Andrei Andronov

Desejo Divino

(Traduzido por Eugeni Dodonov)


Eu mal coloquei um novo saquinho para lixo no lugar quando alguem bateu na
porta.

- Olá! - sorrium um homem baixinho e careca, entrando na minha casa. - Como
  vai? Se bem que eu mesmo já sei.

Ele passou por mim e foi em direção da cozinha.

- Você está de um péssimo humor, os cigarros acabaram, Ilia Iosivich ontem
  deu o tema da sua dissertação para Semen, e ele não entende nada sobre os
  cristais, e além disto o leite vai ferver e sujará o fogão daqui a sete
  segundos. Um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete! - terminou ele,
  orgulhoso, sob acompanhamento do barulho que o leite fervendo fazia,
  caindo sobre o fogão.

Amaldiçoando e xingando o visitante indesejado, eu tirei o pote do fogo e
olhei para o fogão com pena. A perspectiva de ter que limpar o fogão não me
animava nem um pouco. O homem deu uma risada, contente.

- Pois é - disse ele.

- Pois é "o que"? Se qualquer idiota...

- Ah, como é legal, quando se dirigem até você assim, facilmente... Ah, mas
  pois é, esqueci de me apresentar - ele esticou a mão na minha direção. -
  Muito prazer, sou o Deus.

- O que? - eu olhei para ele com cara de perdido.

- Deus. Ah, sabe, Jesus, Allah e aquela lá, qual mesmo foi o nome del?
  Quetzacoatl. Lembro a época quando eu era o Zeus - ahh, tempo bom...

- Olha aqui, engraçadinho - eu estava começando a perder a paciência.

- Calma, calma, o que está acontecendo? - o homemzinho parecia ser chateado.
  - Mas porque ninguém acredita em mim? O que eu sou, um Santa Claus
  qualquer? - continuou ele, ainda chateado, e no rosto dele apareceu uma
  barba branca, uma jaqueta (feita na finlândia?) se transformou num capuz
  grande, e luz de nimbo brilhou atrás da cabeça dele. - Está contente
  agora?

- Caramba... - comentei eu e tentei colocar o pote, que ainda estava
  segurando nas mãos, de volta no fogão. E, obviamente, errei.

- D-demonios.. - xinguei eu, assoprando nos dedos queimados.

- Deus, deus - quantas vezes será que preciso repetir isso? - respondeu
  o velho, vestido num capuz, e encostou o dedo na minha mão. A queimadura
  desapareceu instantaneamente, como se não existisse. Eu olhei para a pela
  da mão, desconfiado.

- Hipnose - respondi, tentando fazer a minha voz parecer confiante. - Coisas
  de teatro - e eu estiquei a minha mão em direção da barba dele.

- Ei, olha o respeito - o velho se afastou e segurou a barba com as duas
  mãos. Eu me senti o dono da situação.

- Respeito? Quem é você para mandar em mim assim? Eu vou...

- Chamar a polícia, né? - ele inspirou e se transformou num policial grande,
  com vista ameaçadora. Eu por precaução me afastei um pouco e acabei
  encostando na parede.

- Vamos fazer assim. Pensa em algum experimento que possa provar que eu sou
  o Deus. Ou provar o contrário.

- Cria uma pedra que você mesmo não consegue levantar! - pronunciei com cara
  inteligente.

- Coisa velha, até o Chubikalo já tinha escrito sobre isso - ele respondeu,
  se transformando numa velhinha. - A incapacidade de levantar uma pedra
  pode ser ética, entende? Deixa eu pelo menos fazer um almoço para você,
  fazer o que, você já faz um mês que só está comendo comida universitária.
  Pela primeira vés em tanto tempo tentou esquentar leite para você, e até
  isso deu errado.

- Por causa de você, sem querer ser chato - eu respondi automáticamente e
  comecei a pensar num tema para o experimento. A velhinha neste tempo
  estava andando pela cozinha, e na meza começou a aparecer: uma garrafa
  (pequena) de vodca, um prato com caviar, seleção de carnes e muito mais
  comida gostosa, sobre a existência da qual eu já praticamente tinha me
  esquecido. E, além do tudo, ela tirava tudo isso de um armário, no qual
  nem aranhas viviam mais.

- E então, pensou em alguma coisa? - perguntou com cara autoritaria o
  careca, aquele que chegou na minha casa um pouco antes, que apareceu no
  lugar da velha.

- Bem, dragões e os similiares saem fora - pronunciei com dúvida, reparando
  no tamanho da minha cozinha. - Big Bang - não é muito seguro, leitura de
  pensamentos - besteira. Eu acho que não vou pensar em nada...

- Exatamente. Deus - é uma realidade subjetiva, inacessível por ninguém -
  além de você, é claro - em forma de sentimentos.

- Não - disse eu, contente - Pensei sim. Faz com que o Ilia Iosevich me
  ligue agora e diga que o Semen desistiu da dissertação e eu vou poder
  ficar com ela.

- Só isso? - ele respondeu, mexendo os ombros - vá até o telefone.

Eu olhei com dúvida para o telefone, jogado no chão do corredor desde ontem.
Não passou nem cinco segundos e ele tocou.

- Sim? - perguntei, atendendo.

- Piotr Alekseevich? - pronunciou uma voz conhecida até a dor na cabeça, a
  voz do orientador, - Aconteceram algumas mudanças. Para não o atrapalhar
  por muito tempo, eu simplesmente vou informar sobre algumas perturbações
  no departamento, devido à quais você, aparentemente, terá a oportunidade
  de continuar o seu, sem dúvida alguma, interessante trabalho e, além
  disto, inclusive melhorar o seu estatus material - ele fez uma pausa.

- Estou escutando, Ilia Iosovich - concordei.

- Muito bem. Nosso conhecido e respeitado colega Semen Mihailovich Pavlov
  hoje me informou sobre o fato do que ele não poderá efetuar pesquisas
  sobre o tema, assunto do qual já está no seu saber e, pelo que eu imagino,
  você teria interesse de trabalhar com este tema, como pode ver. Eu já fiz
  as coreções necessárias nos documentos e estarei contente de ver você na
  minha sala por volta das duas da tarde, para discutirmos os detalhes. Além
  disto, mudando de assunto, você tem uma aparencia não muito boa
  ultimamente, Piotr Alekseevich. Se cuida, meu caro, a saúde não volta...

Por mais uns cinco minutos eu fiquei escutando uma seleção de besteiras de
medicina tradicional e sobre os metodos sobrenaturais de saúde. Finalmente
eu, conseguindo me despedir com dificuldade, virei para o Deus, e tudo o que
eu pude dizer foi:

- Você, Deus, é o cara.

- Ainda bem que você não pediu um apartamento no centro da cidade, a máfia
  imobiliária não é igual síntese controlada, nestes assuntos é necessário
  pensar um pouco.

- Qual síntese que você está falando? - perguntei meio que por curiosidade.

- Ah, nada de importante - ele respondeu, mexendo a mão, - Vamos comer. Eu
  não apareço por aqui muitas vezes, e não quero perder uma oportunidade
  destas.

Olhando para a mesa, eu percebi que uma oportunidade DESSAS não pode ser
perdida por ninguém.




- Qual é o seu nome, afinal? - perguntei, encostando no encosto da cadeira.

- Deus - ele respondeu e tirou um maço de "Malboro" do ár. - Quer?

Eu mexi a cabeça de acordo, agradecido, e acendi o cigarro com a ajuda de um
dragãozinho pequeno que apareceu e desapareceu logo em seguida, deixando o
cheiro de fumaça.

- Não duvido. Mas afinal, velho, o que você quer?

- Olha só o tom da voz - ele deu uma risadinha e se animou de repente. -
  Escuta, quer ser Deus? Não por muito tempo, só para experimentar?

- Nã... - comecei eu...

- Não, não, estou falando sério! Olha só - ele tirou do ár um livro enorme e
  velho e bateu com ele na mesa. - Você segura o livro e se torna um deus. E
  eu torno você, e ninguém vai perceber nada. E então?

- Ahh... Mas o que eu tenho que fazer?

- Está tudo escrito no livro. Vamos, vamos, segura!

Eu tirei a minha mão, já esticada, rapidamente.

- E porque você se esforça tanto para isso, hein? Não estou gostando
  disso...

Deus abaixou a cara instantaneamente.

- Entende, eu enjoei - murmurou ele, mexendo no prato. - Você não entende o
  quanto isso é chato - segura um baralho e já sabe o resultado de qualquer
  jogo. Você chega até a mesa de sinuca e pode predizer com qualquer
  precisão o tragetório da bola. Você conversa com uma pessoa e sabe todas
  as respostas dela antecipadamente.

- Então você sabe se eu concordei ou não? - perguntei eu, desconfiado. Ele
  mexeu a cabeça de acordo e tirou uma folha amassada do bolso.

- Aqui está a gravação da nossa conversa. Tem interesse? - e ele colocou a
  folha entre nós dois.

Eu estava olhando para a folha, e vários pensamentos estavam passeando pela
minha cabeça, atrapalhando a concentração. Trabalho chato, brigas com Semen,
apartamento pequeno, filas para comprar qualquer coisa... Nem amigo, nem
ninguém que fosse realmente importante para mim... Eu coloquei as minhas mão
sobre o livro.

O ceu quebrou e se juntou novamente.

Agora eu SABIA. A felicidade de sabedoria me preencheu, e eu dei uma risada
na cara do ex-eu.

Eu tirei a folha da mesa e coloquei no bolso.

- Agora sim - deu um sorriso o rosto, que olhava para mim cada dia do
  espelho.

- Sim! - eu dei risada e levantei o livro. No título estava escrito, com
  letras douradas, "Poderes e obrigações do Deus. Manual". E logo embaixo
  tinha uma assinatura espaçosa do Primeiro.

Na memória apareceu a pergunta, e ao mesmo momento a resposta. Eu sorri.

- Semen vai procurar por muito tempo as soluções parciais.

- Mesmo? Quais? - levantou os olhos o novo eu, curioso. - Eu não estou me
  lembrando...

- Seja bem-vindo ao desconhecido - murmurei eu e coloquei o livro embaixo do
  cotovelo. - Tudo de bom! - eu dei um chão para ele com a mão livre e
  desapareci no ar.


Eu apareci no ceu, bem no meio de um tumulto dos Anjos, que colocaram caras
trabalhadoras e ocupadas um momento depois de me ver. Isso me divertiu
bastante. Um velho com aparência muito boa e com um conjunto das chaves na
mão chegou perto de mim e olhou nos meus olhos.

- Mais um - constatou ele. - Ninguém entende os caminhos do deus... - e foi
  embora.

Eu sentei numa nuvem e comecei a ler o Livro do Primeiro. De vez em quando
na frente da minha nuvem apareciam Anjos e algumas almas, sempre pedindo por
alguma coisa. Eu resolvia os problemas deles rapidamente e continuava a
leitura.

O livro foi fantástivo. Os parágrafos foram escritos pelo Criador, e nem o
meu conhecimento completo ajudava a os entender. A língua era símples e
entendível, palavras claras e precisas, mas a profundidade do pensamento
ultrapassava tudo que eu podia enchergar como o Deus. Frequentemente eu
tirava os olhos do Livro e olhava para o Universo, procurando por exemplos e
confirmações. As vezes eu não conseguia tirar os olhos dos parágrafos
mágicos, e multidões de anjos se juntavam em torna de mim, esperando por uma
Palavra Divina. Para falar a verdade, isso me distraía bastante.

Finalmente o livro terminou. Eu virei a página e ví uma infinidade de folhas
com autógrafos dos meus predecessóres. Folheei até o fim, deixei o meu
autógrafo e olhei em volta pela primeira véz. Núvens brancas em todos os
lugares, até o olho consegue alcançar... Sombras aladas voando para todos os
lados... Eu criei uma moeda e joguei para cima. Ela se virou algumas vezes e
caiu de cara - que nem eu tinha imaginado. Não estava mais afim de
transformar os destinos dos universos. O peso da sabedoria eterna estava
pesando nos meus ombros.

Com um pequeno movimento de ár, um anjo apareceu do meu lado. Mesmo sem
olhar para ele, eu entendi uma pergunta que ainda não foi feita: no mundo,
sobre o qual eu nunca tinha ouvido falar, alguém inventou a roda. Eu fechei
os olhos e olhei para aquele Mundo. Criaturas estranhas, mas simpáticas,
estavam trabalhando sobre o sol violeta... Muitos carregavam troncos das
árvores, pilhas de comida, andavam em torno dos formiguieiros gigantes, mas
alguns, parados, estavam em uma meditação profunda. Poderes nativos abriam
na frente deles os segredos da Existência... Eu abri os olhos e mexi a
cabeça num gesto negativo.

- Uma civilização tecnológica fará mal a eles - eu pronunciei, e o Anjo
  tremeu, surpreso. Um segundo depois ele desaparece e eu mais senti do que
  ví que alguem estava colocando as minhas palavras nos livros sagrados.
  Isso começava a me entediar bastante.

Eu me dei a liberdade de ficar sentado tranquilo na nuvem por mais um
tempinho, por uns momentos da eternidade apenas, antes que a decisão dentro
de mim se tornou forte. Eu levantei o livro, me livrei da minha forma e
coloquei a pela sob luzes violetas. Um dos nativos, eu o tinha visto
meditando, jogou lixo num buraco e virou para a caverna dele, localizada
numa rocha que brilhava com luz agradável. Eu olhei para o futuro e dei uma
risadinha. Alguma coisa nesta situação me pareceu familiar.

Eu bati na porta educadamente, criei mais um par de patas para mim e me
arrastei sobre a porta.

- Olá, como vai? - suspirei eu amigavelmente e dei uma cor verde suave para
  a minha pele. - Se bem que eu mesmo já sei, - eu continuei e me arrastei
  na caverna, passando pelo nativo que olhava para mim com cara perdida.
 
Powered by Eugeni's TXT Viewer 0.1