as minhas manipulações. Dali a
pouco o meu prato favorito - batata cozida com sal - estava pronto. Tobi
também gostou dele. Eu esperava deixar alguma coisa para o dia seguinte,
mas... Agora eu estava deitado perto da fogueira escutando o Tobi.
Hoje ele colocou sêmen em mais uma peladinha. Desta vez uma mulher mais
velha. Não precisou do stunner. A mulher veio sozinha, obedecendo o gesto do
ranger. Tobi mostrou uma coleira de couro meio caída em cima do ombro dela.
Colocou o cabelo de lado. Na orelha da mulher tinha um buraco de quase dois
centímetros. Neste buraco alguém colocou a coleira e fez um nó.
- Fugiu de um vilarejo - explicou o ranger. - Ela foi amarrada à noite e
fugiu. Mordeu a coleira e fugiu. Isso é bom, que ela é da aldeia. As da
aldeia são mais quietas, educadas.
Tobi desfez o nó e jogou fora a coleira. Obedecendo ele, a mulher deitou de
costas. Não fiquei olhando o que aconteceu depois.
Até a escuridão Tobi andava deprimido e quieto. Eu já tinha acostumado com a
fala inútil e interminável dele e agora estava sentindo falta de alguma
coisa. Mas só consegui conversar com o ranger perto da fogueira mais à
noite.
- Minha mãe foi das peladinhas dos camponeses - assumiu Tobi. - Ela foi
treinada para levar a água do poço. E ela levava água para todas as casas.
E um dia ela quebrou a perna. O osso recuperou de maneira torta, e ela não
podia mais carregar água. Diversas vezes a levaram para a floresta, mas
toda vez ela voltava. Então a mataram com a coleira de couro. Levaram para
a beira de um buraco, colocaram a coleira em volta do pescoço – e a
sufocaram. E jogaram o corpo no buraco.
Enquanto ela estava viva eu não a considerava mãe. É vergonhoso ter mãe
das peladinhas. Mas quando a mataram... Mesmo sendo uma peladinha, não
deviam fazer isso com ela. Eu disse isso a eles, mas eles começaram a me
zoar. Aí eu fui para a floresta. Lá encontrei um ranger e ele me levou
até a tecnocasa da Corina. Lá morava, e a Liana era uma criança ainda. E
agora a Corina não mora mais lá...
À noite eu acordei por causa de dor no estômago. Me arrastei para fora da
barraca, enfiei dois dedos na garganta e joguei na grama o que restou do
jantar. Com a luz do isqueiro achei na caixinha de pronto-socorro um
remédio, tomei junto com dois litros de água. Deu certo. Não devia ter
comido batata. O Tobi tentou me avisar. Ou é alguma mutação, ou algum veneno
no solo. Entretanto, o ranger está se sentindo bem. Ficava andando de um
lado para outro, sem saber como me ajudar.
Dizem que é possível acostumar o corpo aos venenos, se começar a tomá-lo
devagar. Tobi se acostumou desde criança, mas eu não pertenço a este lugar.
Me sentia como um pedaço de merda num poço.
Mal tinha adormecido quando um veado se atrapalhou na corda que prendia a
barraca. Estragou todo o plástico. Quase levou nos chifres o resto da
barraca, mas atirei nele com o stunner na potência máxima e, por mais
incrível que possa parecer, acertei. Eu e o Tobi ficamos arrumando na
escuridão as cordas e o que sobrou da barraca e tirando o plástico dos
chifres do animal. Conseguimos terminar antes que ele acordasse.
A Veda dizia que na floresta não tinha perigo. Veado não é um predador. Mas
e se ele pisar em cima de nós? Acidente de trabalho? E como o sistema
ecológico se vira sem predadores? Não pode um sistema ecológico normal
sobreviver sem predadores, predadores devem existir.
Com dor na consciência interrompo os meus pensamentos. Estou pensando igual
ao Tobi. Palavras sem sentido na cabeça. Deve ser a convivência...
De manhã, com raiva, me sento para tentar arrumar a barraca. Tobi diz que
vai visitar o vilarejo vizinho em busca de notícias.
Eu me pergunto: por que raios a gente dormiu na floresta?
Pontualmente uma hora depois Tobi chega correndo como um louco.
- Liana está neste vilarejo! Mulheres perto do poço me disseram!
Rapidamente, sem arrumar, jogo a barraca meio desfeita na mochila e corro
atrás dele. A floresta termina de repente. Na nossa frente está uma
montanha. Eu achava que faltavam mais três dias para chegar até ela.
Nos pés da montanha tem um vilarejo. Três dúzias de casas de madeira e cinco
de pedra. Sol brilhante, campo arrumado numa colina, homens trabalhando. Dá
para ver peladinhos em alguns lugares.
- Por que no vilarejo tem apenas mulheres peladinhas?
- Tem homens também - diz Tobi meio triste, - mas poucos. Homens são
inquietos, não gostam de trabalhar, atrapalham as mulheres. E as mulheres
são quietas, calmas. Se alguém quer se divertir com elas ninguém fala
nenhuma palavra contra... Ignat, eu não vou mais para frente.
- Por quê?
- Não quero encontrar a Liana. Mas você deve ajudá-la.
- Vocês brigaram por acaso?
- Bem... Não bem brigamos...
- Entendi.
Pacote informativo 3
Se a Onda tivesse chegado cem anos antes, a humanidade não a perceberia. Até
o último momento... Se a Onda demorasse mais cem anos para chegar, nós,
dando risada, mudaríamos para a galáxia vizinha por um tempo para voltar nas
ruínas depois de uns quinhentos anos. A Onda escolheu a hora certa. O
planeta viu o perigo, mas não tinha forças para salvar todos. O motor-GS já
era conhecido, a Terra até se deu ao luxo de criar algumas colônias, mas
estes foram apenas os primeiros passos no espaço exterior. Naves
Gravi-Saltadoras eram muito caras, a construção delas fazia muito estrago
para a ecologia. E as usinas da lua e Marte tinham começado a dar lucro
apenas há alguns anos, e o poder delas não se igualava a dez por cento do
terrestre.
A Onda escolheu a hora certa. E o planeta concentrou todas as forças para
salvar... Não a população - isso era impossível. Para salvar a raça humana.
Jogar no espaço alguns milhares de naves pequenas na esperança de que
centenas deles pudessem sobreviver à Onda e dezenas conseguissem criar
colônias nos planetas semelhantes à Terra. A humanidade sobreviveria como
uma espécie biológica e, milhares de anos depois, talvez conseguisse se
levantar novamente.
Nós eramos chamados de Elite Estelar, os Esquadrões da Vida. Éramos
selecionados aos quatorze-quinze anos de idade e preparados durante cinco
anos. Os treinos eram assustadores. Quatro entre cada cinco pessoas não
agüentavam e caíam fora. Ou morriam. Mas mesmo os restantes foram muitos. Ou
o número de naves era pequeno demais. Não importa o motivo verdadeiro, mas
apenas metade de todas as tripulações conseguiam sair para o espaço para
brincar de esconde-esconde com a Onda.
Todos queriam ir para espaço. Nós fomos treinados para isso, fomos criados
para isso. Mas agora não posso dizer com certeza quem teve mais sorte -
aqueles que foram, ou aqueles que ficaram.
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- ...Dá uma olhada na caverna - uma mulher idosa me deu a dica perto do
poço. - A molecada levou alguém lá ontem.
Eu olhei para a montanha. Era difícil não ver a caverna. A caverna podia ser
considerada uma gruta. Daria para colocar um hangar para alguns shuttles
nela.
- Obrigado - disse eu e andei para cima em direção à montanha. De perto a
caverna parecia maior ainda. O frio da parte superior fazia um contraste
confortável com o calor de fora. Perto da parede distante brilharam com
luz branca estalactites e estalagmites. Onde vou procurar o alvo?
- Estou aqui - voz aguda fez eco na caverna. Eu fui para a frente.
Era ela mesmo, a mutante. Sem mão. Amarrada na coluna criada pelas
estalactites grudadas por uma coleira. Suja e com frio, ela estava sentada
sobre um punhado de grama seca. No lado de dentro da perna - sangue seco. Ou
ela perdeu a virgindade há pouco tempo, ou é menstruação. Se bem que isso é
problema dela.
A Munt se escondeu embaixo do meu olhar.
- Faz tempo que está sentada assim? - eu perguntei.
- Segundo dia.
Eu tirei a faca, experimentei a lâmina com a unha. A menina abaixou a cabeça
num jeito confiante, para que eu tivesse menos problemas para cortar a
coleira. Por algum motivo eu queria que ela se assustasse ao ver a faca.
- Me segue, pererequinha.
- Eles estão vindo aqui.
Eu olhei para trás. Três brigões locais andavam agitados em nossa direção.
- Ei, ranger! Esta peladinha é nossa!
- Vocês três! Vocês devem me obedecer. Assim que eu falar "um", entenderam?
- Por quê? - os três ficaram interessados na minha idéia.
- Eu sou dos Esquadrões da Vida.
- E nós moramos aqui.
Não entenderam, retardados. Mas eu não esperava por isso.
- Vocês quebraram as regras. Munts não podem ser machucados. Eles devem ser
escutados, eles devem ser ajudados. Eu vou castigar qualquer um que
machucar um munt.
- Ela veio sozinha até nós - respondeu o do meio, o mais alto. - Nós não a
chamamos. Disse: "Me dê comida". Munts de verdade não pedem comida. Munts
sempre têm muita comida. Por que iríamos dar comida para ela em troca de
nada? Deixe que ela trabalhe pela comida. Se quiser comê-la, não temos
nada contra. Mas se quiser ela só para você, azar o seu. Nós a encontramos
primeiro. Ela é a nossa peladinha, entendeu?
As negociações chegaram a um beco sem saída. Eu peguei no chão três pedras
do tamanho de um punho e comecei a jogá-las no ar. A Estrelinha sempre
gostava de olhar como eu fazia isso. Os burros locais também se
interessaram. Aparentemente, eles nunca foram para um circo. A visão
de pedras voadoras os deixou de boca aberta..
- Vocês machucaram um munt e não quiseram me obedecer. Por isso eu vou
castigar vocês - disse eu. Joguei uma pedra para o alto e as outras duas
joguei nos rapazes, que estavam parados um ao lado do outro, uma atrás da
outra. Peguei a terceira pedra e joguei no líder deles. Atrás das minhas
costas Liana gritou assustada.
A cinco metros de distância é possível matar usando uma pedra do tamanho de
um punho. Eu não queria matar. Se quebrei algumas costelas, problema deles.
- Vamos, pererequinha.
Os dois rapazes estavam tentando respirar, mas o líder tentou levantar. Tive
que acalmá-lo com chute na boca.
Perto do poço eu parei e lavei a Liana. Primeiro joguei dois baldes de água
gelada, depois limpei com grama. Depois tive que tirar a sujeira que saiu da
grama. Liana ficou azul de frio, começou a tremer e bater os dentes.
Coloquei a minha jaqueta nas costas dela, fechei o zíper. Os camponeses
começaram a se juntar em grupos e ficaram olhando para nós em silêncio.
- Mostra o caminho.
- Para onde?
- Para a sua casa, para onde mais?
- Eu não sei. Eu me perdi...
Eu xinguei feio em voz baixo, olhei para a bússola e a levei ela na direção
para a qual, de acordo com as minhas suposições, estava a tecnocasa. Perto
da floresta virei a cabeça e olhei para trás. Duas dúzias de pessoas com
estacas e ferramentas nas mãos estavam parados perto das últimas casas,
olhando secamente para nós. Levantei o meu braço para eles. Em um movimento
seco e descuidado.
- Não consigo mais - implorou Liana.
- Certo - eu joguei a mochila, abri a barraca rasgada e olhei para a
mutante. Não consegue segurar a agulha. Não consegue achar galhos para a
fogueira. Estou arrastando uma inutilidade comigo.
Liana ficou vermelha sob o meu olhar e começou a mexer com o corpo, tentando
escapar da minha jaqueta. Por algum milagre, ela conseguiu.
- Adeus.
- Senta! - gritei eu. E pensei que seria uma boa idéia amarra-la em alguma
árvore com uma coleira. Liana olhou na minha direção, olhou para a
floresta mas sentou assim que eu pensei sobre o stunner. Eu coloquei a
jaqueta nela novamente. E comecei a fazer uma fogueira. Estava esfriando.
Na luz da fogueira eu fiquei juntando os pedaços de plástico que
representavam a barraca antes. Enquanto escurecia, os intervalos entre as
juntas que eu fazia aumentavam cada vez mais. Tive que colocar a barraca
praticamente sem ver nada. Não acertei o tempo. Tive que parar para
descansar antes. Agora vou ter que andar na escuridão completa.
Tirei da mochila um pedaço de carne cozida e cortei pela metade. Pensei um
pouco e cortei a porção da Liana em pedaços menores, do tamanho de uma bala.
Ela ficava abrindo a boca e eu colocava um pedaço lá e mordia a minha parte.
Liana fazia cara feira e ficava comendo a carne seca e dura por muito tempo.
Depois eu dei bebida para ela da garrafinha e bebi também. O fogo terminou
de queimar. Somente o que sobrou dele fazia um pouco de luz ainda.
- Vai, corre até o mato.
Liana olhou com cara desentendida na minha direção. Sem querer eu imaginei o
processo.
- Entendi - exclamou ela e desapareceu no escuro.
Depois tive que limpá-la, mandei ir na barraca e coloquei no saco de dormir.
Deitei do lado e me cobri com a jaqueta. Frio e duro. Não peguei o segundo
saco de dormir - bobeei. E do meu lado está uma garota quente e acessível. É
necessário apenas abrir dois zíperes no saco de dormir para que ele se
tornasse um lugar para dois. Eu virei de lado e encostei na Liana.
- Tenho medo de você - tentou falar ela.
- Se eu estuprar você este medo passará? Dorme.
Manhã. Chuva. Nuvens baixas, céu cor-de-chumbo.
- ...A sua alma só tem cinzas! Não sobrou nada lá.
Minha alma é como um punhado de cinzas... Tudo certo... Mas como esta meleca
sabe disto? Menina de merda. Sabe demais. Dezenas de coisas pequenas que se
acumularam em dois dias. No começo eu pensei que a gente se tornaria uma
equipe ótima e balanceada, se ela tivesse mão. Depois esqueci. Caminho
distrai.
- Não quero ir com você. Seus pensamentos são negros. Me deixa, eu voltarei
para o vilarejo. Eu prefiro que me machuquem a cada noite, mas eles são
pessoas vivas! Mas você!...
Os meus pensamentos tomaram um novo rumo. Eu a segurei pelos cabelos e puxei
até mim. Liana gritou de dor.
- Como você sabe os meus pensamentos? Você é telepata? Responda!
- Me solta! Me solta!!! - E, em voz baixa - Sim, sou telepata.
- Apenas você ou todos os munts?
- Todos! Escutou?! Está feliz agora?! E o que você fará com a gente agora?
Matará todos?
- Chega de gritaria.
Não adiantou. Tive que dar umas tapas nela.
- Por favor, não diga aos degs - estava chorando Liana agora. - Ninguém
gosta de telepatas. Todos os odeiam. Eu sou uma burra. Você ficou sabendo,
agora todo mundo ficará. Vão parar de escutar os rangers. A Tarefa não
será cumprida.. Tudo culpa minha...
Eu estiquei a mão e encostei no cabelo dela.
- Para de chorar. Telepatia é problema seu. Não tenho nada a ver com isso.
Por que a Veda me odeia?
- Não se atreva a pensar mal dela! - pulou Liana. - Ela... Você não sabe
como ela é! Corajosa, confiante. A palavra dela é inquebrável! Ela nunca
vai desistir!
- O que eu perguntei?
Liana ficou quieta chorou baixou.
- Quem é você? Elite Estelar. Esquadrão da Vida. Demos tudo de melhor para
vocês. E nós? Nossos ancestrais foram carregados nos transportadores e
mandados pra cá. Se tem Onda, ou não tem Onda, ninguém liga. Vivam como
quiserem! E depois - mutação. Você pensa que é legal ser o lixo da
evolução? A todo ano nosso número diminui. Temos que corrigir o status
genético da população enquanto estamos vivos ainda. Mas o fim será o mesmo
- corrigindo ou não, mais umas quatro-cinco gerações e não existiremos
mais. Chegará a idade de pedra, barbaridade. Não tem como não pensar
nisso. E aí você aparece. Forte, determinado. Todos os nossos problemas
não são problemas para você - besteira, coisa fácil. Lembre dos degs
pelo menos...
- Quem?
- Os degeneratas. Camponeses. Aqueles que queriam te atacar em três. Você
não teve medo. Nem dó! Você ficou entediado. Você não os considerava
humanos. Lembrou da sua mulher. Pisou nele, como em pedras no caminho, e
seguiu adiante. Você não me considera uma pessoa também. Eu sou um
mecanismo para você. Tipo aqueles que você corrigia na nave. Tem que
lavar, limpar, secar onde está vazando. Carregar as baterias. Eu não
entendo porque você veio para me salvar.
- Dever. Veda salvou a minha vida. Odeio viver devendo alguma coisa.
- E quando você corrigir a minha casa, se livrará do dever e continuará o
seu caminho?
Eu respirei fundo.
- Como é que eu vou me desfazer de um dever como este? Não foi você quem me
salvou, foi a Veda.. Se eu salvar a vida dela... Ah, tudo isso é besteira.
Não tem dever nenhum. Eu que o inventei. Entende, menina, tem que ter
algum sentido na vida de qualquer pessoa. O meu morreu lá, no espaço.
Agora estou procurando alguma coisa para substituir. Um falso. Dever - uma
falsidade boa para o sentido da vida, você não acha?
- Apenas cinzas na sua alma. Nada além disso.
Eu cortei um pedaço do tecido de borracha que substituía o meu cobertor e
coloquei sobre os pés da Liana. Mesmo ela tendo andando descalça desde
criança, é necessário usar algum sapato nas montanhas. Nós estávamos subindo
para um monte de pedras mais altas nas redondezas.
Pulando de uma pedra para outra, eu estava analisando os fatos
preguiçosamente. Liana não escondia o estado das coisas. Aqui moravam
descendentes da primeira leva da colonização. Chegaram antes da Onda ainda.
Não sobreviveu ninguém deles. Mas eles se prepararam bem para viver aqui.
Os sistemas biológicos terrestres expulsaram a vida nativa relativamente
rápido.
Segunda leva da colonização, também conhecida como a última leva de
emigração da Terra. Estas pessoas pegaram a sombra da Onda aqui mesmo.
Metade corre pelada nas florestas. Desta metade os rangers tomam conta.
Cortam bolas de uns, colocam sêmen nas outras. A outra metade - munts.
Mantiveram a inteligência, conhecimentos tecnológicos. Passam facas e
instruções para rangers-cortadores-de-sacos. Mas não conseguem manter o
nível da cultura tecnológica. São condenados, e sabem disto.
Terceira onda de colonização - os degs. Degeneratos. Aqueles que partiram em
transportes gigantes depois de nós. Liana diz que eles pegaram a mutação no
espaço ainda. Encontraram a Onda. E agora evoluem com sucesso em direção aos
macacos. Nossos queridos ancestrais biológicos. Odeiam os munts e exploram
os peladinhos. Entretanto, em breve alcançarão o nível de inteligência dos
mesmos.
Pergunta: por que praticamente qualquer mutação joga a humanidade para trás?
E se aparece alguma mutação útil, como telepatia, por exemplo, ela vem com
tamanho contra-peso que seria melhor que ela não existisse?
Pergunta número dois: onde nesta imagem do mundo tem lugar para mim?
Olho para a Liana. A menina está cansada. Mas agüenta bem. Todos eles, os
munts, agüentam bem. Orgulhosos. "Rato é um passaro orgulhoso. Até você
chutar se recusa a voar" - adorava dizer Nadezhda. Ela conhecia milhares de
besteiras semelhantes.
Atravesso um lugar aberto no topo da montanha e sento, descendo os pés no
abismo. Daqui dá para ter uma visão mágica. "Lá tem montanhas altas, lá tem
campos infinitos..." - Vulcãozinho adorava campos. E Estrelinha -
montanhas... Lá, embaixo, tem jardim de macieiras. Os colonistas da primeira
leva eram engraçados. Transformaram o planeta num jardim frutífero. Nenhuma
planta inútil - de acordo com ponto de vista do estômago. Inacreditável, mas
como será que um pinheiro virou planta que dá frutas? Provavelmente, foi
algum engano. Não é um planeta qualquer, é um paraíso para macacos. Será que
o verdadeiro motivo do nível intelectual é justamente esse?
Liana senta do meu lado.
- Você está pensando besteiras. A culpa é da Onda. Onda apenas.
- Trabalho transformou macaco em homem. Aqui não precisa trabalhar. Se
quiser comer - estica a mão, pega banana. Não tem predadores, nem perigos.
Vocês não conseguirão virar seres inteligentes novamente.
Silêncio.
- Eu nunca comi bananas. A mãe me dizia que elas crescem no equador.
Silêncio novamente.
- Minha casa está lá - e aponta a direção com pé. Eu olho para o perfil
dela. Muito jovem. Por volta de dezessete anos. Nariz erguido, cheio de
pintas, boca bonita. Porque ela chateou o ranger?
- Ele queria demais. Queria ficar comigo sempre, como os camponeses - diz
Liana.
- O que é que tem de ruim nisso?
- Você não entende. Ele me queria de verdade. Queria que eu desse à luz aos
filhos dele. Para que as mãos dele fossem para nós dois, queria fazer tudo
por mim...
"Quero fazer alguma coisa grande e limpa". "Lave um elefante" - lembro um
dos ditados da Nadezhda.
- Pela primeira vez vejo uma mulher que não quer casar. E o que você
conseguiu com isso? Deu um fora num cara legal, caiu nas mãos de canalhas
do vilarejo.
- Ele queria meus FILHOS - explica Liana quase chorando.
- Tem medo de dar à luz?
- Sim. Mas não é esse o problema. Eu daria dez filhos para ele. Mas sou
munt. Se eu tiver uma filha, ela não terá mãos. Ser for menino - nascerá
morto, ou tem que ser morto de acordo com a lei, entendeu? É difícil
controlar os genes ruins masculinos. E quem seria um ranger no lugar dele?
- Você explicou isso para ele?
- Você está louco?
- Todas as mulheres são bobas. Principalmente as inteligentes.
O que neste mundo pode fazer um portador de genes de elite? Virar um
transportador de sêmen? Andar pelos vilarejos e se procriar em nome do
Esquadrão da Vida?
- Você seria muito útil - afirma Liana seriamente.
A tecnocasa da Liana não parece a da Veda. Aquela está escondida nas rochas,
esta está bem na vista. Um castelo pequeno. Metade, entretanto, destruída
pela pedras que caíram da montanha. Ou está apenas coberta por elas. As
perdas caíram faz muito tempo - já tem grama sobre elas.
- Está muito escuro lá dentro - reclama Liana. Eu pego uma bateria solar,
abro e coloco na parede. Então ligo um cabo fino com uma ponta nela, e a
outra ponta numa lâmpada.
- Para onde tenho que ir?
Seguindo o cabo como a teia de Ariadna (*****), descemos no corredor escuro.
- Esta é a sala de controle - explica Liana. - Todas as máquinas são
controladas daqui. O gerador está no andar de baixo.
Descemos mais um andar. Embaixo do teto está parado um ciber com seis pernas
e quatro braços. Engano - tem apenas cinco pernas. Ele perdeu uma delas em
algum lugar.
- Minha mãe foi atingida por pedras nas montanhas. O Caramujinho foi
machucado pelas pedras. Ele protegeu minha mãe com o corpo dele.
- O que aconteceu com o gerador?
- Aqui aparece uma luz vermelha. Isso significa que não pode dar partida,
alguma coisa não está certa. Eu verifiquei tudo enquanto o Caramujinho
tinha bateria ainda.
- Tem um mapa do circuito em algum lugar?
- No computador - aponta para a parede onde tem uma tela enorme. Técnica
primitiva. Telas planas, não tem nem projetores holográficos. Tecnologia
decadente.
- Tem mapa no papel?
- Não. Não tem nem papel nem, esse.. esqueci o nome.. aquele que desenha,
não tem também não.
- Impressora?
- Talvez. Nem sei como isso se chama.
- Filho ..... ......!
Resumindo, tenho que arrumar spin-gerador de modelo desconhecido sem mapa do
circuito ou qualquer outra documentação. Para ligá-lo, entretanto,
precisamos de energia também.
- Teremos energia - afirma Liana. - Tudo está previsto. Aqui temos um
gerador de mão e bateria para a partida.
- Gerador de mão???
- Ele é chamado assim. Tem pedais. Você fica sentado, pedalando. Quando a
luz vermelha fica verde, pode ligar.
- Me mostra.
Um gerador de verdade mesmo. Parecido com um aparelho de exercícios. Banco
confortável com encosto e pedais. Do lado - um painel com medidores.
Voltímetro, amperímetro, carga da bateria. Gerador para aproximadamente um
quarto de quilowatt, se pedalar bem. Três horas de diversão - e podem fazer
uma tentativa de ligar o spin-gerador. Se não funcionar - mais três horas.
Imagino que duas tentativas por dia seja o meu limite. Depois disto eu
morro.
- Eu posso pedalar - diz Liana.
- Boa idéia - eu abro um armário com instrumentos humanos, tiro uma chave de
fenda e começo a tirar a tampa do painel de controle do gerador "de mão".
- O que você quer fazer?
- Achar alguma utilidade para você - já estou tirando a tampa do gabinete.
Graças a Deus, pelo menos o computador é padrão. Limpo as pontas dos
cabos, ligo o gerador com a bateria do computador através de um diodo,
arrancado da parte de alta voltagem do bloco de alimentação. Por precaução
ligo o voltímetro.
- Senta e começa a pedalar. Se o voltímetro mostrar mais de vinte volts,
arrancarei as suas pernas do seu traseiro.
Liana, mordendo o lábio de concentração, segue a ordem. Tem que girar os
pedais muito devagar. O ponteiro fica tentando o tempo todo ultrapassar o
valor limite.
- Para! - abro o mecanismo de pedalar e troco de lugar as peças. A grande e
a pequena. Agora é possível pedalar oito vezes mais rápido. O voltímetro
não ultrapassa o valor.
- Procura manter quinze volts.
Liana sorri para mim e começa a trabalhar. Por um tempo fico observando o
ponteiro, depois ligo o computador. O display na parede muda a cor para azul
escuro, número e símbolos de testes automáticos ficam passando nele.
Reclamando da vida, a fonte de alimentação e a corrente na rede elétrica, o
computador liga, após receber uma ordem minha de não ligar uma besteira como
essa, o sistema operacional. Atrás das minhas costas Liana dá um grito de
alegria. A tela fica branca, recupera a última sessão de trabalho e mostra
o esquema do spin-gerador. Interessante, aparentemente a menina não estava
chutando as ações dela na hora de tentar arrumar as coisas.
Por mais de três horas fico estudando o modelo. Este modelo foi lançado
depois da nossa partida da Terra. Nada de novo, apenas circuitos de
auto-diagnóstico foram adicionados e proteção contra idiotas. Para que
nenhum macaco pudesse se machucar.
- Você desligou as proteções?
- Como pode?
- Tudo é possível, se usar a cabeça.
Somente agora eu percebo que a lâmpada parou de iluminar. O sol se escondeu,
e a bateria solar não dá mais energia. A sala é iluminada pela luz do
computador. Liana está coberta de gotas de suor. Elas brilham como estrelas
pequenas no corpo dela.
- Chega. Continuaremos amanhã. Vamos dormir.
- E jantar?
- Sabe o que Maksim Gorki (******) dizia? "Sempre odiei pessoas que se
preocupavam demais em comer".
Assim que eu desligo o computador, escuridão completa cobre a sala. Encontro
a lâmpada em algumas tentativas, mudo para funcionar a partir da bateria e
ligo. A bateria está morta, a luz desaparece praticamente nos nossos olhos.
Mal dá tempo de subir e correr pelo corredor até a porta principal. O sol se
escondeu, mas o céu no oriente está brilhando com cor azul. Noite
maravilhosa. Alimento Liana com uma laranja, tiro o tecido dos pés dela e
mando entrar num rio frio que desce das montanhas. Limpo a coitada do suor e
depois a seco, enquanto ela treme de frio, com a minha camisa. Ela para de
tremer, mas os peitos dela se levantam e ela fica vermelha.
- Vá passear antes de dormir - direciono ela para a árvore mais próxima. Não
quero cozinhar nada, mas a menina ficou pedalando por três horas e está
morta de fome. Faço uma fogueira, limpo a Liana, lavo as mão e tiro o que
sobrou de carne da mochila. Cheira mal. Cheira mesmo. Não as mãos. A
carne.
- Você não tem medo de se envenenar?
- O quê? - levanta as sombrancelhas Liana, - A-a... Tenho sim. Mas quero
muito comer.
Esfria. Embrulho a Liana na minha jaqueta, faço um nó com as mangas como se
fosse uma camisa-de-força e começo a pensar.
Deixei a minha lata com Tobi. Munts não têm panela nem nada para cozinhar.
Mas temos a tampa do gerador. Faço uma tocha de alguns pedaços de madeira e
corro para a sala do gerador. No caminho de volta o fogo, obviamente, apaga.
Mas já consigo ver a o quadrado mais claro da porta. Jogo a tampa no fogo
para queimar a tinta. Nunca vi uma panela quadrada antes. Quadrada e sem
suporte para mão.
Quando a caixa começa a brilhar com cor vermelha, empurro ela com um pau
para o rio. Psshhhh. Limpo rapidamente o interior da panela com areia.
Pronto. Coloco carne para cozinhar. Não temos sal. Por que carne frita pode
ser comida sem sal sem problemas, e cozida não dá para engolir?
- Tem sal. No laboratório químico. Sal - é sódio e cloro, né?
- Exatamente, criança. Não vai confundir no escuro?
Liana fica chateada e cala-se.
Cozinho carne durante muito tempo. Coloco água adicional duas vezes na
panela. Considerando que a pressão atmosférica aqui é mais alta, a
temperatura de ferver a água deve ser maior também. Algo em torno de cento e
cinco graus.
- Não tem medo de veneno cozido?
Liana brilha com o sorriso dela. Com dois paus tiro a panela do fogo e
coloco na areia molhada. Engolindo a saliva, esperamos a sopa esfriar.
Depois alimento a Liana e não esqueço de mim também. A sopa ficou muito boa,
e o gosto de tinta queimada serve como substituto para o sal. Ou talvez a
fome substitui.
De qualquer jeito, comemos três litros de sopa e um quilo e meio de carne
nós dois. E continuamos com fome. Comemos as laranjas. O gosto delas depois
da sopa sem sal é fantástico.
- Vamos dormir no observatório - afirma Liana. - É a segunda porta a partir
da entrada.
Boa idéia. Encontro a segunda porta depois de algumas tentativas, coloco
tecido no chão, embrulho a Liana e durmo instantaneamente.
Sonho com a Estrelinha. Mesmo dormindo eu lembro que ela não está mais aqui.
Acordo com o meu próprio choro através dos dentes grudados. Do lado está
chorando Liana. Aparentemente, telepatia não tem somente lados positivos.
- Esqueça e dorme. São problemas meus. Você não tem nada a ver com isso.
- Bobo... não tenho nada a ver, você que pensa - fica chorando Liana. -
Antes você era bom, e agora é mal.
- Dorme.
Desligo os circuitos de segurança um atrás o outro. Liana fica pedalando,
carregando a bateria de partida. O computador está trabalhando a partir do
bloco de baterias solares, colocado para fora da casa. A luz vermelha se
apaga quando desligo o cabo de controle remoto. Como estou vendo, o problema
era trivial. Problema com o cabo. Liana simplesmente não tem experiência em
conserto de equipamentos sofisticados.
Ligo de volta tudo, menos o cabo do controle remoto e, enquanto a bateria
não carrega toda a energia necessária, vou verificar o cabo. Logo encontro o
local danificado. Devido à movimentação da terra embaixo da casa, painéis de
concreto se mexeram e esmagaram o cabo. Abro o cabo, estudo o lugar
danificado e ligo os fios. Fecho a abertura com plástico. O cabo se torna
mais grosso. Feio. Muito feio, mas funciona.
A bateria já está carregada, mas Liana continua pedalando. Com um movimento
preguiçoso aperto o botão de partida. O painel indicador se torna vivo, os
ouvidos doem por um momento devido a um zumbido quase inaudível. Cinco
segundos depois o gerador entra em modo de operação normal e temos luz na
sala. Liana grita de alegria, e depois começa a chorar. Fica rindo e
chorando ao mesmo tempo. Chora e ri. Aperto o trigger, desligo o gerador e
coloco todas as tampas no lugar. Liana liga o cabo de carga no ciber com os
pés com uma facilidade incrível e, quando ele revive, se agacha, começa a
falar um monte de besteira, abaixa as lentes dele e encosta a cara no ferro
cheio de poeira.
- Plantação!
- Plantação o quê?
Mas ela não está mais aqui. Saiu correndo. Ciber a seguiu. Vou atrás.
A seção de plantação está no mesmo estado deprimente que o da Veda. Apenas
um reservatório transparente com clorella está em perfeito estado. Na
verdade, lá tem uma alga diferente. Mas o nome permaneceu desde os primeiros
experimentos e virou nome de todas as algas.
Liana fica sentada na frente do painel de controle. No chão na frente dela
está o teclado. A menina fica digitando os comandos com os dedões dos pés.
Ciber num canto encostou numa tomada e continua carregando a bateria dele.
Eu fico olhando nos gráficos no painel. A plantação estava funcionando no
estado de conservação e agora Liana está mudando para o modo de
funcionamento normal.
- Ela não foi desligada?
- Aqui tem alimentação própria. A bateria agüenta três meses de
funcionamento.
- E você não me disse?! A gente ficou sofrendo, pedalando, e tinha energia
aqui?!
Liana olhou para mim com se estivesse louco.
- É a plantação!
- E daí?
- É sagrado. Se a clorella morrer, a casa termina. Ninguém poderá viver
aqui, mesmo se o resto estiver funcionando.
Devagar, mas eu começo a entender que a plantação aqui é tão importante
quanto o ar numa nave espacial. Sem ela - morte. De fome. Está cheio de
jardins com frutas em volta, mas não para os munts. Quantas maçãs é possível
pegar das árvores com a boca?
- Exatamente - confirma Liana. – Minha mãe me dizia que é que nem no
oceano. Está cheio de água em volta, mas não pode beber. As pessoas morrem
de sede. É assim mesmo?
- Sim.
- Eu nunca vi o oceano. Veda me contava, mas não é a mesma coisa. A água é
salgada mesmo?
- A água é amarga, não salgada.
Levanto a tampa e pego a camada superior da bio-massa. As slgas já começaram
a apodrecer, e não é bom contaminar o sintetizador com produtos não
comestíveis. Liana, alegre, fica dando dicas, levanta nos dedos dos pés e
até fica pulando de agitação. Até o Caramujinho, pelo que parece, fica meio
que dançando sobre os cinco pés dele.
- Finalmente comeremos comida de gente!
Fico olhando com cara de dúvida para a geléia verde que fica saindo do
sintetizador.
- Você não entende nada de comida - me explica Liana, brilhando de alegria.
- Isso é comida de verdade das pessoas civilizadas. Aqueles pedaços de
carne, duros como uma árvore, que você usava para me alimentar - é o
começo da civilização. Barbaridade! Matar animais para comer - não
consigo nem pensar nisso! Até a minha morte não vou esquecer que comi
carne crua.
- Quando que você comeu carne crua?
- No primeiro dia. Foi você que me alimentou. Por que, por acaso não estava
crua? Mesmo assim foi horrível! Só com muita fome para comer aquilo!
Não posso não concordar com essa afirmação, e Liana fica sorrindo com cara
de vencedora.
No dia seguinte me dou ao luxo de permanecer na cama até o meio-dia. Ainda
mais porque o tempo lá fora ajuda. Escuro e chovendo. Até parece que estou
escutando as pedras batendo nos vidros. Se bem que o vidro daqui é blindado.
Facilmente segurará aquelas pedras que destruíram o lado oposto da casa.
Sensação estranha. Não tenho pressa para nada. Antes da aterrissagem
trabalhava como Papai Carlo (*******). Depois de aterrissar não fiquei um
dia em paz. Andando, me apressando... E agora ninguém precisa mais de mim.
Droga! Ninguém precisa mesmo de mim. Os lobos estão alimentados, as ovelhas
estão intactas e glória eterna para o pastor... Este mundo tem os problemas
dele.
Levanto, lavo o rosto rapidamente, fico pulando pelo quarto, aquecendo os
músculos com exercícios de arte marcial e vou à procura da Liana.
Encontro ela na sala técnica.
- D, d, d, e, e. Segura! N, n, n, l, l, n. Esquerdo! D, d, e, segura! -
escuto uma seqüência de comandos. Em cima da mesa está um mecanismo
semi-desmontado. Liana com voz e pés está controlando quatro manipuladores
de uma vez só. Os dedos dos pés estão encaixados nas luvas sensoriais - ou
melhor, senso-sapatilhas; e com muita facilidade está controlando dois
manipuladores que lembram mãos de aço com cinco dedos. Outros dois
manipuladores, que seguram chaves de fenda, são controlados por voz.
- Oi. Que você tem por aqui?
Liana responde com um sorriso brilhante.
- Bom dia, dorminhoco! Não consigo tirar o parafuso esquerdo de jeito
nenhum. Enferrujou.
- Me deixa tentar - jogo querosene sobre o parafuso, coloco a chave e viro
bruscamente. - Pronto.
- Ignat, toda a comunidade agradece a você pela salvação minha e da
tecnocasa
- diz Liana emocionadamente. - Na rede só se fala sobre você!
- De onde todo mundo me conhece?
- Da Veda. Eu entrei na rede de manhã - só tem alegria! Recebi tantos
parabéns! Todo mundo está te agradecendo! E estão agradecendo a Veda
também! Eu não te disse que ela pode tudo? Só basta querer.
Veda pode tudo... Pensamento engraçado. E eu estou me tornando popular neste
mundo. Para que isso para mim?
- Veda disse alguma coisa sobre mim?
Liana fica vermelha.
- Disse para eu não ter medo de você.
- Entendo. Descansa por uns trinta minutos, vai faltar luz por um tempo. Vou
arrumar a sala do gerador.
Fico arrumando a sala do gerador. Coloca as tampas do gerador nos lugares
devidos, conserto a fonte de alimentação do computador e começo a manutenção
regular dos equipamentos da tecnocasa. O log dos erros é tão grande que nem
li inteiro. Mandei o computador organizar os problemas de acordo com a
prioridade e comecei com o primeiro da lista. Na nave durante cinco anos
biológicos fiquei consertando as coisas, por isso já conheço o trabalho. Os
equipamentos são um pouco diferentes. E bem abandonados. Já fazia uns
duzentos anos que não tinha manutenção por ali. Mas manutenção continua
sendo manutenção em qualquer lugar, até na África.
Liana não desgruda de mim, com boca aberta fica olhando as minhas mãos e
fazendo milhares de perguntas. Eu nunca tive um aprendiz tão prestativo. Eu
não a respondo falando. Ela lê a resposta nos meus pensamentos. Não sei como
ela as entende, mas aparentemente, ela entende.
O tempo todo sinto falta de peças para substituição. Não tem quase nada na
sala dos técnicos. Liana não sabe onde arrumar peças. Pergunto para o
computador.
- No depósito - responde ele.
- O depósito está naquele canto - explica Liana.
- Que canto?
- Aquele canto que as pedras destruíram. Não há como chegar lá.
Coloco na tela um modelo tridimensional da tecnocasa, depois levanto a torre
superior e fico observando o estado atual. A parte oposta realmente foi
obstruída significativamente. Mas as paredes aqui são resistentes. Tenho
quase certeza que elas agüentaram. Mas tentar abrir a entrada - isso
demoraria anos.
- A queda das pedras aconteceu nos tempos da minha avó - conta Liana. – Eu
nem tinha nascido ainda naquela época. E minha mãe era muito nova também.
Mais nova do que eu agora.
- Você entende que sem o depósito não conseguiremos consertar tudo por aqui?
- Sim - fica triste ela.
- Pensa como entrar lá.
- Não tem jeito... A avó ficou pensando, a mãe também. Não tem como entrar
lá.
Fico estudando a planta novamente no computador.
- Tudo bem. A parede da frente e o portão foi obstruído. E a parede de trás?
- A avó tentou.
- E?
- "E" o que? O que você está pensando agora? Como entrar no depósito? Não
está claro o que aconteceu? É necessário bater nesta parede durante um ano
inteiro. E a avó tinha um Caramujinho apenas. Ele deve ser cuidado.
Desço para baixo e fico seguindo a planta com o dedo.
- Que túnel é esse?
- Túnel de cabos.
- E esta caixa?
- Ventilação.
- Se fizer um buraco aqui, eu posso entrar no túnel na ventilação?
- E daí? Você só poderá se arrastar por lá. E não dá para virar. O
Caramujinho não vai entrar lá.
- Eu entrarei lá.
- Não sairá depois. É suicídio na certa.
Em algumas coisas a Liana tem razão. Para munt é um suicídio certo. Se
arrastar como um verme por oitenta metros num túnel, e tem grade lá... Como
vou tirar? Com os dentes? Depois - seis metros para baixo. O depósito tem
paredes altas...
Por um bom tempo fico batendo nas paredes do túnel dos cabos. Depois alguns
golpes com machado - e o caminho até o túnel de ventilação está aberto. Pego
as ferramentas, coloco uma faixa na cabeça com a melhor lâmpada que consegui
encontrar e entro na ventilação. Só tem lugar para se arrastar aqui,
arrastar para frente. Para voltar vai ser muito complicado. Liana fica
chorando atrás de mim. Ela merece levar uns tapas qualquer hora...
Depois da primeira curva já fico sem alguns instrumentos. Eu consigo fazer a
curva, mas eles não.
- Espero que você seja a maior das minhas perdas - canto um soneto de
Shakespeare para mim, pensando se vou conseguir fazer esta curva para
voltar. Duvido... Conto três desvios para a direita, após o quarto quebro
a grade de ventilação e ilumino a sala com a luz da lâmpada. É alguma
espécie de garagem. Cinco metros até o chão. Prendo uma corda na borda do
túnel de ventilação e desço para baixo. Clico no interruptor na parede.
Surpreendentemente, a luz acende. Parece que os cabos de força ainda
funcionam. Sorte. "Somos sortudos" - dizia Bonus. Enquanto estava vivo.
Por um bom tempo fico andando pela garagem. Aqui tem de TUDO. Duas gerações
de munts economizaram tudo, tinham medo de jogar fora um pedaço de plástico,
pedaço de metal, parafuso enferrujado. E atrás da parede - tudo o que você
poderia imaginar...
...Abro a saída de um tanque de oxigênio. O fogo muda de amarelo para azul.
De acordo com o manual, mais de dois mil graus. Abaixo a proteção do colete
protetor e ligo o encaixe elétrico. As luzes do teto ficam visivelmente mais
escuras, mas a temperatura sobe para cinco mil graus. Quase que nem o sol.
Lá a temperatura é de seis mil.
O concreto se derrete sob o fogo como um pedaço de gelo sob água fervente.
Mas logo eu preciso desligar o fogo. Senão me queimarei vivo. Mesmo com o
colete protetor. Ou os tanques de gás explodirão. Por precaução afasto eles.
Eu fiz na parede um buraco com a profundidade de um braço. Aproximadamente
setenta centímetros. Quanto falta? Na lua as paredes são de dois metros de
espessura. Na Terra eu vi com os meus próprios olhos um pedaço da parede de
um castelo com mais de três metros de espessura. Não tenho oxigênio para
três metros.
O ar volta a ser refrescante, a cratera e o concreto líquido no chão não
brilham mais de calor. Ligo o fogo de novo. Agora eu faço um buraco pequeno.
Novo problema - concreto evapora e fica jogando gotas derretidas. "Se o seu
spin-gerador está com defeito, se afaste para não sujar o terno com metal
derretido". Você pensou que isso era apenas uma brincadeira, Vulcãozinho?
Eu também pensei.
Sucesso! A espessura da parede é de aproximadamente um metro. Falta fazer
uma espécie de porta bonitinha. Isso nós podemos. Para isso três tanques é
mais do que suficiente.
O concreto ainda está quente, por isso seguro a Liana nas mão e levo para
dentro. O Caramujinho se confunde por um segundo, analisa com olho
infra-vermelho a parte quente do chão. Mas a dona está se afastando. Se
decidindo, ele corre atrás dela com determinação. Enquanto Liana, abalada,
fica andando entre as estantes, eu coloco na sacola, presa no cotovelo, as
partes que preciso. Tem mesmo de tudo por aqui.
- Liana! Estou indo!
Silêncio.
- Liana!!
Não posso fazer nada. Vou à procura dela. Liana está ajoelhada na frente de
uma fileira de companheiros dos munts - cibers com seis pés parados como
numa parada. Ela é bem bonita olhando pelas costas. Ultrapasso ela e agacho
na sua frente.
- Então? O que aconteceu?
A cara dela lembra uma máscara. Somente lágrimas estão escorrendo pela cara
e ficam caindo sobre o concreto.
- O que aconteceu?
A cara se contorce.
- A-a-a-vuu-u! - Não há nada de humano neste grito. Seguro ela pelas mãos e
vou correndo até o setor médico. E apenas no caminho eu entendo que é
apenas mais uma histeria.
- Eles são muitos! Muitos! Você entende, eles são muitos! Mãe, mãezinha, me
perdoa!
Coloco ela na cama, cubro com um cobertor, faço engolir uma cápsula com
tranqüilizante. A cara da menina volta a ser uma máscara.
- Você viu, eles são muitos...
- Eles quem?
- Caramujinhos.
- No mínimo uma dúzia.
Liana fica deitada nas costas como uma morta, apenas lágrimas continuam
escorrendo dos olhos, ficam escorrendo sobre as orelhas e caem no
travesseiro. Procuro na caixinha de pronto socorro e faço uma injeção nela
para deixar dormindo. Espero ela dormir.
- Caramujinho, me segue.
O ciber fica se mexendo indeciso, sem sair do lugar, mas não segue a ordem.
Seguro o manipulador dele e vou arrastando como uma criança. Agora ele não
se atreve a resistir mais. Por algum motivo eu sei: se eu o soltar, ele
correrá até a dona. Por isso, assim que chego no depósito, eu abro o painel
de controle dele e desligo a parte responsável pelos movimentos dele. Inicio
o processo de carregamento da bateria de dois irmãos dele. E, para
economizar tempo, inicio o procedimento padrão de verificação técnica em
ambos. Enquanto os cibers ficam testando os servo-motores parados há um bom
tempo e ficam mexendo os manipuladores, vou para o ar livre.
A grama daqui é muito linda, cor de esmeralda...
Minha tarefa para as próximas duas semanas está decidida. Manutenção.
Manutenção como sempre, como na nave. Arrumo a tecnocasa. E depois? Me torno
um ranger? Fico estragando as meninas, cortando os sacos dos homens? Para
quê? Para cumprir o que eu prometi para a Estrelinha? Homens não entravam
nessa promessa.
Boa pergunta – por quê? Devia começar com isso. Eu sei porque os rangers
ficam castrando os humanos, companheiros do planeta deles? O que eu sei
sobre este planeta afinal? Antes de tudo, tenho que entender a situação. Se
existem tecnocasas devem existir as pessoas que as construíram. Cidades,
usinas - deve ter de tudo. É possível fabricar um ciber num laboratório. Mas
aqui há dezenas deles. Idênticos. A Veda tem um que é igual também. Existe
alguma usina em algum lugar por aqui. E no mínimo um vilarejo de
engenheiros, pessoas inteligentes e bem conceituadas.
Danem-se os bárbaros selvagens, eu vou procurar a civilização.
Volto para o depósito. Meus cibers estão consertando uns aos outros. Muito
bem, rapazes. Espero eles terminarem e copio a experiência da vida do
Caramujinho para os outros. Coloco um dos novos para ser conservado
novamente. Penso um pouco, tiro o capacete riscado do Caramujinho e coloco
em um dos novos. Liana obviamente não vai querer se separar do manco ciber
dela. Vou falar que arrumei.
Droga! Ela é telepata... Bem, é problema dela. O que foi feito foi feito.
Coloco o Caramujinho para ser conservado e mando o novinho para a menina.
- Ignat, me perdoa. Isso não acontecerá novamente, te dou a minha palavra.
Eu tenho vergonha daquilo que aconteceu.
- Esqueça.
- Não. Tenho que explicar... Você está com a impressão errada de mim. Eu
tenho que explicar... É tão importante - aquilo que você fez. E você deve
saber, o quanto canalha eu fui e como era a minha mãe - Liana estava
falando extremamente calmamente. Calma demais. Ela estava à beira de um
ataque.
- Chore os seus problemas. Mas não espere compaixão nenhuma. Ok?
- Eu não quero compaixão sua. Só tenta entender. Não é por mim, é por minha
mãe. Pela memória dela. Ela se chamava Corina. Sobrou apenas um
Caramujinho para ela da avó. E quando eu nasci, ele ficou compartilhado
entre nós. Entende? Nós sempre precisávamos estar juntas. Até os treze
anos tudo correu bem, mas depois... Depois eu quis liberdade. Eu sabia que
mais cedo ou tarde o Caramujinho se tornaria meu. E eu fiquei com ciúme do
Caramujinho e da minha mãe. E me amaldiçoava, mas não podia fazer nada. Se
no lugar da mãe fosse o Tobi, tudo daria certo. Mas eu e a minha mãe somos
telepatas... Ela sabia tudo. No começo eu tentei escapar para as montanhas
com o Tobi. Mas ele... Ele queria colocar sêmen em mim. Então minha mãe me
entupiu de estudos. Durante todos os dias ela me mandava estudar tudo o
que tinha na tecnocasa. Todos os equipamentos, todos os mecanismos - até o
último parafuso. Minha mãe não sabia muito da parte elétrica. Ela não
entendia tudo, mas ficava na frente do computador todas as noites, e
depois me explicava. Dois anos de estudo constante - você consegue
imaginar isso?
- Consigo. Eu tive cinco anos.
- Minha mãe tentava me educar sobre tudo o que ela conhecia, e quando ela
achou que ensinou tudo... Você já foi até o rio?
- Ainda não.
- Tem uma praia de areia lá. Minha mãe a chamava da praia de ouro. Ela
gostava de nadar lá. E eu acabei não aprendendo a nadar. Ela sempre queria
descobrir aonde que o rio levava. E quando ela achou que eu já tinha
decorado tudo o que ela sabia... A gente tinha apenas um Caramujinho para
nós duas. Mamãe entrou no rio e nadou na correnteza. E o Caramujinho
passou a ser meu. Você entende, ela fez isso somente para que eu tivesse
o meu próprio Caramujinho. Ela tinha acabado de fazer trinta e cinco anos.
E tem muitos caramujinhos no depósito. Eles estão enfileirados na parede.
Quando eu vi...
- Entendo.
Valeu a pena ficar pulando como uma pulga pela galáxia durante quinhentos
anos para achar este planeta de merda... - eu não pronunciei isso. Mas Liana
escutou. Telepata.
- Você não entendeu TUDO. Minha filha terá um Caramujinho DELA. Desde o
começo dela. Poderemos viver juntas por muito-muito tempo. Graças a você.
"Eles viveram felizes, e depois por muito-muito tempo" - gostava de falar
Vulcãozinho.
Arrumei o sintetizador de comida. Só não consegui arrumar o bloco de
corantes. Carne violeta, ou carne de cor verde clara não atraía muito pela
aparência. Vulcãozinho sempre dizia que pintor e eu são coisas
incompatíveis. E Bonus sempre gritava que “esta idéia é genial”. E
Estrelinha ficava brava com eles e falava que não entendiam nada de música,
não sabiam diferenciar ré-bemol do dó-sustenido. Por isso eu desencanei do
bloco de corantes e deixei tudo do jeito que estava. Lingüiça, hambúrguer,
carne de panela e carne frita saem brilhando com todas as tonalidades de
verde, do verde escuro de pântano até cor de esmeralda. Não consegui
programar o Caramujinho para usar faca e garfo e por isso acabo tendo que
sempre contar a carne em pedaços minúsculos antes de comer. Para Liana e
para mim.
A garota também começou a trabalhar. Limpa todas as salas, pintas as paredes
com cores brilhantes. Ela economizava a tinta, plástico, bateria do
Caramujinho antes e agora parece estar chocada pelo excesso de tudo. Fica
voando pela casa alegre, determinada, suja de poeira e tinta. Como é
possível se sujar desta maneira sem mãos, eu não entendo. O Caramujinho a
segue como uma sombra. Sujo da mesma maneira. Ora com aspirador de pó, ora
com jogador de tinta automático.
O arquivo de log dos equipamentos a serem consertados se torna cada vez mais
curto. Que nem na nave - saio da anabiose, três ou quatro semanas de
trabalho infernal, me sujo até os ouvidos de sujeira e óleo, uma semana de
descanso - e anabiose de novo. Dez anos perdidos. Um ano biológico para cem
anos reais.
Manutenção... Manutenção apenas. Será que é tão difícil imaginar que estou
na nave? Fico verificando o sistema elétrico. Estrelinha fica verificando os
sistemas de anabiose. Posso chamá-la quando quiser. Ela perguntará se não
tem problema das mãos dela estarem sujas.
Manutenção de equipamentos elétricos - uma bolsa aberta com testador
universal, mãos sujos de poeira até os joelhos. Tiro o testador elétrico,
sopro a poeira, limpo os contatos, coloco no encaixe do testador. Noventa
por cento de todos os problemas: um mau-contato. Tirou e recolocou e tudo
funciona.
Conserto de mecanismos - mãos sujas até os cotovelos de óleo.
Manutenção... Quantas eu fiz nos quinhentos anos de vôo... Ou durante cinco
anos biológicos... Manutenção, semana de descanso, dez anos de anabiose.
Manutenção, descanso, anabiose. Ou despertar de emergência - isso quando o
nível da Onda estava subindo. Nesse caso - pressa. Manutenção apenas das
coisas mais necessárias, escolha da direção do salto espacial, lançamento de
sondas-escaneadoras... Quando as sondas acabaram, nós pulávamos cegamente.
No chute. Às vezes quatro, ou até cinco vezes, até encontrar espaço calmo.
Mas a Onda naquele tempo já estava diminuindo.
É apenas manutenção de rotina - tento eu me convencer. À noite voltarei pra
minha cabine. Pra nossa cabine. A Estrelinha chegará, sorrirá para mim
cansada e tudo estará bem. É uma manutenção de rotina qualquer. Mãos sujas
de óleo, mãos sujas de poeira... Vazamento de líquido hidráulico,
amortecedor estourado, contato oxidado. Tela verde do testador: "Contato
intacto", "Contato desconhecido", amortecedores, pneumática, óleo estragado,
parafusos arrebentados, dedos sujos de sangue... Manutenção qualquer. Em
algum lugar atrás da parede está trabalhando o Bonus. E as meninas estão
recuperando os sistemas de manutenção da vida.
Será que é tão difícil imaginar isso?
Acordo porque alguém entra na minha cama.
- Estrel...
- Sou eu, Liana.
Liana. É claro. Quem mais podia ser? Estrelinha morreu. Morreu faz tempo.
Ainda lá, no espaço. Meu Deus, por que, por que ela e não eu?
- Ignat, eu quero substituir a Estrelinha para você. Eu serei igual a ela.
É só você pensar que eu faço de tudo. Eu vou me empenhar muito. E você
poderá colocar seu sêmen em mim, da mesma maneira que você fazia com ela.
Sempre-sempre, quando você quiser.
- Minha época de acasalamento se passou - digo eu indiferentemente. É fácil
lidar com telepatas. Não é necessário mentir. Posso continuar sendo eu
mesmo. O importante é não tentar se passar por algum outro. E para isso,
antes de tudo, a alma deve morrer. É só deixar a alma morrer que você está
pronto para passar para o próximo nível da evolução. Engraçado, não é?
- Doutor, eu sou um filho da puta bem grande, e você sabe disto - falava eu
para o psicólogo antes da decolagem. - Mas me responde sinceramente. Será
que na Terra inteira não tinha nenhum candidato melhor?
- Você tem uma saúde boa e genes ideais. E ser filho da puta durante o vôo
você não poderá - simplesmente não terá com quem ser - respondeu ele. - A
equipe foi selecionada levando em consideração as suas frescuras. A
compatibilidade psicológica é muito alta. Quando vocês começarem a se
procriar, a sua tribo precisará de um líder. Tribo na idade das pedras
precisa de um líder. Você se encaixa bem para este papel. Por isso vá com
Ceus. Ou com o diabo - a escolha é sua. Seja você mesmo e não fique
entupindo a cabeça de besteiras.
O doutor não acreditava que a gente conseguiria manter o nível civilizado.
Eu também não estava nem aí com isso. Isso é problema dos descendentes.
Posso considerar os munts descendentes? Tenho que ir para cidade. Tenho que
ir para cidade, para procurar respostas...
- Você tem um coração morto, alma gelada, mas mãos boas e grandes. Não me
deixa, por favor - implora Liana.
"Você tem um coração bom e grande" - disse uma vez a Estrelinha. "Eu sei. Eu
o segurei nas mãos".
Ela segurou o meu coração nas suas mão mesmo. Naquela vez eu devia ser o
primeiro a sair da anabiose, mas alguma coisa falhou. Não conseguindo me
acordar, o computador começou a acordar o próximo. As meninas conseguiram
tempo para me trazer de volta para este mundo. Naquela época o regenerador
biológico ainda funcionava. Não tenho nem cicatrizes no peito. Setenta anos
depois - sete manutenções depois - o regenerador parou de funcionar para
sempre.
- Você quer sair daqui. Não vá, por favor. Ah, não falei a coisa certa. Não
me escute, esqueça. Vá, se você acha necessário, mas volta, pode ser? Eu
vou esperar você. Vou esperar para sempre-sempre. Eu quero que você
coloque sêmen em mim. Só em mim. Mas, se você quiser as peladinhas também,
não terei nada contra. Nada nada contra, eu prometo. Ignat, não fica bravo
comigo, mas não dá para viver no passado o tempo todo.
- Você pelo menos conhece estas palavras - amor e sexo?
Liana fica escutando os meus pensamentos por um bom tempo.
- Agora sim. Eu amo você.
- Dorme.
- Você voltará?
Fecho a mochila, verifico a carga do stunner.
- Não sei.
- Posso pedir uma coisa? Não para mim, para a Veda.
- Diga.
- Tem muito poucos rangers no nosso setor. Tem que educar novos. Traz um
menino dos degs para a Veda. Mas no máximo com cinco anos.
- Onde vou achar ele?
- Na vila.
- Quem dará um menino para mim?
- Sequestra... Ignat, para de ficar triste. Meu Deus, não seja um idealista
tão tímido! Você não é o Tobi. Praticamente todos os rangers foram criados
a partir de crianças roubadas. Pessoas como o Tobi são exceções.
Tem que matar por isso - pensei eu, mas a Liana escutou.
- Por que você fica como uma criança assim? Sim, nóss roubamos crianças e
fazemos rangers deles. Eu também não gosto disto, e daí? Temos que salvar
a humanidade como uma espécie. A gente daria à luz para todos os rangers,
se pudéssemos.
- Você acha que isso é uma desculpa?
- Eu não acho nada. Aqui tudo é simples, como dois mais dois. Mais uns
duzentos anos se passarão e não sobrará nenhuma tecnocasa por aqui. Nós,
munts, seremos extintos. Crianças virarão salvagens de verdade, esquecerão
a língua. Peladinhos já são salvagens. Os únicos humanos serão os
descendentes dos rangers. Para isso que nós, munts, vivemos, para isto o
mundo está girando. Se você conhece alguma saída melhor, diga. Nós não
sabemos.
Mal andei uns dez quilômetros e o Tobi apareceu de algum lugar.
- Estou tão feliz que você ajudou a Liana. Eu não conseguiria. Corina tentou
me ensinar a mexer com os equipamentos, mas não consegui entender nada.
- Como você ficou sabendo que arrumei o gerador?
- Eu vi luz nas janelas. Estive aqui por perto. Vai que vocês precisavam da
minha ajuda?
Logo o vazio costumeiro voltou a dominar a minha mente. Tobi falava sem
parar. Mas agora eu precisava pensar nos meus planos. Ele não deixava eu me
concentrar.
Eu parei de repente e o ranger quase caiu, tropeçando em mim.
- Tobi, você ama a Liana?
- Amar - que palavra é essa? Eu não o entendo. Você o diz de forma errada.
Eu amo as ameixas. Não dá para falar assim sobre as pessoas.
- Mas você queria colocar sêmen nela?
- Sim-sim! Mas não que nem com as peladinhas. Para que ela também... Para
que eu e ela. E nós dois... Mas ela não quer...
- Vá - toma ela. Se ela não quiser - toma à força. Ela vai te perdoar. Ela
te quer, mas ela não entende isso. Mas lembre-se do mais importante: nunca
tenha pena de munt. Entende? Eles odeiam quando alguém tem pena deles. E
não espere ter filhos com a Liana.
- Eu sei. Veda me falou. A gente teria uma filha sem mão. Eu não sabia
antes, mas depois a Veda me contou. Mas e se a Liana não quiser?
- Seja um ranger, droga! Tudo dará certo entre vocês dois, acredite em mim.
No começo ela ficará brava, mas depois te perdoará por tudo. Vá até ela.
Eu estava parado, olhando enquanto o Tobi, olhando às vezes para trás com
incerteza, ia em direção à tecnocasa.
- E nunca tenha pena dela, escutou?!
Ele me alcançou dez dias depois. Limpo, com cabelo arrumado, com barba
cortada. E andou junto, silencioso.
- Tudo certo? - perguntei eu.
- A casa ficou tão nova! Paredes limpas, brilhantes, alegres. Eu nunca tinha
visto ela assim - respondeu Tobi deprimido. - Liana disse que será assim
para sempre agora.
- O que aconteceu entre vocês?
- Com a gente está tudo bem. Ela me obedeceu. Agora eu sempre posso ir na
casa dela e colocar sêmen nela. Ela até disse assim: "Minhas portas estão
sempre abertas para você". Mas... Ignat, isso não foi certo. Ela amava
você e agora ela te odeia. Você não devia ter deixado a tecnocasa. E você
não devia ter me enviado. Ela disse que não me ama, mas obedecerá. Se eu
tivesse chegado antes dela começar a amar você... E agora ela te odeia.
Isso não está certo. Você a ajudou e, em troca de ajuda, legou um pedaço
da alma dela. Isso é mal. Você tinha que ajudar de uma maneira que não
doesse nada depois, é o que eu penso.
- Você me alcançou só para falar isso?
- Não. A Liana pediu para eu te mostrar o caminho até a cidade. E para
transmitir que ela te odeia.
- Ama - odeia... Tudo isso é besteira. Agora ela vai te amar.
- Não. Ela tem amizade comigo. Ela amava você.
Eu xinguei. Em voz alta.
Durante quatro dias Tobi andou do meu lado quieto. Tobi quieto - Eu ficava
um pouco mal por isso. Ele fecha a cara e fica pensando. Olha para mim com
rabo de olho. No quinto dia ele explodiu.
- Você é uma pessoa sem graça, Ignat. Anda e fica olhando apenas embaixo dos
pés. Olha só como é bonito em volta! E você anda, se apressa. E eu vou com
você. Também me tornarei sem graça. Me diga, para onde você está indo?
- Para a cidade.
- E para que você está indo para a cidade?
- Você não entenderá...
Tobi se chateou, abaixou a cara e ficou quieto.
- Eu entendo que não posso entender tudo. Mas Corina nunca me falava que eu
não ia entender - disse ele uma hora depois. - Ela falava...
- Não vejo sentido nisso. Você nasceu aqui, o seu olho já está acostumado.
Você não enxerga nada de estranho. E eu, com olhar novo, quero entender.
- Pergunta para a Fiesta. Ela é a mais inteligente, ela sabe tudo. E mora
perto da cidade. Vamos para a Fiesta.
- Primeiro pra cidade.
- Você sempre é assim. Como um munt - se fixa em alguma coisa que você pensa
e não desiste de jeito nenhum! Todos os munts são tão ocupados que não
enxergam a beleza. Todos fazem alguma coisa, ficam chorando... E querem
que todos fiquem assim. Olham um peladinho - quase choram porque eles
ficam vivendo por si mesmos. Eles sempre precisam que ele faça alguma
coisa. Não entendo isso.
- O trabalho transformou macaco em humano.
"Para o transformar num cavalo depois" - completaria Bonus.
- Eles querem que as mãos deles cresçam novamente?
Eu não respondi. Tobi fechou a cara novamente.
- E você, viu macacos? - não resistiu ele um minuto depois. - Fiesta diz que
daqui a pouco nós nos tornaremos macacos novamente. E nunca vi. Vi
peladinhos, vi degs, mas não vi macacos. Munts dizem que não tem nenhum
macaco no planeta. E se eles não existem, como a Fiesta sabe deles? Onde
ela encontrou as fotografias deles, se eles não estão por aqui? Vamos até
ela e você pergunta. E depois explica para mim. Por que estamos
andando-andando até a cidade? Não tem nada lá. Nem degs, nem peladinhos.
O que eu vou fazer lá? Sou um ranger, tenho trabalho a fazer.
- Vamos até a Fiesta - concordei.
Pacote informativo 4
Motor gravitacional de salto não fere muitas leis da mecânica clássica. Dois
corpos no espaço estavam longe um do outro e de repente ficaram mais perto.
Para isso, é necessária energia. Muita energia. A nave anda alguns anos-luz,
A estrela anda alguns metros. As coordenadas dos centros de massa do sistema
e os vetores de velocidades permanecem inalterados. Até a invenção dos
spin-geradores existiam poucas naves gravi-saltantes, as naves eram enormes
e cada vôo um evento acompanhado pelo mundo inteiro. Spin-geradores foram
inventados depois do descobrimento da Onda. A comunicação gravitacional
também foi inventada depois.
Durante muito tempo consideraram a hipótese de criação artificial dos
aglomerados das estrelas na galáxia. Será que transportes contínuos dentro
de uma civilização estelar fazem as estrelas se aproximarem? Ainda não
existem provas nem a favor, nem contra esta teoria. A Onda foi descoberta no
auge dos projetos de buscas de civilizações alienígenas. Centenas de
expedições eram projetadas.
Tudo isso está no passado. Dificilmente estaremos preocupados com problemas
das civilizações que se foram durante o próximo milênio após a Onda.
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A pista de decolagem foi feita com capricho. A partir de rochas derretidas.
Para falar a verdade, em alguns lugares as rochas trincaram, mas uma equipe
de manutenção conseguiria arrumar todos os defeitos em um par de dias.
Ninguém usou a pista durante os últimos cem anos aproximadamente. Vento
jogou poeira, na poeira cresceu grama e, em alguns lugares, línguas verdes
cobriam as pedras por completo. A Fiesta escolheu um lugar bonito para
colocar a tecnocasa. Subindo na torre de vidro do controlador de vôos, é
possível ver campos para todos os lados. Nadezhda teria gostado daqui.
Fiesta saiu para nos encontrar. Sorriu para mim quentemente, encostou os
lábios no Tobi com carinho da mãe. Ela era uns dez-quinze anos mais velha do
que eu. Eu percebi alguma coisa conhecida na expressão do rosto dela. Depois
eu entendi. É a expressão de um animal ferido mortalmente que eu via na cara
do Bonus após a morte das meninas. Ou no espelho.
Ciber, o companheiro dos munts, refletia luzes para todos os lados com o
corpo liso dele. Posso apostar que há uma semana atrás ele parecia um ferro
velho. O nome dele era Flatter. Peculiaridades locais, pelo jeito.
A mesa de comida chamava a atenção. Além da geléia e água quente tinha um
prato quadrado, feito de plástico, com frutas cortadas em forma de cubos.
Sem duvida, minha influência. Eu alimentava a Liana com pedaços de maçãs.
Progresso... Se bem que as frutas daqui foram cortadas sem levar em conta
sementes e fibras presentes na fruta. Ou por um raio laser, ou por uma faca
de diamante.
Fiesta queria muito conversar comigo em privacidade. Por isso a gente foi
fazer uma excursão pelo aeroporto após o almoço. Mas o Tobi fez questão de
nos seguir.
Fiquei impressionado com o hangar. Quatro dúzias de helicópteros pesados
estavam divididas em três fileiras, como em uma parada. Mas não fiquei
impressionado por causa disto. Quem nunca tinha visto helicópteros? Fiquei
surpreso pelo fato de que as fontes de energia deles era spin-geradores
compactos. Milagres da miniaturização. No máximo doze-quinze toneladas de
peso cada um. No nosso tempo não se sabia fazer isso.
No segundo hangar luz fraca das janelas perto do teto iluminavam flyers de
transporte. Eu olhei dentro de um deles, pensando como eu poderia fazer para
ficar a só com Fiesta. Se bem que isso é problema dela.
- Tobi, arruma, fazendo favor, uma sala para o Ignat - pediu Fiesta.
- Mas... Qual?
- A do lado da sua.
Suspirando alguma coisa em voz baixa, Tobi saiu. Fiesta seguiu-o com os
olhos e depois virou para mim bruscamente. O sorriso desapareceu do rosto
dela. Olhos cor de cinza brilharam como aço. Agora a cara dela virou uma
cara de juiz. Eu dei risada.
- Eu votei em você. Pena, porque eu errei - ela ficou quieta, aparentemente
esperando uma reação minha. Inútil. Eu estava pensando preguiçosamente se
eu conseguiria dar partida no caminhão que eu vi no aeroporto e chegar até
a cidade.
- O Conselho discutiu você - continuou Fiesta. - Foi permitido para a Liana
ter um filho com Tobi. Muitos eram contra, mas Veda, Liana e eu defendemos
a sua posição. Você pode ser útil para a comunidade e ganhou o direito de
voz. Hoje eu teria votado contra.
Eu mexi os ombros. Jogos de crianças, dos munts, não me interessavam.
- Senta - ordenou Fiesta. Não gostei nem um pouco do tom de voz dela. Nem do
stunner potente que o ciber dela apontou na minha direção. Olhos de aço,
voz de aço, um bicho com seis pés de aço com stunner - isso parecia meio
repetitivo. Mas uma sombra de curiosidade se despertou dentro de mim,
curiosidade de saber como tudo isso iria acabar. Eu sentei num degrau de
concreto perto da parede do hangar e Fiesta sentou do meu lado.
- Você não entende o quanto a situação está complicada - pronunciou ela. -
Munts não podem ter filhos dos degs. Tobi é deg pela metade. A influência
negativa dos genes desconstrutivos do Tobi irá prejudicar...
- Desconstrutivos.. Vocês inventaram essa palavra? Diz diretamente: a filha
da Liana nasceria uma idiota, é isso?
Fiesta respirou fundo.
- A filha da Liana não será uma telepata. Ignat, você mandou Tobi para a
Liana apenas para se desfazer das conversas dele. Uma boba jovem viu um
homem de verdade pela primeira vez na vida, se apaixonou por ele com toda
a força da juventude e você mandou Tobi até ela. Você enganou o amor dela,
destruiu a felicidade, apenas para não escutar as conversas do Tobi. Tudo
bem, não sobrou nada na sua alma. Mas por que você faz questão de
preencher o espaço de alma com sujeira e lixo?
- Ela já me perdoou. Ela votou em meu favor.
- Ela votou em seu favor somente porque ela é munt. Para munt trabalho é
mais importante do que sentimentos pessoais. E tratando-se de sentimentos,
você a transformou em uma cópia sua. Queimou o amor, deixou apenas dor e
ódio. Você é bom nisso.
- Se você lembra, eu não queria ir naquela tecnocasa. Alias, de que se
tratava a votação?
- Você quebrou a lei. Estávamos decidindo se devemos incapacitar você ou dar
privilégios adicionais para que as suas ações não ultrapassassem a lei.
- Incapacitar seria matar?
- Sim.
- Mas vocês decidiram levantar o meu status até o titulo de munt?
- Sim.
- Ha-ha três vezes. Alias, dentro da lei, quem devia ter colocado sêmen na
Liana?
- Um peladinho.
- O-o!!! Tem algum senso de justiça em tudo isso.
- Você simplesmente não tem informação necessária. Em que, na sua opinião,
um peladinho é diferente de um munt?
Eu não respondi a pergunta retórica.
- Peladinhos não tiveram sorte. Eles conseguiram telepatia, mas não perderam
as mãos.
- Os peladinhos - são telepatas?
- Engraçado, né? E esse é o problema deles. Eles não precisavam de língua
para se comunicar, e acabaram esquecendo dela. E, junto com a língua, a
cultura, a tecnologia, a escrita e toda a bagagem de conhecimentos
carregada pela humanidade durante toda a história. A primeira leva de
colonizadores deixou o planeta bom demais. P transformou num paraíso para
macacos. Não é necessário pensar em pão para sobreviver.
- E vocês?
- Nós, munts, não podemos ficar sem tecnologia. Sem a tecnologia nós vamos
morrer durante a seleção natural. Você ouviu falar sobre Darwin? Mas o que
estou explicando para você? Lembra o que tinha acontecido com Liana.
Aqueles munts que esqueceram da civilização, morreram. Que nem os
pitecantropos. Tudo de acordo com Darwin.
- Fiesta, volta pro começo.
- Pros pitecantropos?
- A Onda. O que aconteceu na terra depois da minha partida?
- Vocês, a elite estelar, foram os primeiros a sair. Vocês foram treinados,
todas as melhores naves foram doadas para vocês. E, depois de vocês, uma
segunda onda de emigração começou. A Terra mobilizou todas as forças.
Transportadores gigantes eram construídos. A sua nave podia ficar pulando
pelo espaço o quanto quisesse, mas os transportadores tinham recursos para
duas dúzias de saltos apenas.
- E vocês não conseguiram escapar da Onda?
- Estou falando sobre os degs atualmente. Sim, eles pegaram a Onda no
espaço. Meus antecedentes pertenciam à terceira onda de emigração. Naquela
época as pessoas escapavam usando qualquer coisa que podia voar. Não é
possível chamar aqueles caixões de naves nem teoricamente. Corpos
gigantes, não herméticos, eram construídos, preenchidos com câmeras
gigantes com pessoas em estado de anabiose, cinqüenta pessoas cada uma,
com recursos para três meses de vida, colocavam um motor naquela lata - e
vá passear. Você tem três saltos para tentar a sorte.
- Três saltos - é apenas uma tentativa.
- Exatamente. Sabe quantos caixões como este estão na galáxia? Cada um deles
tem duzentos e cinqüenta mil pessoas. Dois entre cada três enviaram o
sinal de SOS. Obviamente, ninguém os salvou. Serviu apenas de um sinal
para os outros: "Não nos sigam".
- Como você sabe tudo isso?
- Fiquei estudando os arquivos. Tobi não te disse que eu sei tudo? - deu uma
risada torta Fiesta. – As estatísticas foram publicadas abertamente. O
governo queria diminuir as expectativas de vida. Estatísticas das
catástrofes, limitação de nascimentos, limite de idade - e, mesmo assim,
muita mais gente queria sair para o espaço do que as naves podiam levar.
- Quantos foram evacuados?
- Quando os meus ancestrais partiram - aproximadamente quarenta por cento.
Talvez mais uns dez por cento depois de nós.
- E depois?
- E depois os ancestrais aterrissaram aqui. Essa foi a segunda onda de
colonização. Um quarto de todos os colonizadores morreu antes da
aterissagem.
- Radiação?
- Não. Simplesmente não deu tempo de tirar todos da órbita. As câmeras de
anabiose pararam de funcionar. Três shuttles foram destruídos nos
primeiros dias da aterrissagem e mais dois um pouco depois.
- E depois?
- E depois os colonizadores foram pegos pela sombra da Onda. E nos tornamos
telepatas. Aqueles que não morreram. Implantaram controle genético
extremamente rígido no planeta. Portadores de genes defeituosos foram
esterilizados.
- Quem decidia quais mutações eram construtivas e quais não eram?
- Que diferença faz? - deu risada triste Fiesta. - Aqueles que decidiam
morreram faz muito tempo. Bobo. Não é tão assustador assim. Homens não
perdiam a atividade sexual e nas mulheres eram implantados embriões com
genes limpos. Qualquer uma podia dar à luz e educar um filho. Somente
agora nós castramos os peladinhos. Antigamente tudo era de acordo com a
ciência.
- E de onde apareceram os munts então?
- Não tenha pressa. Tudo não foi tão ruim assim até chegar a terceira leva
de colonização. Ou a segunda onda da emigração. Aquelas pulgas que
ultrapassaram a Onda, pulando pelo espaço. Tipo vocês, os da elite. Mas
eles não podiam pular por muito tempo, apenas cem anos. Vocês, a elite,
ficaram saltando durante quinhentos.
- Que diferença faz, quem pulou quanto? Nós pegamos a Onda, eles pegaram a
Onda...
- Sim, eles pegaram a Onda também. No começo isso não era aparente... Mas
telepatas e não-telepatas não conseguiam conviver juntos. Nós deixamos as
cidades para eles, construímos aldeias. E depois nós juntamos com a
natureza de vez - Fiesta soltou uns palavrões.
- Tão simples, todos pegaram e foram para as aldeias?
- Obviamente, não! - os olhos dela brilharam de raiva. - Alguns ficaram.
Muito poucos, mas ficaram na cidade. A mutação de telepatia não é
permanente. Algumas gerações depois ela desapareceu, passou para a forma
latente. E aí uma outra sombra da Onda nos pegou. Apareceram nós, munts. E
a fase passiva de mutação dos degs tornou-se ativa...
Fiesta ficou silenciosa por um bom tempo, olhando para as nuvens. Dois
traços molhados de lágrimas atravessaram o rosto dela.
- E depois?
- E depois os camponeses cansaram de plantar coisas. Eles passaram a coletar
frutas. E nas cidades a mutação que os degs pegaram no espaço começou a
aparecer. Para manter os sistemas tecnológicos em um estado funcional é
necessário um certo nível de inteligência. Quando o nível dos degs ficou
abaixo desse valor, eles foram obrigados a deixar as cidades.
- Por quê?
- É possível viver na cidade sem luz, sem água, sem produtores de comida?
- Entendo.
- Crianças passaram a morar nas aldeias abandonadas. Meus parentes naquela
época já moravam nas florestas.
- É o fim da historia?
- Falta a última página. Nos, munts, estamos tentando manter a inteligência
no planeta. Nada salvará os degs. Mas os peladinhos têm uma chance. Para
isso temos que apagar a telepatia deles. Nós cruzamos degs e peladinhos.
Des