Último passo ------------ Ceu. Ele nunca mente. Ele pode fingir as vezes, mostrando as nuvens cinzas, mas ele nunca mente. Os deuses vivem lá. Hoje o ceu estava claro. Azul infinito em cima de mim, azul infinito embaixo. Ondas do mar suavemente batiam na rocha, mas daqui eu mal conseguia enchergá-las. Um pássaro branco sobrevoava sobre o mar. Silêncio. Até o vento, que me acompanhou até aqui, parou. Eu olhei ao redor. Atrás de mim estava o caminho entre as montanhas, passágem escondida na montanha e a subida até aqui. Em todo o caminho eu deixei corpos dos meus inimigos. Ninguém saiu vivo. Para falar a verdade, eles nem tentaram guardar a vida... E eu, eu, quem matou todos eles, saiu sem nenhuma ferida. Porque tudo isso, eu me pergunto. Eu matei muitas pessoas, mas porque? Será que foi tudo apenas para provar para mim mesmo alguma coisa? Para vingar a morte de alguem? Ou para descobrir se realmente eu tenho algum objetivo maior nesta vida? Eu? Quem sou eu, afinal? Filho dos pais desconhecidos, assassino, procurado praticamente em todas as cidades do mundo... Imortal. Sanguinário. O céu estava olhando para mim, quieto. Nenhuma núvem, apenas azul infinito. O mar estava me chamando. Mas antes de dar o último passo... Eu olhei para trás. A rainha estava deitada nas pedras. Se não fosse a poça de sangue em volta dela, ela pareceria estar dormindo. Rosto inocente dela, cabelos soltos, pretos, espalhados pelas pedras... "Você veio até aqui para morrer nas minhas mãos" - eu lembro que ela disse isso. O que eu fiz? Eu, que deixou todos os guardas para trás, mortos, jogados nas poças de sangue, todos mortos por minhas espadas? Sorri. Não foi um sorrizo agradável. Foi um sorrizo de alguém que estava para lá da vida ou morte. Sorrizo de um imortal. Ela lutou bem. Bem melhor do que todos os meus oponentes anteriores. Ela quase conseguiu me alcançar com as duas adagas que ela usava como armas, quando a minha espada, segurada na mão esquerda, atravessou o peito dela. Eu lembro dela assim, derrotada, mas não desistida. E lembro das últimas palavras dela também. Será que eu senti alguma coisa dentro de mim quando ela morreu? Satisfação, alegria, paz? Apenas vazio. Eu vim até aqui para isso; eu consegui o que queria. Mas não senti nada. Aí eu olhei para frente e vi o céu. Falta apenas um passo. Mas antes disto, vou voltar um pouco no tempo... ...A montanha esquecida tinha fama de amaldiçoada por várias gerações. Histórias assustadoras sobre as magias e maldições que aconteciam nela eu escutava desde criança. Um pico esquecido, uma ilha no meio do mar, que apontava para o céu. Alguns diziam que deuses moravam na montanha. Outros falavam que apenas os bruxos viviam nela. Ninguém sabia ao certo. Apenas uma coisa - os que foram lá nunca voltaram. Nos últimos cem anos não havia ninguém que foi lá por vontade própria. E ninguém que foi levado para lá voltou. Se bem que estou mentindo. Uma pessoa foi. Eu. ...Eu nasci na cidade há vinte e três anos. Não cheguei a conhecer os meus pais. Me contaram que eu fui encontrado um dia na frente da casa dos meus pais adotivos, e eles foram mortos em uma das batalhas da última guerra. Pelo que eu fiquei sabendo, eles foram mortos por um bando de bandidos que tentava se esconder dos guardas. Meus pais conseguiram me esconder no subsolo ao escutar os gritos dos atacantes, e por muita sorte os soldados conseguiram me encontrar após acabar com o bando. Assim, toda a minha infáncia eu passei sem saber nada de mim. Após a morte dos meus pais adotivos, eu me senti perdido. A próxima lembrança que eu me lembro é o quartel dos soldados. Eles me trazeram para lá depois de salvar da casa destruida e pegando fogo. Eu cresci lá, observando os soldados e os treinamentos deles. Cinco anos depois, quando eu estava com sete anos, o quartel foi destruído num ataque do exercito inimigo. Uma daquelas guerras esquecidas, pequenas e insignificantes, que tirou a minha segunda casa de mim. Eu tive sete anos, como já disse. Porém, quando os soldados invadiram o quartel, e poucos sobreviventes tentaram se defender, eu me juntei a eles. Eu observei os treinamentos dos soldados durante a minha vida conciênte inteira e, por mais que eu não conseguia ainda segurar uma espada nas minhas mão, eu sabia usá-la. Obviamente, eu não consegui fazer muita coisa. Eu feri ou até matei alguns soldados, mas, quando todos os defensores foram mortos, eu fui capturado. Apesar de ser criança, eu lutei contra eles, e eles não tiveram nenhuma pena de mim. Fui torturado durante algumas horas e no fim a minha garganta foi cortada e fui jogado em cima da pilha dos corpos. Tudo escureceu. A minha próxima lembrança veio junto com dor. Dor infinita e inimaginável. Eu acordei em cima da pilha dos corpos, sentindo todas as torturas que sofri, todos os ossos quebrados e músculos razgados. Mas estava vivo. Os próximos minutos eu passei, rolando pelo chão detonado, gritando de dor. Quando a respiração acabou, não consegui respirar novamente, mas a dor não passava. Eu mordi a minha mão direita -- a esquerda estava quebrada em alguns lugares para tentar segurar a dor, e senti uma força estranha dentro de mim. Esta força estava revirando todo o meu corpo, colocando os ossos nos devidos lugares, voltando os músculos e curando feridas. A dor insuportável permaneceu por uma eternidade. No mundo real deviam ter passado apenas alguns momentos, mas para mim pareceu um século. Quando ela passou, finalmente, eu me sentei. Eu abri os olhos - e lembrei que tinhas os perdidos durante a tortura. Mas agora eu estava vendo novamente! Eu olhei para mim. Estava completamente coberto por sangue - meu sangue. Mas, quanto mais eu procurava, eu não via nenhuma ferida, todos os membros estavam no lugar, todas as feridas se fecharam. Eu estava inteiro novamente. Eu me levantei, cuidadosamente, e olhei ao meu redor. O sol estava se pondo. Eu lembrava claramente que o ataque começou na madrugada, e fui capturado por volta do meio-dia. Algumas horas de tortura antes da minha... morte? Mas eu estava aqui, novamente, no mesmo dia, e no máximo algumas horas se passaram desde que eu fui jogado. Eu lembro que eu pensei na hora que a minha vida foi me devolvida pelos deuses para eu me vingar. Eu tive apenas sete anos, mas ninguém nunca mais me chamou de criança. Ninguém dos atacantes conseguiu chegar a salvo em casa. Para voltar, eles deviam atravessar a floresta, que separava o quartel atacado do castelo deles. Para voltar, eles deviam enfrentar todos os perigos que os aguardavam lá. Eu. Parece estranho falar que eu, uma criança, conseguiu acabar com um batalhão inteiro, composto por cinquenta pessoas experientes. Mas eu fiz isso. Não tinha nada de nobre nisso. Eu atacava a noite, de longe, de perto, e eles não conseguiam fazer nada. Eu me sentia um demónio encarnado atacando vítimas indefesas. Algumas vezes eu fui ferido mortalmente, mas sempre conseguia fugir para a floresta. Lá, eu morria... E voltava a vida novamente. Ninguém deles voltou para a casa. E eu... Eu não sabia mais o que fazer. Eu sabia que não era uma pessoa comum, mas não sabia quem eu era. O que eu era. Não vou contar aqui tudo o que aconteceu nos anos subseguintes. Eu me tornei bandido, mercenário, guerreiro... Em alguns lugares, eu era considerado um demónio. Em outros, santo. Eu me tornei o melhor espadachim do reino - e, provavelmente, um dos melhores do mundo. É claro, mesmo perdendo eu ganhava. Vantágens de ser imortal. Pois é, eu falei a palavra imortal. Eu era um. Eu sentia dor, eu morria... mas eu voltava a vida logo após morrer, com todo o corpo curado. Quando o meu corpo conseguia, eu me reconstruia, curava todas as feridas. Quando não sobrava muita coisa a ser reconstruira - como, por exemplo, um dos magos de fogo me incenerou, - eu acordava perto do lugar onde eu morria. Ninguém dos meu inimigos sobreviveu. A minha fama se espalhava. Ninguém mais se atrevia a ficar no meu caminho. Eu tive apenas vinte e três anos quando descobri que não tinha mais ninguém que se atrevia a me opor. As vezes eu me sentia o deus de destruição. Era o que eu sabia fazer - matar, destruir e queimar. Imortal. Demónio? Bem, mas estou mudando de assunto. Durante todos estes anos eu tentei descobrir o que eu era... sem sucesso. E então apareceu ela. Orlana... Filha de um campones pela qual eu me apaixonei completamente. Pela primeira vez na vida. No começo ela não sabia quem eu era, e não queria contar nada para não assustá-la - no país existiam histórias terríveis sobre o demónio da destruição (eu, muito prazer). A maioria destas histórias tinha fundo de verdade. Eu a amava com toda a força do meu coração. Qualquer sorrizo dela para mim me fazia sentir infinitamente feliz. Qualquer tristeza dela parecia o fim do mundo para mim. Eu esqueci quem eu era; eu esqueci de todo sangue que estava nas minhas mão; eu deixei de fazer o que eu sabia fazer apenas para ficar do lado dela. Ela era perfeita para mim, todas as vantágens dela eram ideais para mim; e todos os defeitos eram vantágens. Eu me sentia feliz por falar as coisas que nunca pensava nem falava antes, eu me sentia feliz por sentir as coisas que eu sentia. Eu me sentia feliz apenas por ela existir... e eu poder existir do lado dela. Eu tinha encontrado a paz. Pela primeira vez na vida. Todo dia eu acordava feliz, toda a noite eu dormia feliz. E, pela primeira vez na vida, eu estava morrendo de medo de tudo isso acabar de repente. A gente viveu juntos por apenas um més. Numa cidade pequena, cercada por muralhas altas. Um més de paz - para mim, ele parecia infinito... Após este més, ela foi sequestrada. ...Ninguém conseguiu me contar como isso aconteceu. Os guardas das muralhas foram assassinados, todos. Os poucos corpos que não foram levados tinham marcas de flechas - mas que flechas podiam alcançar mais de duzentos passos e acertar um guarda com armadura completa? Eu não estava na cidade neste dia. Fui passear na floresta para achar algum presente especial para a Orlana. Ela gostava de flores salvágens, que apenas foram encontrados apenas em um lugar daquela floresta. Pouca gente se atrevia a atravessar a floresta, mesmo em grupos grandes. Apenas jovens que queriam se provar, e soldados experientes. Alguns até voltavam, mas poucos. Outros eram encontrados. As vezes. Na floresta, desde a última grande guerra, existia mal. Não apenas animais salvágens, se bem que a população dos lobos cresceu muito nos últimos anos. A magia solta na última guerra alterou o espírito da floresta, e a transformou num lugar espantador. Nem mesmo os orcs, salvagens sem medo de nada, se atreviam a entrar na floresta sem motivos maiores. Bem, mas como eu estava falando, pouca gente se atrevia a atravessar a floresta. E muito menos entrar nela sem ser absolutamente necessário. Eu era uma destas pessoas e, pelo que eu sabia, era a única pessoa a fazer isso mais de uma vez. Na cidade, ninguém sabia quem eu era. Obviamente, todos ouviram falar histórias assustadoras sobre mim, mas ninguém associava o nome a mim. Quando eu voltei para a cidade e a encontrei destruída, não sei explicar o que eu senti. Corri pela cidade, gritando o nome dela em vão. Chegando à casa dela, encontrei apenas destroços. Eu sentei, perdido, no chão, e escutei uma voz baixa chamando me pelo nome. ...Os atacantes deixaram um dos velhos visinhos meus vivo, apenas para ele transmitir o recado para mim. Vivo... nem mesmo eu, que foi conhecido como um dos mais brutos e violentos da época, me atreveria a fazer isso com uma pessoa. Os dois braços dele foram arrancados, as pernas - espagadas, intestino estava solto e sujo de poeira, olhos arrancados. O fato dele estar vivo somente seria explicado pela magia. "Quem fez isso?" - perguntei, sem esperar por uma resposta. "Eles deixaram aviso" - eu li isso nos lábios dele, ele não conseguia falar de dor, - "Que o filho do mal os encontre na montanha escondida se ele quer ver a mulher dele". Filho do mal... Obviamente, era eu. E toda esta cidade foi destruída apenas para me convencer a visitar tal de montanha. Já ouvi falar dela, e não foi nada de bom nas histórias que contaram sobre ela. Eu acabei os sofrimentos do velho com um golpe rápido, sentindo que alguma coisa estava queimando dentro de mim. Eles... Eles... Eles se atreveram a atacar os meus conhecidos, somente para me obrigar a fazer algo. E, além disto, eles levaram a Orlana. Apenas por lembrar deste nome, eu senti tanto ódio dentro de mim, que levantei o rosto para o céu e gritei de raiva. Eu tentei ser de bem. Eu juro que eu tentei. Não foi culpa minha o fato de eu precisar a voltar a ser o símbolo da morte e destruição. Eu jurei matar eles todos, um por um. Não importa o custo. Não foi dificil encontrar a montanha. Eu sabia mais ou menos onde ela ficava e fui até ela. No caminho, eu passei pela floresta, e encontrei as duas espadas que escondi lá quando conheci a Orlana. As duas espadas curtas que eu tinha encontrado em um dos túmulos esquecidos há muito tempo - Palhaço e Sombra. Palhaço era a espada que eu usava na minha mão esquerda, uma espada curta com revestimentos de ouro. Sombra era a outra espada, um pouco mais longa, sem nenhum material precioso nela. Existia uma lenda que dizia que ambas as espadas pertenciam a um dos deuses malignos. Eu tinha jurado que nunca mais iria fazer mal para ninguém enquanto estava com a Orlana... Para chegar até a montanha, eu atravessei quatro cidades. Não estava me escondendo e, sabendo que tinha recompensa grande pela minha cabeça em cada uma destas cidades, eu fui atacado várias vezes. Mas mesmo quando eu estava banhando a minha espada no sangue dos atacantes, eu não sentia nada. Estava determinado para chegar na montanha, nada mais importava. Com cada morte eu não sentia nada, apenas pena pelo tempo perdido em vão. Cheguei na montanha um més depois. Última cidade pela qual eu passei estava deserta - provavelmente os boatos sobre a minha passagem chegaram até aqui. Eu não parei na cidade e fui na montanha. Montanha esquecida estava localizada na extremidade oriental desta terra. Para oriente dela não havia nada, apenas mar infinito. A montanha se erguia até o céu, e acabava no mar. Havia apenas uma passagem até o topo da montanha. Foi lá onde eles estavam me esperando. Eles não falaram nada, apenas me atacaram. No começo eles estavam tentando me cercar. Depois, eles apenas ficaram defendendo os passos da montanha, tentando não me deixar chegar ao topo. Ninguém fugiu. Os anos de guerras me transformaram num guerreiro quase imbativel. Pelo menos, ninguém dos atacantes conseguiu me ferir. Não sei se eles sabiam da minha imortalidade, mas ninguém chegou nem perto a tentar comprová-la. Eu não lembro de como eu fiz este caminho. Lembro que foram mais de seis mil passos de batalha constante, lembro de sangue escorrendo feito um rio para baixo, das minhas espadas nas minhas mãos brilhando na luz do sol... E dos corpos jogados para baixo. Ninguém deles sobreviveu. Os últimos cém passos eu andei tranquilo, sem utilizar as espadas. Não sei quantas pessoas eu matei no dia, só sei que com cada passo eu me sentia mais próximo ao meu objetivo. Quando eu finalmente cheguei ao topo da montanha, eu a vi. Vestido em um vestido vermelho e segurando duas adagas, estava parada uma mulher alta e delicada. Cabelos pretos, longos, estavam cobrindo o rosto dela. "Seja bem-vindo" - disse ela, - "para a sua morte. Eu sou a Rainha deste lugar". "Onde está a Orlana?" - perguntei, "eu vim atrás dela. Se você não me atrapalhar, eu vou matar você rapidamente". "Tarde demais!" - ela deu risada. - "Você chegou bem na hora do sacrifício dela para o Senhor da Guerra!" Ela apontou para a extremidade deste lugar, onde eu percebi um altar, com uma pessoa presa e um sacerdote, vestido de preto e vermelho, com uma espada na mão. "Olha para isso e lembra que você veio até aqui para morrer nas minhas mãos" - disse ela, e pulou na minha direção, apontando as adagas dela para mim. Eu respondi automaticamente, bloqueando com a minha mão direita o ataque dela e enfiando o Palhaço, segurado na minha mão esquerda, no peito dela. No mesmo momento, eu vi no canto do olho como o sacerdote abaixou a espada, atravessando o peito da pessoa presa no altar. No último movimento, a pessoa ergueu a cabeça, e eu reconheci a Orlana. "Nããoo!!" - eu achei que a minha garganta iria se rachar deste grito. Por isso eu não percebi que a Rainha ainda estava viva e estava me dizer alguma coisa. Eu não queria escutar, mas a voz dela, embora baixa, entrou nos meus ouvidos. "Bem-vindo, Senhor" - disse ela para mim, engolindo sangue que estava saindo da boca dela. "Sacrifício da Rainha, dos guerreiros e do Amor, como foi escrito na profecia, foi feito. Você é o novo senhor deste mundo". "Eu??" - eu perguntei, sentindo um vazio infinito na alma. "Porque eu?" "Porque foi dito assim. Você é um filho dos deuses, que tem sangue imortal. Porém, você não é imortal a toa, voce tira a vida dos outros para a sua. Sempre que você mata alguem a vida dele se transfere para a sua. Você não vai morrer enquanto você continua matando pessoas". "Até as suas espadas - o Palhaço e a Sombra - te reconheceram. Você sacrificou o seu amor, vindo até aqui, e agora não tem mais volta. Você é o novo deus deste mundo". Ela tentou falar mais alguma coisa, mas eu, com o movimento brusco da minha mão direita, a parei, enfiando a Sombra no coração dela e senti a vida dela se juntando com a minha. Será que realmente eu sou isso? Eu andei mecanicamente até o altar e tirei a Orlana. O sacerdote tentou me atrapalhar mas eu, sem olhar para trás, parei ele com o Palhaço. A vida dele se juntou às outras presentes dentro de mim. Eu coloquei o corpo da Orlana nas pedras. Ela parecia estar dormindo. Ela estava dormindo, mas desta vez para sempre. O mes que passei do lado dela; um mes apenas, em uma vida inteira cheia de batalhas, sangue, sujeira e maldade. Um mes de felicidade. Será que este foi o preço que eu devia pagar? Eu matei muita gente para chegar até aqui, muitas vezes sem saber porque. E tudo isso para descobrir que fiz tudo isso apenas seguindo uma profecia que eu nem sequer sabia. Será que para chegar a ser feliz você precisa passar por um inferno? Ou será que o inferno é a vida após a felicidade? Quem decide porque acontece o que acontece? Porque pessoas simples vivem felizes, sem se preocupar com isso... E tem pessoas que, ao encontrar felicidade, a perdem para sempre, deixando apenas um vazio infinito e eternidade de dor na alma... Eu olhei para o céu. Ele nunca mente. Eu olhei para o mar. Ele nunca pára. Quem sou eu? Porque fui feito assim? Porque tenho que passar por esta dor, dor infinita? Eu, quem já morreu inúmeras vezes, que já sentiu toda a dor do corpo, como eu consigo sentir tanta dor por dentro? Será que este é o jeito correto? Será que a única saida após a felicidade é dor, ou a própria ou a dos outros? Eu estava parado, fazendo perguntas para as quais não tive resposta. Como viver agora? Será que tudo o que eu senti é apenas ilusão, e minha verdade é essa? Aquele que traz dor e sofrimento para todos os outros. Será que eu estava matando os próprios sonhos quando estava lutando contra o mundo? Será que a felicidade foi apenas uma ilusão? Céu sublime em cima de mim. Mar infinito embaixo. As duas cores se fundem no horizonte; as duas cores se tornam uma só - tranquilidade infinita e turbulência constante se transformam em paz. Eu andei para a frente e parei na beira do abismo. Mas estava batendo as ondas na rocha muito, muito embaixo. A vida está escrita para todos. A gente segue o que foi determinado para nós. O que eu faço com a minha imortalidade? Será que sou mesmo o mal encarnado? Eu lembrei da Orlana. Eu estava feliz. Foi um més de felicidade. Será que isso é muito ou pouco comparando com a eternidade? O que me espera no fim desta eternidade? Céu infinito... Mar infinito... Caminho infinito. Eu dei o passo para frente.