Eugeni Dodonov


Um dia qualquer.



Ele olhava para mim, quieto. Não dizia nada. Apenas olhava.

- Então é isso? - perguntei. - É assim que termina? Eu acabo aqui - eu olhei
  em volta da sala.

Sala? Não sei se isso poderia ter sido chamado de uma sala. Neblina branca
embaixo dos pés, núvens baixas em cima da cabeça. Não sabia nem se existiam
paredes porque neblina em volta não me deixava enxergar nada além de poucos
metros.

E luz. Luz estava vindo de cima, de lados, de todos os lados. Menos de
baixo.

- Sabe, que queria perguntar algumas coisas para você. Eu sei que é
  estúpido, ficar esperando por resposta, mas queria perguntar mesmo assim..
  Porque?.. Porque tudo isso? Porque você fez tudo deste jeito?

Ele não respondia. Não pude ler nada nos olhos dele. Julgamento, compaixão,
compreendimento - nada.

- Provavelmente eu não sou o primeiro a fazer esta pergunta. Alias, tenho
  certeza que não sou. Engraçado, "lá" eu não gostava de falar muito, e aqui
  eu falo sem parar. Mas me responda. Por favor. Só uma pergunta. Porque? Eu
  sei que não existe resposta para esta pergunta, não pode existir mas, se
  alguém puder responder ela para mim este alguém é você. Por favor. Só peço
  isso.

Ele me olhava. Nada mudava nos olhos deles. Ele me olhava e não dizia nada.

- Me responda! - gritei, começando a sentir raiva e.. desespero. Acabou,
  acabou, tudo acabou, não posso fazer mais nada, mas eu só queria.. queria
  saber.. Porque? Porque tudo isso? Porque este sofrimento, dor, sangue,
  maldade. Porque as pessoas boas sempre acabam indo para cá antes da hora e
  os canalhas continuam lá. Isso não é certo. Isso não é justo. Porque?
  Porque você fez deste jeito? Me responda, droga! - gritei eu. Nenhum eco,
  nenhuma resposta.

- Bem, mas fazer o que.. Eu nunca lia os livros "santos", mas eu acho que eu
  tenho que explicar para você o que eu fiz para parar aqui. Sabe, pensando
  bem, eu acho que não fiz nada de bom na vida. Eu tentei. Eu tentei ajudar
  a todos, eu tentei ser algo útil, mas eu acho que no fundo mesmo eu só
  queria alguma coisa para mim. Um pouco de felicidade, talvez. Nunca pedi
  nada para ninguém. Não achava justo isso, entende? Cada um com os seus
  problemas. O que eu puder fazer para ajudar eu faço, mas não posso aceitar
  ajuda. Não quero atrapalhar ninguém com o que eu sou.

Silêncio.

- Eu sei que você sabe como vim parar aqui. Engraçado, eu sempre achava
  difícil acabar assim. Sonhava nisso, esperava fazer alguma coisa de útil
  pelo menus uma vez na vida, nem que seja a última. E agora fiz. Ou será
  que não? Será que adiantou alguma coisa, se ela foi machucada mesmo assim?

Juntei os dentes de dor, lembrando o que tinha acontecido a apenas alguns
momentos. Momentos? Séculos? Não sei.

...ela gritava, pedindo ajuda. Não tinha ninguém por perto, apenas os
desgraçados, drogados, bêbados, que a arrastavam. Vestido dela estava
rasgado, mão sujas de sangue... Provavelmente ela tentou fugir e caiu,
tentou se arrastar mas sem sucesso.

Um lugar perdido, um beco sem saída. Sete pessoas, alguns com jaqueta de
couro, outros com apenas camiseta rasgada. Drogados. Com olhos de animais
famintos... Não. Animais não machucam outros somente para se divertir.

Não lembro como acabei parando lá. Provavelmente, quis cortar caminho.
Cortei.

Paredes de prédios jogavam sombra, transformando o beco num lugar
assustador. Lua brilhava no céu, linda, e grande. Poucas nuvens. Uma noite
bonita.

Os gritos dela se tornaram desesperados quando um dos bandidos rasgou
totalmente o vestido dela. Dois seguravam as pernas, outros dois - os
braços. Quinto segurava a cabeça. O líder cuspiu para lado e deu risada.
Outros dois, desocupados por enquanto, o seguiam.


Isso não pode estar acontecendo. Cadê polícia? Guardas? Alguém? Será que
ninguém está vendo isso? Será que ninguém *liga*?

Algumas pessoas andavam a apenas alguns passos desta cena. Ninguém olhava,
todos abaixavam a cara e saíam rapidamente.


...Uma vez me perguntaram, qual crime eu considerava o pior. Não tive
dúvida. Homem que tem disposição para machucar uma mulher não merece mais
porque viver. Ele simplesmente não tem porque viver.

"Pára! Retardado! Não faça isso!" - uma voz dentro de mim começou a gritar
quando eu tirei a mochila das costas e joguei no chão. Discman bateu junto a
ela e quebrou. CD caiu para fora com o lado gravado para baixo. Deixa. Não
vou mais precisar dele.

Eu andei na direção dos caras. Os quatro que seguravam a garota não se
mexiam, mas os outros três deram um passo na minha direção prontamente. Para
eles isso era um jogo, uma diversão.


- Não lembro direito o que aconteceu - disse eu, tirando os pensamentos da
  cabeça. - Não sei se consegui os matar. Bem, já que estou aqui, eles
  conseguiram. Eu lembro quando o meu braço esquerdo quebrou. Não senti dor
  na hora, simplesmente ele parou de me responder. Lembro da dor no estômago
  e no coração. Acho que foi uma faca. Depois de alguns momentos eu parei de
  enchergar com olho esquerdo, só sentia sangue escorrendo dele. Me diz, o
  que aconteceu? Eu consegui os deter?

Ele moveu a cabeça num gesto negativo.

- E eles? Eu matei alguém?

Gesto afirmativo.

- Então é isso? E agora? Vou para inferno? Sabe, já que estou falando isso
  tudo para você, eu sempre achei que inferno não é uma idéia tão ruim
  assim. Sofrimento.. Não é tão ruim assim. Muito pior é uma luz de
  esperança seguida por dor. Ou dor seguida por esperança, que acaba se
  tornando uma dor novamente. Eu até pensei.. Ah, pode ser bobagem, mas eu
  acho que a Morte é a pessoa boa. Ela simplesmente cuida de você. A Vida..
  Ela bate em você, faz você sofrer, perder o sentido.. Sentido da Vida -
  isso que é uma bobagem grande. Não há sentido. Inferno comparado com isso
  é um paraíso.

Eu fiquei quieto por um momento. Não sei porque, mas me senti mais livre
após ter falado tudo isso.

- Eu nunca pedi nada para você... Mas, por favor.. Me deixa voltar. Por
  cinco minutos apenas. Eu não conheço aquela menina, eu sei que não tenho
  direito de pedir isso, mas cinco minutos apenas. Não peço mais nada.
  Depois disto pode fazer o que quiser.. Se bem que você pode fazer isso
  mesmo sem a minha vontade.

Fiquei quieto por um momento.

- Por favor.

Pela primeira vez ele abriu a boca:

- Você não poderá voltar mais aqui.

Respirei fundo. Isso eu já imaginava.

- Por favor. Eu não fiz nada de muito útil na vida. Eu não pedi para nascer,
  mas a vida é dada para a gente por algum motivo. Não conheço o meu mas,
  por tudo o que é sagrado, eu peço.. Por favor. Me deixa a terminar com
  dignidade.

Nada refletia nos olhos dele.

- Você a terminou.

- Por favor - falei em voz baixa pela última vez.

Não sei se foi impressão minha, mas alguma coisa se mexeu nos olhos dele.

- Tudo bem. Você insistiu. Mas saiba que tudo o que virá depois... É o que
  você pediu.

- Obrigado - disse eu. Dor, dor insuportável entrou no meu corpo. Tentei me
  mexer e percebi que braço esquerdo estava quebrado. Olho, pelo jeito, eu
  perdi também.

Com o olho que me sobrou eu vi o mesmo beco. Um corpo no chão, com pescoço
quebrado. O líder foi primeiro a me atacar. Bem, pelo menos isso eu consegui
fazer direito.

Outros dois estavam jogados on chão perto de mim. Eles se mexiam em
convulsões. Um estava com garganta arrancada e sangue se jogava no chão.
Outro.. Aparentemente, alguém arrancou os olhos dele com dedos. Faca que
ele segurava nas mãos antes, e que eu senti com o meu coração, caiu no chão
quando eu tentei me levantar. Dor era insuportável, inacreditável; dor
preencheu o meu universo por completo. "Tudo o que virá... é o que você
pediu". Sim. Eu pedi por isso.

Todo o meu discurso, minha viagem para aquele lugar demorou apenas alguns
instantes aqui. Os quatro que faltaram soltaram a menina e estavam
correndo em minha direção, um tirando faca e outro uma corrente de uma
motocicleta.

Eu tentei olhar nos olhos da menina. Olhos de um animal ferido. Não sobrou
nada de humano neles.

Quem a machucou.. Simplesmente não tem porque mais viver.

A vida se escorria do meu corpo com sangue. Eu parecia um pote de iogurte
perfurado com faca. Iogurte vermelho.

"Por favor. Eu só pedi uns cinco minutos. Depois disto faça o que julgar
certo".

Eu tirei a dor da minha mente, levantei o braço direito. Tenho que ser muito
rápido, senão vou cair e não levantarei mais. Os quatro já me cercaram e
aquele que segurava a faca tentou me atacar.

O tempo parou. Eu vi a faca voando em direção do meu fígado mas não me
mexia. Muito cedo. Não conseguirei.

Outros três acompanharam o companheiro deles.

"Está na hora".

Um movimento rápido, movimento que teria me feito gritar de dor se eu
tivesse algum ar no pulmão, e eu escapo da faca. Mão direita minha voou até
o pescoço dele, segurou e puxou. Corrente de motocicleta caiu sobre o meu
ombro direito, e escutei um "Crack". Não tinha dor. Não tinha mais.

Meia-volta para esquerda.. E senti que minha perna esquerda dobrou. Dobrou
de um jeito imprevisto pela natureza. Um deles tinha um taco de baseball que
tinha acabado de esmagar o meu joelho.

Caí sobre o joelho esquerdo e escutei o barulho dos ossos abertos batendo no
chão. Não tinha dor. Não tinha nada.

É muito fácil. Basta querer.. Querer gastar tudo, tudo o que tem de vida em
um momento breve, sem pensar nas conseqüências. Minha mão direita voou,
devagar, na minha opinião, até o peito do atacante com corrente. Devagar para
mim, mas muito rápido para ele. Meus dedos atravessaram a camiseta dele, a
pele, pularam embaixo das costelas e seguraram o coração dele. Agora só
puxar.. Bruscamente..

Não olhei para o que sobrou da minha mão. Perfurar uma pessoa viva com
dedos.. Eu diria que isso é impossível. Impossível?

Um rio de sangue bateu na minha cara, e o atacante caiu. Olhos dele pareciam
surpresos. Sobrou dois.

Aquele que segurava o taco parecia uma estátua. Boca aberta num grito de
medo, olhos quase pulando para fora de medo. Eu levantei, fiquei em pé
direito, arrastando o esquerdo, dei um passo até ele e segurei o pescoço com
a única mão. Virada brusca, "Crack", e ele cai. Olhos se fecharam.

Último deles tinha um machete. Não sei onde ele estava o escondendo, mas não
o vi antes. E agora eu o senti entrar na minha barriga. Não tinha dor. Nada.

Eu parei de enxergar as cores, eu via somente a sombra dele. "Cinco
minutos.. Mas só passaram alguns segundos... Que seja. Eu não aguento mais".

Eu segurei a mão dele com a minha mão direita e me joguei na direção dele.
Machete entrou até o fim na minha barriga e eu escutei barulho da camiseta
rasgando nas costas. Ele não disse nada quando eu o segurei pela garganta,
segurei com força e amassei.

Caio de joelhos. Acabou. Acabou? Com as ultimas forças mexo a cabeça para
olhar para a menina. Ela me olha com cara de terror. "Deve ser o choque" -
penso eu.

Escuridão...

"Obrigado." - consigo pensar ainda. "A vida valeu a pen..."
 
Powered by Eugeni's TXT Viewer 0.1