Andrei Anronov O Demônio Eu olhei para os lados, desentendido. O enredo ao meu redo era tão diferente do esperado, que eu senti a necessidade de verificar o corpo... e adicionei no fim do relatório sobre a chegada alguns desejos para os parentes do operados de transporte. Corpo era feminino. Além disto - era um corpo de uma jovem - com estrutura muscular ainda não desenvolvida e com reações lentas. Se bem que a última parte era facil de ser corrigida. Terminando o relatório, eu criei um concentrador de energia permanente no corpo-portador e utilizei a parte livre do cérebro para re-organizar o sistema nervoso. O corpo precisava ser preparado para a transformação, e isso também exigia um certo tempo. Para não perder mais o tempo, eu levantei no ar, me virei, e saí voando pela janela, a fechando atrás de mim. O ár fresco de manhã foi abalado por um grito feminino. Virando com dificuldade a cabeça, que ainda não me obedecia direito, eu vi numa luz fraca de madrugada uma mulher velha, que segurava as mãos no peito e olhava para mim com olhos abertos. - Demônio! - pronunciava ela, fazendo uma cruz no peito. - Demônio, - concordei eu, mexendo a cabeça, e quiz cair fora daqui, mas algumas balas entraram no corpo-portador. Caindo, eu consegui perceber um velho, que segurava uma espingarda com dedos brancos de tensão. Eu estava deitado na mesma sala onde eu tinha acordado. A diferença foi no fato de que eu estava preso por cordas, e tive alguma coisa na boca que não me deixava falar. Quanta estupidez - esses portadores são tão sensíveis às ações do meio-ambiente... Não me deixarão voar. Pelo que parecia, eu estava preparado por passar pelo ritual cansativo de exorcismo. A porta se abriu. O monge que entrou tinha uma visão bastante séria e decidida. - Saia, espirito maligno, cheio de mentira e lei maligna; saia, criação de mentiras, o fugidor dos anjos; saia, serpente, criação de mentira e revolta; saia, o expulso do paraído, o não digno ma bondade divina; saia, filho do mal... - ele começou logo na porta, ou por causa do medo, ou porque ele acreditava mesmo em toda essa besteira. Para deixar ele em dúvida, eu com visão pensativa comi a flanela que estava na minha boca e rapidamente contei uma boa metade do "Pai Nosso". Os olhos do monge se abriram até não dar mais, a boca honestamente tentou alcançar a sintura; todos os presentes fizeram uma cruz, sincronizadamente. Obviamente, isso não estava nas histórias oficiais do exorcismo. Eu fiquei deitado por um tempo, me divertindo com o efeito que consegui causar, e depois concentrei o olhar nas cordas que estavam segurando o corpo-portador. As cordas pegaram fogo rapidamente. Um esforço pequeno - e eu, imitando um ar leve, flutuei pela janela, a carregando junto comigo (junto com uma parte da parede). Se o monge não chegou a ter um infarte ainda, a minha risada com certeza o causou. Voando sobre a cidade, eu estava cantando os hinos. A re-estruturação do corpo-portados terminou, e eu novamente consegui todo o cérebro para o meu uso. Não quis me descer ainda, devido às vantágens óbvias oferecidas pelo vôo frente à caminhada. No lugar disto eu pensei por algum tempo quanto a utilidade da transformação do corpo-portador num estado mais maduro, e decido que ser uma menina pequena é mais tranquilo. Eu já tive outros problemas. A data e a hora eu descobri, voando sobre a vitrine da loja que vendia televisores. Pelo que eu descobri, eu ainda tive algumas horas, e acabei me aterrisando numa loja de roupa, para não chamar atenção indevida depois por causa da minha aparência. Devido a uma pequena sobrenaturaliada da minha chegada eu tive que me atentender sozinho, mas em compensação acabou saindo de graça. Depois eu tive que ir andando, mas já faltava pouco. Eu virei numa rua, cortei uma esquina, atravessando um par de paredes, e acabei saindo na esquina entre a Quinta e Oitava ruas. Mexendo um pouco a cabeça, eu percebi um brilho de propagandas do cinema e me juntei à multidão. - Uma entrada, por favor - eu imitei uma voz fraquinha de criança e mais uma vez lembrei (mal) do operador do transporte. Vou ter que dar uma surra nele depois. Recebendo o troco da nota de cinco recém-criada, eu fiz ela desaparecer no ár e entrei na sala. Sinceramente, não dá para imaginar um lugar melhor para a Aparição - não tinha quase nenhum lugar vazio. Só faltava esperar. Mastigando pipoca teleportada da máquina que a vendia, eu fiquei pensando sobre os gostos e interesses das pessoas presentes nesta sala. Será que tinha alguma coisa nova para eles em mais uma multidão de zombies que estavam comendo mais uma menina bonita na tela do cinema? Ou eles simplesmente gostam de olhar para estas cenas? Quando eu tive que fazer alguma coisa no papel de "resposta adequada" (leia-se - Castigo Divino), eu simplesmente morria de tédio. Quatro vezes. Ou melhor, cinco, levando em conta aquela vez quando eu mesmo entrei numa bacia com ácido, para me desfazer de um corpo-portador semi-desfeito. Todos estes efeitos especiais que estamos utilizando, eles são tão banais... E logo quando eu tinha parado de prestar atenção no que acontecia ao meu redor, começou. Eu não consegui detectar o momento da Chegaga, mas isso estará na recordação da minha memória - depois entenderei melhor. Mas a bagunça na primeira fileira chamou a minha atenção, e corri até lá. Aparecendo na passagem, eu tropecei sobre uma poça de sangue. Cinco ou seis portadores com Entidades alheias, cujas auras eu enchergava com mesma facilidade com a qual eles enchergaram a minha, foram na minha direção. Obviamente, não com as melhores intenções. Transformando o portador de um deles numa coluna de sal, eu me assegurei de uma fonte de informações para descobrir maiores detalhes, e os outros eu simplesmente joguei para fora deste Mundo para um lugar onde uma comissão de chegada os aguardava. Os portadores cairam um em cima do outro. "Isso foi mais fácil do que eu pensava..." - pensei eu por um instante, mas justo neste momento algum brincalhão quis colocar alguma coisa em cima da minha cabeça. Um raio, atualmente. Por um par de segundos chegou a escuridão. Junto com a visão para mim voltou a raiva. Eu liberei praticamente um quarto de toda a energia que eu tive, explodindo todos as Entidades que chegaram perto de mim junto com os portadores. Depois eu utilizei o cérebro, que foi gentilmente oferecido para mim por um coitado com as pernas quebradas, para colocar uma Esfera em torno do cinema. Tive que explodir duas Entidades na rua - eles conseguiram escapar, mas fazer o que? As Entidades se juntaram aos colegas deles, que já foram transportados para a Base, e os portadores delas também acabaram abandonando este mundo um pouco antes da hora prevista. Foi mal, pessoal, mas foi um acidente. As duas dúzias das Entidades que sobraram se formaram em forma de linha em busca da fonte de tamanha ação, e deixaram um punhado dos nativos aterrizados num canto da sala em paz. Eu os isolei de uma vez, para evitar a possibilidade de Possuição. Para não gastar o tempo das Entidades, eu utilizei o protoplasma em volta, ainda bem que tinha de sobra, e mais um par de cérebros desligados. Acabou saindo do melhor jeito possível. Eu tirei garras das patas, mostrei os dentes e resmunguei. O cabelo bateu sobre as costas, o rabo deu uma volta sobre as patas traseiras. A linha dos oponentes se transformou em uma multidão que tremia. Enquanto eles conseguiram colocar a Esfera deles, eu consegui Explusar quatro deles. Mais dois se tornaram colunas de sal, e depois a magia se tornou inútil. Um rio de energia queimou uma passagem para mim nesta multidade, mais três Entidades acabaram em minhas mão. Eu fixei as fontes controladoras e pulei para frente. A briga foi uma maravilha. Eu os prendia com corpo, destruia com patas, cortava em pedaços pequenos com dentes, prendia com cabelo, cujos fios poliméricos eram muitas vezes mais resistentes do que os fios de cabelo comuns. Eu não era nenhum comedor de carne do deserto - eu era o Leão das Entidades, e este conhecimento dava uma forma adequada. Me compliquei um pouco com o par de entidades armadas - onde será que eles conseguiram tudo aquilo? - mas eles não sabiam sobre a velocidade da minha regeneração, e acabaram pagando com a existência atual deles por isso. Terminando com os portadores, eu comecei a tratar as Entidades liberadas, que estavam batendo (sem sucesso) na bareira da minha Esfera. O meu corpo-portador acabou sendo queimado um pouco, mas eles não conseguiar possuir mais ninguém - simplesmente não tinha mais ninguém, todos os cérebros livres eu estava utilizando. Fazendo um pequeno ensaio de "Guerras nas Estrelas", e por pouco não queimando o cinema, eu finalmente prendi todos os clientes e os transportei para um local mais adequado com um clima original. Tirando a Esfera de força, eu rapidamente destrui o corpo-portador e simplesmente para a diversão própria acabei materializando a minha aparência verdadeira, mesmo gastando uma energia imensa com isso. Ajustando o nimbo em cima da cabeça, eu dei um "chãozinho" para os policiais que entraram correndo com a asa e desaparecí para todos os séculos - isto é, até a próxima vez. Para fazer um relatório para o chefe. Amen.